quarta-feira, 15 de julho de 2026

Manuel Valentim Dias Júnior

 

Há noventa anos, faz hoje exactamente noventa anos, que numa madrugada que a história oficial preferiu esquecer, bateram à porta de um homem livre. Não vinham prender um criminoso. Vinham calar uma consciência.

Era solteiro, 26 anos, contabilista do pai e dos sócios que ergueram uma empresa de transportes e oficina com as próprias mãos e nela empregaram vizinhos amigos e quem precisava de trabalho. Era republicano por convicção firme, não por moda nem por conveniência. Era democrata num tempo em que essa palavra já soava perigosa aos ouvidos do regime. E era, sobretudo, um livre pensador, dessas pessoas incómodas que insistem em julgar por si mesmas, em vez de aceitar o julgamento que lhes impõem.

Chamaram-lhe comunista. Não o era, nunca o foi. Mas a PVDE não distinguia matizes, bastava simpatizar com a causa dos republicanos espanhóis, bastava recusar-se a ficar calado perante o avanço do fascismo em Espanha, para se tornar suspeito. Ajudou quem podia, como podia. Pagou por isso com a prisão e com a tortura, esse instrumento cobarde dos que não sabem vencer ideias e por isso tentam quebrar corpos.

 Não quebraram nada que se visse.

Porque este homem, além de tudo o resto, era melómano. Amava a música com a mesma obstinação com que amava a liberdade, e talvez as duas coisas fossem, para ele, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. A música não se rende a ordens; obedece apenas às suas próprias leis internas, à harmonia que cada um descobre e reconhece como verdadeira. Um homem que ouve assim, que se deixa atravessar por uma sinfonia sem pedir licença a ninguém, já sabe, no corpo e na alma, o que é ser livre. Nenhuma cela consegue fazer esquecer isso.

Passaram noventa anos. O regime que o prendeu caiu, como caem sempre os regimes que temem os homens livres. Ele continuou a ser o que sempre foi: democrata indefectível, incapaz de trocar a verdade pela comodidade, incapaz de calar-se quando calar-se seria mais seguro. Mas o mal estava feito, O SPT durou até ao fim da sua vida.

 Hoje, recordá-lo não é apenas exercício de memória familiar. É lembrar que a liberdade teve sempre um preço, e que houve quem o pagasse sem hesitar, para que outros, depois, pudessem ouvir música em paz.

Honra e glória ao meu pai, Manuel Valentim Dias Júnior

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