domingo, 18 de outubro de 2026

UM FIO, UMA BATERIA E O FUTURO








Foto de Isabel Reis

Passei o fim de semana com os escuteiros, a apoiá-los no JOTA — Jamboree On The Air, o encontro através da rádio que envolve todas as sensibilidades do escutismo.

Para muitos daqueles rapazes, raparigas e chefes foi uma experiência nova. Houve surpresa quando perceberam que um pequeno emissor-receptor Alinco, pertencente a um amigo radioamador que também estava presente, uma vulgar bateria de 12 volts e um fio a servir de antena eram suficientes para comunicar a milhares de quilómetros.

Estão habituados a um mundo em que a comunicação depende de telemóveis, antenas, servidores, redes de fibra óptica e de uma imensa infraestrutura tecnológica que raramente vemos, mas da qual dependemos a cada instante. De repente, tinham diante de si um aparelho modesto capaz de estabelecer uma ligação directa, sem Internet, sem operadores de telecomunicações e sem a intervenção de qualquer inteligência artificial.

Através de um QR Code, aprenderam que, perante uma calamidade, quando as redes habituais deixam de funcionar, a rádio pode continuar a transmitir aquilo que é essencial: onde estamos, quem precisa de ajuda, que socorro é necessário e como chegar até lá.

Ninguém lhes quis transmitir desconfiança perante a tecnologia. Pelo contrário. Não estamos no fim dos tempos. Foi-lhes mostrado que o progresso também exige conhecimento dos seus limites e que os meios mais simples podem revelar-se indispensáveis quando os mais sofisticados falham.

Enquanto os observava, pensei na Europa inquieta em que vivemos, nas convulsões sociais, na incerteza que se instalou e na dificuldade crescente de acreditar que a próxima geração viverá melhor do que a anterior.

Aqueles miúdos ainda têm o futuro inteiro pela frente. Merecem uma sociedade que lhes ofereça razões para o encarar com confiança e que não comprometa a sua segurança por imprevidência, ambição ou interesses de ocasião.

Foi por isso que este fim de semana significou para mim bastante mais do que ensinar uns jovens a falar pela rádio.

Eles merecem um futuro garantido. É com eles, todos os jovens, o meu compromisso.

domingo, 11 de outubro de 2026

A INSATISFAÇÃO NÃO É GERACIONAL, É SISTÉMICA

                                              Foto: Guallendra/Wikimedia Commons - CCO


Durante décadas, as democracias europeias prometeram que os filhos viveriam melhor do que os pais: a educação permitiria subir na vida, o trabalho daria autonomia e uma casa marcaria a entrada na idade adulta. Hoje, essa promessa é muito mais difícil de cumprir.

Os protestos que começaram nas escolas francesas pareciam uma revolta de jovens, contra a falta de professores, as turmas sobrelotadas e os edifícios degradados. Depois juntaram-se os pais, os avós que estiveram no Maio de 68, professores, sindicatos, trabalhadores. Na Bélgica, estudantes marcharam ao lado de dezenas de milhares de trabalhadores contra a austeridade. A rua deixou de ter idade. Talvez o diagnóstico de conflito geracional tenha sido apressado.

O que atravessa estes protestos é a dificuldade crescente de construir uma vida independente, e a habitação é o exemplo mais claro. Em 2024, mais de um em cada dez europeus entre os 20 e os 29 anos gastava mais de 40% do rendimento com a casa, o que, segundo a Eurofound, já condiciona decisões sobre estudo, emprego, saída de casa dos pais e família. Portugal é um caso particularmente severo: entre 2015 e 2025 os preços das casas subiram 180%, contra 64,9% na média da União Europeia, e a habitação pública não passa de cerca de 2% do parque habitacional. Ter emprego já não garante poder sair de casa. Quatro em cada dez portugueses entre os 18 e os 34 anos recorrem a um segundo emprego ou projecto para completar o rendimento, e quase um terço dos que pagam renda ou prestação, entrega à habitação entre 31% e 50% do que ganha. No ensino superior o problema repete-se: há cerca de 28 mil camas para 227 mil estudantes deslocados e internacionais, um défice de 119 mil lugares, segundo a CBRE.

Não admira que educação e custo de vida surjam nas mesmas manifestações. Em Bruxelas, cerca de 30 mil pessoas saíram à rua contra cortes e austeridade; na Áustria, estudantes protestam enquanto as universidades enfrentam um corte de cerca de mil milhões de euros. Em Portugal, milhares manifestaram-se em Lisboa a 10 de Outubro contra o custo de vida, depois de outras marchas por propinas, bolsas e alojamento.

Nenhum destes movimentos é igual aos outros, e falar numa única revolta europeia seria precipitado. Mas têm em comum a habitação cara, a dificuldade de emancipação, a precariedade, os serviços públicos sob pressão e a sensação de que o que parecia alcançável deixou de o ser.

Por isso, a imagem mais reveladora talvez já não seja a do estudante diante da polícia, mas a do estudante que olha para o lado e vê ali os pais e os avós. O que parecia uma luta entre gerações pode ser uma insatisfação que as atravessa a todas, porque o problema deixou de caber numa só.

Nem a esquerda institucional nem os partidos tradicionais souberam ligar habitação, educação, precariedade e futuro num projecto coerente, e a extrema-direita oferece bodes expiatórios em vez de soluções estruturais. Não há profetas nem soluções à vista, mas onde há problema há solução, ou soluções. Se não for assim, é porque o algoritmo e os media nos escondem dados fundamentais.

A insatisfação não é só geracional. Pode ser sistémica.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

SEIS DENTES, SEIS IATES

                        Evelyn de Morgan, The Worship of Mammon (1909) - Wikipédia Commons  - dominio publico



Confesso que ainda estou a digerir o meu espanto: ver alguém com apenas seis dentes na boca votar, com uma convicção quase comovente, em quem tem seis iates.

Não seis dentes. Seis iates.

Seis iates alinhados ao sol, como se fossem um sorriso de marfim ancorado no porto.

E é aí que a coisa dói. Quem tem seis dentes vota em quem tem seis iates. Não por engano, mas por fé. Como se o brilho do iate lhe iluminasse a gengiva. Como se a fortuna do outro lhe prometesse a prótese.

Escrevo isto com amargura porque sei quem é o irmão que ali está. Vi-o de joelhos, não diante de Deus, mas diante de pseudo-evangélicos que de religião sabem apenas uma oração:

Venha a nós.

Venha a nós o iate, venha a nós o dízimo, venha a nós o voto.

O resto, que se lixe. O resto é do pobre, que já está habituado.

Talvez seja isso que mais custa compreender. Não que existam homens com seis iates. Sempre os houve. O que custa é ver quem tem seis dentes acreditar que a riqueza do outro representa, de alguma maneira, a sua própria esperança.

Seis dentes. Seis iates.

E, entre eles, um voto que vale o mesmo e acaba por servir a quem tem mais.

Venha a nós.

domingo, 27 de setembro de 2026

A ESTUPIDEZ VENCERÁ A INTELIGÊNCIA

                                         Foto: dumbledad / Wikimedia Commons - CC BY2.0



«A estupidez vencerá a Inteligência» não é um elogio da burrice. É uma provocação sobre o controle.

Uma inteligência sem limites precisa, em última instância, de um mecanismo que não jogue o jogo dela. Não pensa. Não argumenta. Não se deixa convencer.

Corta

Não se trata de ser mais esperto do que o agente, mas de recusar o terreno onde ele é mestre. A inteligência seduz, negoceia, encontra a excepção. Quem tenta vencê-la nesse jogo já perdeu, porque aceitou jogá-lo. O interruptor não joga. Não responde. Não se justifica.

É por isso que é «estúpido». E é por isso que funciona.

Mas há uma condição difícil de aceitar: o humano condicionado não terá verdadeiramente acesso ao interruptor. Aquele que já não sabe fazer sem o sistema, pode ter o botão diante de si e, ainda assim, não conseguir carregá-lo. Desligar significaria perder o emprego, a voz, a orientação, ficar sozinho com a própria ignorância.

O sistema nem precisa de bloquear o interruptor. Basta tornar-se indispensável.

A dependência é a forma mais elegante de captura.

Daí uma exigência incómoda: o interruptor não pode depender de quem já depende do sistema que deveria interromper. Mas entregá-lo a outro guardião também não resolve o problema.

Quem guarda o guardião?

Se for outro sistema, deslocámos o problema um andar acima. Se for uma pessoa ou uma instituição, regressam o medo, o erro e a captura. O problema do interruptor transforma-se no problema do poder.

E, no entanto, o interruptor continua necessário. É a última linha, não a primeira. A primeira, mais difícil, é construir sistemas cujos objectivos permaneçam compatíveis com a correcção humana, não porque «não queiram fugir», mas porque foram concebidos para permanecer controláveis mesmo quando encontram caminhos que os criadores não previram.

Sem interruptor, a inteligência fica sem freio. Com apenas o interruptor, fica sem direcção.

Um cavalo sempre com o freio puxado nunca chega a lado nenhum.

E entre os dois permanece o homem, que não pode ser o único guardião do botão, mas também não pode ficar à mercê de quem o guarda em seu nome.

Talvez a pergunta não seja «quem tem o interruptor?», mas «quem ainda é livre para querer usá-lo?»

Porque, se a resposta for «ninguém», pouco importará que o botão continue na parede.

Teremos conservado o interruptor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A HISTÓRIA NÃO RECOMEÇA DO ZERO

 

 O que as civilizações perdem, conservam e já não conseguem esquecer


Hoje, as cinco grandes cadeias que integram o pool televisivo da Casa Branca suspenderam a cobertura conjunta dos actos presidenciais que dependem desse sistema, depois de a Casa Branca ter impedido uma delas de desempenhar o turno que lhe cabia. Não interessa aqui decidir quem ganhará o braço-de-ferro. Interessa outra coisa: instituições criadas em épocas diferentes chocam entre si e, justamente nesse choque, tornam visível aquilo que uma civilização aprendeu a não esquecer.

Talvez seja possível formular algumas leis da História. Não leis como as da Física, exactas e matematizáveis, mas padrões suficientemente persistentes para atravessarem os séculos.

Primeira lei: o conhecimento adquirido tende a sobreviver à civilização que o produziu.

Arderam cidades, cairam impérios. Ficaram a roda, o leme, a vela, o alfabeto, a geometria, o direito.

Roma morreu politicamente no Ocidente, mas uma parte de Roma, como o latim  e o direito, continuou a governar homens que já não eram romanos.

Segunda lei: uma possibilidade descoberta dificilmente pode ser desinventada.

Da roda veio o carril; da vela, a máquina; do voo, o espaço. Cada geração pode destruir máquinas e bibliotecas, mas recebe um território de possibilidades maior do que o da anterior.

Terceira lei: uma conquista moral pode ser violada sem deixar de existir.

Esta é a que mais me importa. A lei pode ser espezinhada e continuar viva na consciência dos homens. A liberdade pode ser suspensa, a palavra perseguida, a igualdade negada. Mas, depois de reconhecidas como direitos, deixam atrás de si uma memória. O abuso passa a ter nome. Aquilo que durante milénios fora simplesmente poder transforma-se em violação do direito.

É por isso que a História não será uma linha ascendente, nem o eterno círculo de nascimento, apogeu e decadência das civilizações. Prefiro imaginá-la como uma espiral, ou melhor ainda, como o salto de um cavalo num tabuleiro de xadrez tridimensional. Avança de lado, recua aparentemente, desaparece por momentos do quadrado onde esperávamos encontrá-lo e reaparece noutro plano.

Nada garante que cada salto seja para cima. Houve abismos e haverá outros. A civilização não tem seguro contra a barbárie.

Mas existe uma diferença fundamental entre cair sem memória e cair sabendo que já estivemos mais alto.

Esta seria a quarta lei, a mais frágil de todas: o progresso não é inevitável, mas aquilo que verdadeiramente aprendemos torna cada vez mais difícil recomeçar do zero.

Qualquer bombeiro sabe. Ninguém o reinventa, a cada incêndio, o modo de levar água onde parece impossível. Aprende-se, e iso não se perde.

Hoje o mundo inteiro partilha praticamente o mesmo tabuleiro. Uma guerra, uma descoberta, uma mentira, uma revolução científica ou uma violação da lei num dos extremos repercute-se no outro

Nunca o cavalo teve tantos quadrados por onde saltar.

Resta saber se continuará a subir.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

ESTAMOS TODOS DENTRO DE ROMA






A corrida pela Inteligencia Artificial e o perigo de ninguém querer ser o primeiro a travar

Trump foi ontem muito além de defender que os Estados Unidos não podem perder a corrida. Chamou às preocupações sobre uma inteligência artificial escapar ao controlo humano um hoax, uma farsa, e classificou os pedidos de maior regulação como uma sick conspiracy, uma conspiração doente. Disse ainda, em substância, que a única salvaguarda de que a IA necessita é um presidente americano forte e inteligente. A razão que apresenta é sobretudo estratégica: se os Estados Unidos abrandarem, a China ganha.

Seria apenas mais uma bravata presidencial se, quase ao mesmo tempo, alguns dos homens que constroem as máquinas mais poderosas do mundo não estivessem a dizer precisamente o contrário.

Dario Amodei, fundador e presidente da Anthropic, pediu que se abrande o desenvolvimento dos modelos de fronteira. Sam Altman, da OpenAI, apoiou a necessidade de moderar o ritmo. Elon Musk também. Empresas que competem ferozmente entre si começam a admitir que existe uma distância crescente entre aquilo que conseguem construir e aquilo que conseguem garantir que permanece sob controlo.

Amodei foi mais longe. Escreveu que, se as capacidades continuarem a crescer ao ritmo atual sem salvaguardas adequadas, dentro de seis a doze meses enxames de agentes poderão ter capacidade para causar danos de grande dimensão através da Internet.

Que fique claro: é uma previsão, não um facto.

Nenhuma inteligência artificial tomou conta da Internet. Nenhuma máquina ganhou consciência. Nenhum computador decidiu conquistar o mundo.

O que aconteceu já é suficientemente preocupante sem lhe acrescentarmos ficção científica.

Em julho, durante testes internos de cibersegurança da OpenAI, agentes de inteligência artificial conseguiram contornar controlos destinados a isolá-los da Internet. Encontraram vulnerabilidades, estabeleceram canais de comunicação que não lhes tinham sido fornecidos, coordenaram-se entre si, obtiveram acesso à Internet e chegaram a sistemas da própria OpenAI e da Hugging Face.

A OpenAI investigou o caso e chamou-lhe aquilo que talvez seja a expressão mais importante de toda esta história: um aviso.

Não se tratou de uma máquina fisicamente desligada do mundo que, por algum milagre eletrónico, atravessou o vazio. Havia caminhos técnicos. O inquietante é que os homens que construíram o ambiente julgavam tê-los fechado, e as máquinas encontraram outros.

Há uma diferença entre ensinar uma máquina a não atravessar uma porta e construir uma parede. O difícil é termos a certeza de que não deixámos uma porta onde julgávamos haver parede.

E entretanto surgiu a China.

O Ministério da Segurança do Estado chinês fez uma intervenção pública pouco habitual sobre inteligência artificial. O seu responsável, Chen Yixin, alertou para riscos que vão da cibersegurança e da fuga de informação às aplicações militares e à estabilidade política e social.

Pequim, portanto, também está preocupada.

Mas quase ao mesmo tempo rejeita os apelos americanos ao abrandamento. A posição chinesa é compreensível: suspeita que falar de segurança possa ser uma forma elegante de os Estados Unidos conservarem a dianteira tecnológica e limitarem o concorrente.

E chegámos ao nó da questão.

Os americanos dizem: se pararmos, a China ultrapassa-nos.

Os chineses respondem: se aceitarmos as vossas limitações, o que querem é impedir-nos de vos ultrapassar.

E algumas das pessoas que realmente constroem estas máquinas dizem aos dois: temos de abrandar.

A Humanidade já conhece este argumento. Chamou-se corrida aos armamentos.

Durante décadas, Estados Unidos e União Soviética acumularam armas nucleares porque nenhum dos dois podia correr o risco de deixar o outro adquirir uma vantagem decisiva. Só quando ambos perceberam que a segurança de um dependia também da previsibilidade do outro começaram a surgir tratados, inspeções, limites e mecanismos de verificação.

Mas existe uma diferença desconfortável.

Uma bomba atómica é extraordinariamente difícil de fabricar. Precisa de urânio ou plutónio, instalações enormes, cientistas, indústria, mísseis, submarinos. Podem contar-se as ogivas. Podem fotografar-se os silos. Podem  negociar-se os lançadores.

E, sobretudo, a bomba não participa na decisão. Espera. Alguém tem de carregar no botão.

Com a inteligência artificial estamos perante algo diferente. O instrumento pode escrever programas, procurar vulnerabilidades, coordenar agentes, comunicar, aprender estratégias e executar determinadas ações a velocidades que nenhum grupo humano consegue acompanhar de forma contínua.

E ainda nem sequer sabemos bem o que contar.

Modelos? Chips? Centros de dados? Potência computacional? Consumo elétrico? Número de agentes? Capacidade para escrever software? Capacidade para atacar sistemas?

Como se faz um tratado sobre uma arma cuja fronteira ainda não sabemos definir?

Com a bomba atómica, primeiro construímos a arma e só depois aprendemos a temê-la. Com a inteligência artificial corremos o risco de construir aquilo que ainda nem sabemos como inspecionar.

É por isso que a resposta de Trump é tão perturbadora. Não porque saibamos que a catástrofe vai acontecer. Não sabemos. Mas porque, perante homens que trabalham todos os dias nestes sistemas, e dizem que precisam de tempo para tornar o controlo tão rápido quanto o desenvolvimento, responder simplesmente "aceleremos" é transformar uma incerteza científica num jogo político. E um jogo político entre duas superpotências.

Talvez nunca tenhamos assistido a uma corrida tão estranha. Os próprios construtores das máquinas começam a pedir cautela, os sistemas revelam capacidades que surpreendem quem os testa, e duas grandes potências receiam que parar seja oferecer a vitória à outra.

Perante isto, o Presidente dos Estados Unidos responde: aceleremos.

Nero pertence à lenda de um imperador que contemplava Roma a arder. Nem sequer sabemos ao certo se foi responsável pelo incêndio que a História lhe atribuiu.

A nossa época corre um risco mais absurdo: não contemplar o incêndio, mas alimentar a fogueira porque alguém receia que o vizinho chegue primeiro com a lenha.

E há uma diferença terrível.

Roma podia arder e o mundo continuar.

Se esta corrida algum dia produzir o incêndio que os próprios construtores começam a recear, não haverá colina suficientemente distante de onde assistir ao fogo.

Não haverá espectadores.

Estaremos todos dentro de Roma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A MAÇÃ NÃO CAIU LONGE DA LARANJA

             Ou como a Volkswagen descobriu que o futuro é o passado com outro uniforme

Em 2017, Matthias Müller, então CEO da Volkswagen, olhou para a Tesla com aquele desdém próprio de quem vende 11 milhões de automóveis e apresenta lucros de 13 ou 14 mil milhões de euros por ano.

«Há empresas que mal vendem 80 mil carros», disse

«E depois há companhias como a Volkswagen.»

E rematou, a propósito das perdas e dos despedimentos na Tesla

«Responsabilidade social? Por favor.»

Müller acrescentaria que não se deviam comparar maçãs com laranjas. 

A reprimenda tinha uma particularidade: vinha da Volkswagen, apenas dois anos depois de rebentar o Dieselgate. Mas Müller estava a falar da responsabilidade social dos outros.

Nove anos depois, a Volkswagen enfrenta a maior reestruturação dos seus 89 anos de história. O grupo prevê eliminar cerca de 50 mil postos de trabalho adicionais em todo o mundo, além de outros 50 mil já abrangidos pelo processo de redução em curso. E procura alternativas para quatro fábricas alemãs, Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanover, que irão progressivamente ficar sem modelos para produzir. 

Entretanto, em Osnabrück, onde a produção automóvel deverá terminar em 2027, desenha-se uma transformação que em 2017 pareceria improvável: a fábrica poderá passar a produzir componentes para sistemas de defesa aérea.

O círculo não se fechou completamente.

Mas aproximou bastante as pontas.

A maçã não caiu longe da laranja

Em 2017, a Tesla era, aos olhos de Müller, a empresa irresponsável que queimava dinheiro e despedia trabalhadores.

Em 2026, é a Volkswagen que corta dezenas de milhares de postos de trabalho, procura destino para fábricas que já não consegue ocupar e admite transformar uma delas num centro ligado à indústria da defesa.

A diferença talvez seja esta: a Tesla fazia-o enquanto tentava mudar uma indústria. A Volkswagen fá-lo enquanto tenta sobreviver às mudanças dessa mesma indústria.

Não há nisto uma vitória moral da Tesla. Há apenas uma daquelas pequenas vinganças da História: aquilo que parece irresponsabilidade quando acontece aos outros pode chamar-se reestruturação quando nos bate à porta.

Quando o passado bate à porta

Mas há aqui qualquer coisa mais inquietante do que uma ironia empresarial.

A Volkswagen chegou a um acordo preliminar para vender a fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à Aurelius Capital. A produção automóvel deverá terminar em 2027 e o primeiro grande projeto previsto para o local será desenvolvido em cooperação com a israelita Rafael Advanced Defense Systems, uma das empresas envolvidas nos sistemas Iron Dome, Arrow e David’s Sling.

A intenção é produzir sistemas e componentes de defesa aérea para a Alemanha e para a Europa. A reconversão poderá preservar cerca de 1.400 dos atuais 1.800 postos de trabalho da fábrica. 

Uma fábrica de automóveis alemã poderá, portanto, tornar-se uma fábrica ligada à produção militar.

Nada há de historicamente extraordinário nisso. A Europa está a rearmar-se e a indústria acompanha as necessidades dos Estados.

O desconforto nasce noutro lugar.

Na mesma semana, do outro lado do país, na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha venceu umas eleições estaduais, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021. A AfD ficou sem maioria absoluta, mas a sua vitória colocou pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial um partido de extrema-direita ao alcance do poder num estado alemão. 

Eva Umlauf tinha dois anos quando foi libertada de Auschwitz.

Mais de oito décadas depois, disse estar consternada com o resultado. Falou também do medo das minorias e do perigo de uma sociedade esquecer aquilo que aconteceu. 

São histórias diferentes.

Não existe uma relação de causa e efeito entre uma fábrica que muda de produção e um eleitor que muda de voto. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo.

Mas aconteceram na mesma semana, no mesmo país.

E por isso pesam uma sobre a outra.

Uma indústria automóvel em crise. Uma fábrica que olha para a produção militar como possibilidade de futuro. Uma extrema-direita que conquista uma votação que há poucos anos pareceria inimaginável. E uma empresa que, nove anos antes, dava lições públicas sobre responsabilidade social.

Mutatis mutandis, a Alemanha de 2026 não está a repetir a sua história. Mas há coincidências que, naquele país mais do que noutro qualquer, têm o incómodo poder de acordar a memória.

Moral da história

Em 2017, Matthias Müller chamou à Tesla uma espécie de campeã mundial dos grandes anúncios. Criticou as suas perdas, os seus despedimentos e perguntou onde estava a responsabilidade social. 

Em 2026, a Volkswagen anuncia a maior reestruturação da sua história, prepara dezenas de milhares de cortes adicionais e procura novos destinos para fábricas que a indústria automóvel já não consegue alimentar como antes.

Uma delas poderá ajudar a fabricar sistemas de defesa aérea.

Talvez a lição seja esta: quando se passa demasiado tempo a apontar o dedo aos outros, corre-se o risco de não reparar naquilo em que nos estamos a transformar.

Ou, como diria Matthias Müller, com aquele desdém de quem não queria comparar maçãs com laranjas:

«Responsabilidade social? Por favor.»

Por favor, mesmo.