Há noventa anos, faz hoje exactamente noventa anos, que numa madrugada que a história oficial
preferiu esquecer, bateram à porta de um homem livre. Não vinham prender um
criminoso. Vinham calar uma consciência.
Era solteiro, 26 anos, contabilista do pai e dos
sócios que ergueram uma empresa de transportes e oficina com as próprias mãos e
nela empregaram vizinhos, amigos e quem precisava de trabalho. Era republicano
por convicção firme, não por moda nem por conveniência. Era democrata num
tempo em que essa palavra já soava perigosa aos ouvidos do regime. E era,
sobretudo, um livre pensador, dessas pessoas incómodas que insistem em julgar
por si mesmas, em vez de aceitar o julgamento que lhes impõem.
Chamaram-lhe comunista. Não o era, nunca o foi. Mas a PVDE
não distinguia matizes, bastava simpatizar com a causa dos republicanos
espanhóis, bastava recusar-se a ficar calado perante o avanço do fascismo em
Espanha, para se tornar suspeito. Ajudou quem podia, como podia. Pagou por isso
com a prisão e com a tortura, esse instrumento cobarde dos que não sabem vencer
ideias e por isso tentam quebrar corpos.
Não quebraram nada que se visse.
Porque este homem, além de tudo o resto, era melómano. Amava
a música com a mesma obstinação com que amava a liberdade, e talvez as duas
coisas fossem, para ele, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. A música
não se rende a ordens; obedece apenas às suas próprias leis internas, à
harmonia que cada um descobre e reconhece como verdadeira. Um homem que ouve
assim, que se deixa atravessar por uma sinfonia sem pedir licença a ninguém, já
sabe, no corpo e na alma, o que é ser livre. Nenhuma cela consegue fazer
esquecer isso.
Passaram noventa anos. O regime que o prendeu caiu, como
caem sempre os regimes que temem os homens livres. Ele continuou a ser o que
sempre foi: democrata indefectível, incapaz de trocar a verdade pela
comodidade, incapaz de calar-se quando calar-se seria mais seguro. Mas o mal
estava feito, O SPT durou até ao fim da sua vida.
Hoje, recordá-lo não é apenas exercício de memória familiar.
É lembrar que a liberdade teve sempre um preço, e que houve quem o pagasse sem
hesitar, para que outros, depois, pudessem ouvir música em paz.
Honra e glória ao meu pai, Manuel Valentim Dias Júnior