Ontem fui atestar o carro, o maior.
Amaldiçoei os senhores da guerra e os carrascos e vítimas que são donos do
petróleo. Lembrei-me do hidrogénio.
Nunca fiz, não pretendo fazer, nem
vi feito, o cálculo do tempo que entremeou a invenção da roda, o carril, a
vela, o leme, a asa. Deve haver uma fórmula que ainda ninguém descobriu, mas as
leis do acaso, ao que sei, parecem ser, contranatura, rigorosas. A espécie
humana chegou a este momento gordo de contradições. Vai responder com o
hidrogénio? Com um desenho diferente de asa ou de leme? Ou dará um salto
psicofísico?
As grandes mudanças tecnológicas
quase nunca nascem de uma máquina extraordinária. Nascem porque a sociedade já
não consegue viver com a tecnologia anterior.
A roda não substituiu o homem a pé,
ampliou-lhe o mundo. A vela não substituiu os remos, abriu oceanos inteiros. O
carril não foi só uma diligência melhorada, mudou a economia. A asa não foi um
pássaro aperfeiçoado, aboliu distâncias.
Talvez estejamos precisamente num
desses momentos.
O petróleo deu-nos um século de
abundância extraordinária, mas trouxe dependências, guerras, alterações
climáticas e uma geopolítica em que poucos controlam aquilo de que quase todos
precisam. O preço que paguei ontem na bomba não era só o preço do combustível.
Continha uma parcela de conflitos, de especulação, de impostos, de transporte,
de refinarias, de frágeis equilíbrios internacionais.
E, sem pudor nem mentira, diga-se
que os Trumps deste mundo, têm provocado um atraso em todo o processo
civilizacional, ao negarem a ciência, retirando-se de acordos climáticos,
alimentando a dependência dos combustíveis fósseis como se o futuro não fosse
além da sua própria vida, uma miragem de gente nova.
Responderemos com o hidrogénio?
Talvez, em parte. Mas suspeito que
o hidrogénio não será “a” resposta. Será uma das respostas, ao lado de baterias
mais eficientes, energia nuclear de nova geração, fusão, combustíveis
sintéticos, redes elétricas inteligentes e tecnologias que hoje talvez nem
imaginemos.
E o salto psicofísico?
Se falamos de uma transformação da
consciência humana, essa é a mudança mais difícil de todas. A nossa
inteligência técnica avança muito mais depressa do que a nossa inteligência
moral. Continuamos a resolver problemas do século XXI com emoções herdadas da
Idade da Pedra: medo, território, poder, rivalidade. Construímos satélites e
ainda fazemos guerras por recursos. Dominamos o átomo, mas nem sempre nos
dominamos a nós próprios.
Talvez a verdadeira revolução não
seja descobrir um combustível novo. Talvez seja descobrir uma forma de
cooperação que torne os combustíveis motivo de progresso, e não de conflito.
Quando uma civilização sente que um
paradigma está a chegar ao limite, começa a investir em alternativas que
parecem quase ficção científica. É o caso do novo projeto chinês de fusão
nuclear: reproduzir na Terra o processo que alimenta o Sol. Em vez de partir
átomos pesados, como fazem as centrais atuais, a fusão une núcleos leves,
isótopos do hidrogénio, libertando quantidades enormes de energia.
O íman de 582 toneladas não existe
por extravagância. É preciso para gerar campos magnéticos de intensidade
colossal, capazes de manter um plasma acima dos 100 milhões de graus sem tocar
nas paredes do reator. É uma das maiores dificuldades da engenharia moderna.
Mas há uma nuance importante: mesmo
que um reator destes funcione como se espera, isso não quer dizer que em 2030
ou 2040 passe a alimentar cidades inteiras. Há sempre uma distância entre
provar que algo é possível e torná-lo economicamente banal. O primeiro voo dos
irmãos Wright durou segundos. Menos de setenta anos depois, havia homens a
caminhar na Lua. Talvez a fusão siga um caminho parecido.
O mais interessante é que ela e o
hidrogénio podem não ser rivais, mas parceiros. Imaginemos reatores de fusão a
produzir eletricidade em abundância. Essa eletricidade serviria para fabricar
hidrogénio por eletrólise da água, em quantidades gigantescas. O hidrogénio
seria depois o combustível dos navios, dos aviões, das siderurgias, das
indústrias químicas. A fusão produziria a energia, o hidrogénio levá-la-ia até
onde fosse preciso. Duas peças do mesmo puzzle.
«Mais vale acender o futuro do que
apagar o presente».
Gastamos demasiado talento a gerir
crises e pouco a construir soluções duradouras. A investigação científica é das
poucas atividades humanas cujo objetivo verdadeiro é esse: iluminar um futuro
que ainda não existe.
Há sessenta anos, se alguém
dissesse ao meu pai, homem clarividente, que um pequeno aparelho no bolso
substituiria com vantagem os seus enormes ficheiros, que lhe permitiria ouvir a
versão que mais gostasse de qualquer sinfonia, falar de imediato com qualquer
pessoa do planeta, consultar milhões de livros, fotografar eclipses e
localizar-se por satélite, ele tê-lo-ia chamado “sonhador”.
Talvez daqui a cem anos um
estudante leia, num livro de História, que no início do século XXI a humanidade
queimava petróleo tirado do subsolo para mover automóveis. E talvez ache isso
tão estranho quanto nós achamos hoje aquecer uma locomotiva a lenha.
Se isso acontecer, não será porque
o petróleo acabou. Será porque alguém teve a coragem de imaginar uma maneira
melhor de acender o futuro.
Não sei se será o hidrogénio, o
mais abundante combustível no mundo, ou a fusão nuclear, ou uma tecnologia que
ainda ninguém imaginou. Mas há momentos em que uma civilização percebe que
aperfeiçoar a solução antiga já não chega. É aí que começa a procurar uma
linguagem nova para os mesmos problemas.
Há uma frase de Victor Hugo de que
gosto muito: “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.
Talvez o tempo do hidrogénio ainda
não tenha chegado por inteiro. Talvez nem seja ele a ideia vencedora. Mas a
procura de uma energia abundante, limpa e acessível deixou de ser utopia.
Tornou-se necessidade histórica.