
Os rapazes que já não são rapazes
Ontem almoçámos, rapazes que já não o são há muito. Fizemos juntos a quarta classe há sessenta e quatro anos, na altura o fim do ensino obrigatório. Fomos à Churrasqueira Típica, o local de comes e bebes, mais perto da Escola do Espirito Santo onde nos trataram bem e a bom preço, o que também é uma forma de amizade. Começámos às 12h30 e só nos levantámos cerca das 16h00. Comemos bem, bebemos melhor, e sobretudo falámos. Falámos muito, e sorrimos e rimos mais ainda.
Falámos de tudo menos das profissões que cada um seguiu. Isso quase nunca aparece, e quando aparece é de passagem, como quem menciona o tempo. Estiveram em cima da mesa as traquinices, as professoras, os episódios de uma “escola”, um ensino que já só existe em nós. Houve, estranhamente ou talvez não, um espaço mais demorado, mais grave, para o serviço militar, um de nós traz no corpo as marcas das malhas que o Império teceu. Por horas conseguiu-se o impossivel, falar de tudo inclusivé de politica, ter opiniões diferentes sem discutir, apontar erros passados e presentes, aceitar democraticamente as diferenças nacionais, e da mundial nada se disse porque creio que todos achamos que a politica mundial está entregue a outra espécie, aos bichos. Há uma origem comum que nos une, e ontem voltámos a ela de coração aberto. Durante algumas horas esquecemo-nos de que já somos mais os que contam ausências do que os que fazem planos.
Há qualquer coisa de profundamente bom em sermos vistos, por um dia, não como o que somos agora, mas como os rapazes que fomos. Ninguém nos pede contas do que fizemos da vida. Conhecemo-nos desde a origem, e por isso as formalidades da vida adulta caem sozinhas. Não há máscaras a manter entre nós, só irmãos que a infância uniu e que o tempo não conseguiu separar.
Lembrámos os mortos, que já são muitos. Brindámos à professora, ao professor da sala ao lado e também a uma professora estagiária que era, imagine-se, a minha irmã mais velha.
No fundo, este almoço foi um hino à vida. Estarmos vivos, activos, ainda capazes de nos sentar à mesa uns com os outros, rir alto e contar as mesmas histórias, é já uma vitória. Ontem foi isso: uma festa da amizade, celebrada com vinho e memória, entre homens que um dia foram rapazes juntos e que continuam a sê-lo, sempre que se voltarem a encontrar.

