terça-feira, 11 de agosto de 2026

A PRAÇA PÚBLICA E O RUÍDO

Há uma pergunta que atravessa qualquer conversa sobre redes sociais, scroll infinito e política contemporânea: ficámos mais estúpidos? A resposta curta é não. A resposta longa é mais incómoda.

Não há evidência sólida de declínio na capacidade cognitiva bruta atribuível à internet. O que existe, isso sim, é uma mudança profunda dos hábitos. Antigamente, investigar um assunto obrigava a percorrer um longo caminho. Um livro levava a outro, uma nota de rodapé abria uma nova pista, e se queria saber algo tinha demorar o tempo que isso exigia. Com o meu primeiro PC, um Shneider com um processador 386, era o mesmo: leitura de um texto e procura de outro que se ligava a este. Horas seguidas.  Hoje esse caminho ainda existe, mas deixou de ser o caminho por defeito. O scroll oferece uma alternativa mais fácil, mais rápida e, sobretudo, desenhada para prender a atenção sem exigir esforço.

A capacidade de pensar fundo não desapareceu. Atrofiou por desuso, como um músculo que já não é chamado a trabalhar. E aqui está o primeiro ponto de discórdia possível: uns dirão que isto é decadência, outros dirão que é apenas adaptação a um novo ambiente. Nenhuma das duas respostas será totalmente errada.

Há quem defenda, com razão de sobra, que o resultado colectivo é o que importa, não a capacidade individual guardada na gaveta. Se a maior parte das pessoas capazes de análise cuidada gasta essa capacidade a escolher onde jantar e reserva o piloto automático para decisões políticas, o efeito público é indistinguível de uma sociedade genuinamente menos capaz. Não importa quanto potencial existe, importa quanto é usado quando é preciso.

Junte-se a isto um facto incómodo sobre quem fala hoje na praça pública. Antes, quem não lia, não escrevia e não investigava, ficava calado. O espaço público tinha porteiros, editores, um processo de validação imperfeito mas existente. Hoje esse filtro caiu. Um influenciador semianalfabeto tem o mesmo alcance que um especialista, e por vezes mais, porque o algoritmo recompensa a convicção e não a precisão. Steve Bannon resumiu isto sem pudor nenhum: inundar a zona com lixo, informação falsa, sabendo que a imprensa nunca vai conseguir desmentir ao mesmo ritmo a que a mentira se espalha. Não é retórica política vulgar. É engenharia de atenção, feita por gente que sabe exactamente o que está a fazer.

A assimetria é matemática. Uma mentira custa uma frase. Desmenti-la custa dias de trabalho, e por essa altura já ninguém está a ler o desmentido, porque o ciclo de indignação seguinte já começou. Nestas condições, dizer que a evolução da internet piorou as escolhas políticas não parece exagero. Parece apenas descrição.

Mas há outra leitura possível, e não é ingénua, é apenas mais cautelosa antes de assinar um diagnóstico definitivo.

Cada geração acusou a tecnologia nova de estragar a seguinte. Sócrates desconfiava da escrita, achava que ia destruir a memória. A imprensa foi acusada de espalhar heresias sem controlo. A televisão foi o inimigo da leitura, o inimigo do cinema, da atenção, o inimigo de tudo. Isto não prova que desta vez o alarme está errado, mas obriga a alguma humildade antes de declarar que finalmente chegámos ao fim da inteligência colectiva.

Há também ganhos reais que ficam esquecidos quando o foco vai todo para o pior caso. Grupos historicamente sem acesso ao debate público, jovens, minorias, gente fora dos grandes centros, ganharam voz que nunca tiveram. Jornalistas e académicos sérios migraram para os mesmos formatos que os demagogos usam, e alguns conseguem simplificar bem informação complexa sem a trair. O problema não é o formato em si, é que o formato não distingue entre quem o usa com cuidado e quem o usa como arma.

E fica a dúvida mais desconfortável de todas: será que a procura por certeza fácil já existia antes, à espera de oferta? Talvez a internet não tenha criado o apetite pela mentira reconfortante. Talvez tenha apenas removido o atrito que antes obrigava esse apetite a ser contido.

Nenhuma das três respostas óbvias parece suficiente. A via legal, responsabilizar plataformas pela amplificação e não só quem publica, ataca o mecanismo certo, mas entrega um poder enorme a quem decide o que conta como desinformação, com todos os riscos de abuso que isso implica. A via do mercado e da reputação pressupõe uma audiência que valoriza a precisão factual, e isso já não pode ser dado como garantido, sobretudo quando a mentira reforça a lealdade da base em vez de a afastar. A via da literacia é a mais lenta e a mais incerta de todas, embora seja a única que não depende de confiar numa autoridade central para definir a verdade.

Fica então a pergunta em aberto, sem resposta fácil à vista. Se a mentira viaja sempre mais depressa que a correcção, e se nenhum dos mecanismos de responsabilização existentes consegue acompanhar esse ritmo, o que resta? Regular a distribuição e aceitar o risco de censura disfarçada de moderação? Confiar na literacia de longo prazo, sabendo que o dano imediato já está feito antes de qualquer educação fazer efeito? Ou aceitar que a praça pública sempre teve ruído, e que o trabalho de cada geração é apenas aprender a ouvir através dele, sem esperar que algum dia o ruído desapareça?

A praça pública sempre teve ruído. A diferença é que agora o ruído tem dono, e nós pagamos para o ouvir, não com dinheiro, mas com atenção. E pagamos de livre vontade.

Porque o ruído não é acidental. É financiado. Peter Thiel, o homem do PayPal e da Palantir, de quem ainda ouviremos falar muito, financiou a campanha de Vance e moldou a narrativa tecnoconservadora com a precisão de quem sabe que o algoritmo é uma alavanca e a usa como tal. Elon Musk comprou o Twitter, rebatizou-o de X, e com a desculpa da liberdade de expressão reabilitou contas banidas, reduziu a moderação e amplificou, ele próprio, teorias da conspiração. O resultado é um fluxo constante de desinformação verificada, 54% do que circula na net é falso e ele cobra por isso, com as suas assinaturas azuis. Os irmãos Koch, David e Charles, e a sua rede bilionária de think tanks, financiam há décadas a negação climática e os cortes fiscais para o 1%, sempre com a mesma técnica: repetir uma mentira até que pareça senso comum. Robert Mercer e a sua filha Rebekah, os donos originais da Cambridge Analytica, financiaram a transformação de dados psicológicos em munição política, segmentando eleitores pelo medo, pela raiva e pela identidade. Rupert Murdoch, com a Fox News, não é tecnológico, mas é o avô do modelo: trinta anos a provar que a indignação dá mais audiência do que o factual, e que a audiência dá poder político. E, claro, Donald Trump, que não é um bilionário no sentido clássico, porque herdou, queimou e alavancou a marca, é o produto final deste ecossistema. Ele não criou o ruído; apenas descobriu que podia gritar mais alto que todos porque o ringue estava pago.

O que resta, então? Resta chamar as coisas pelo nome. A pergunta sobre se a internet criou o apetite pela mentira ou apenas removeu o atrito tem uma resposta: remover o atrito tem dono. Cada segundo de scroll, cada indignação que não leva a lado nenhum, cada debate que se resume a "ganhaste?" gera receita para estas mesmas pessoas, em acções, em poder político, em isenção fiscal. A praça pública sempre teve ruído, é verdade. Mas nunca o ruído teve donos com lucro directo em amplificá-lo. E nunca os donos do ruído também possuíram as plataformas, os canais e os dados. Não se trata de estupidificação espontânea. Trata-se de um investimento calculado de bilionários na desinformação, porque o retorno em cortes de impostos, desregulação e poder é garantido. Enquanto o debate for sobre literacia ou moderação, os donos do ringue continuam a facturar. O problema não é o ruído. É quem paga o amplificador e a coluna de som.

Mas há verdades mais incómodas, que raramente se dizem em público. Nós gostamos do ruído. Não apesar dele, mas por causa dele. O scroll infinito não é uma prisão; é uma praia onde nos deitamos de livre vontade. A verdade exige esforço; a indignação dá prazer imediato. E o prazer imediato é mais forte do que o dever cívico, sempre foi, sempre será. Culpar os bilionários é confortável porque nos isenta. Mas eles só vendem o que compramos. A literacia, por si só, não salva ninguém. Pessoas com doutoramentos acreditam em teorias da conspiração, em políticos que mentem na cara. Não é falta de inteligência; é vontade de acreditar. A literacia ensina a ler, mas não ensina a duvidar de si mesmo. E duvidar de si mesmo é a única defesa real contra a manipulação, mas é também a mais rara, porque dói.

O mais inconfessável de todos é isto: a democracia não exige verdade, exige apenas votos. O sistema não colapsa com a mentira; colapsa quando as pessoas deixam de votar ou sejam impedidas de o fazer. Enquanto houver votos, o sistema funciona, com ou sem factos. A praça pública nunca foi um seminário, foi sempre um mercado. E nos mercados, vende mais quem grita melhor. A nostalgia de uma ágora racional é uma ficção romântica. E cada um de nós lê um textos destes e pensa: "eu sou o que resiste, os outros são os analfabetos." Essa é a maior armadilha. A certeza de que se está fora do jogo é o que nos mantém dentro dele. Os manipuladores sabem disso. Contam com isso.

Julgar é fácil. O que custa é olhar sem desviar. Eles não são monstros; são pessoas que descobriram uma alavanca e puxaram-na. Fariam o mesmo? Provavelmente. O poder corrompe, mas também selecciona, quem não quer poder não chega lá. Nós não somos vítimas, somos público. E o público escolhe, todos os dias, o que clica. A responsabilidade é partilhada, mesmo que o poder não seja. A questão não tem resposta não porque seja difícil, mas porque a pergunta certa não é "como acabar com o ruído?"; é "o que estamos dispostos a perder para o reduzir?" Liberdade? Prazer? Conforto? Certeza? Ninguém quer pagar esse preço. Por isso o ruído fica.

A resposta final é esta: não há vilão único. Há um pacto tácito entre quem vende a mentira e quem a compra. Ambos sabem o que fazem. Ambos negam. E ambos continuam. Fecho aqui. Quase sem moral, quase sem solução. Apenas com a constatação de que, se houver saída, ela não virá de fora virá de cada um, no silêncio que ninguém vê.

Não vai ser uma revolução. Vai ser mais lento e mais aborrecido do que isso. É desligar o telemóvel dez minutos antes de reagir. É perguntar quem lucra com a raiva que se sente antes de a partilhar. É ensinar um filho a duvidar de si mesmo, não só dos outros. Nenhum destes gestos derruba um império publicitário. Mas o ringue só existe porque há bilhetes vendidos, e cada pessoa que sai da bancada é um lugar vazio que ninguém pode facturar.

O ruído não vai desaparecer. Talvez nunca desapareça. Mas não precisa de vencer sempre, só precisa de encontrar, de vez em quando, alguém que não estava a comprar naquele dia. É pouco. Mas é mais do que nada, e é a única coisa que depende de nós

domingo, 9 de agosto de 2026

 SALVAR PORTUGAL?


Dizem que a 28 de Julho último, um grupo parlamentar da Assembleia da República foi assaltado. A ser verdade foi um crime horrível, não pelo espólio material, mas pela violência simbólica de invadir o sagrado. Dizem que houve roubo de documentos e de uma pendrive. Dizem. Desde há vários dias que se abre um jornal, ouvem-se os noticiários e nem uma referência. E assim, o que poderia ser um escândalo de segurança nacional dissolve-se na névoa do "não interessa" ou "foi simulado”.

E é precisamente aí que o regime totalitário moderno, aquele que não precisa de botas nem de fogueiras, encontra o seu terreno fértil. Porque o verdadeiro golpe não foi dado ao violar as instalações do grupo parlamentar. Foi dado na nossa capacidade de acreditar. Se o crime existiu, porque é que desapareceu? Se não existiu, porque é que foi noticiado? A resposta, meus caros, é o cansaço.

É esse o mecanismo perverso: espalhar tantas versões, tantos desmentidos contraditórios, que o cidadão comum desiste. "Afinal, já não sei o que é verdade. Já não me importo. Deve ser mais uma guerra política." E nesse gesto de ombros, a democracia morre um pouco.

O alvo, “o sujeito ideal" do nosso tempo não é o extremista apaixonado, esse ainda se incomoda, ainda protesta, ainda exige. O sujeito ideal é aquele que, exausto, confunde o facto com a ficção. Que lê uma coisa, lê o contrário, e conclui que ambas são igualmente prováveis ou igualmente falsas. Quando a verdade se torna uma questão de opinião, o poder já não precisa de censurar. Basta-lhe inundar, contradizer, negar, esquecer.

O assalto de 28 de Julho, verdadeiro ou falso, cumpre plenamente a sua função: gerou dúvida. Gerou ruído. E enquanto discutimos se houve ou não houve, o que realmente importa, a segurança das instituições, a transparência dos actos, a credibilidade do Estado, fica em segundo plano, soterrado pela areia movediça da desinformação.

As pessoas, já exaustas, deixam de perguntar. 

Deixamos de exigir. Deixamos de distinguir entre o bem e o mal, porque já não sabemos o que é real.

Esse, sim, é o crime hediondo, asqueroso. Esse aconteceu. E esse, esse sim, parece ninguém querer investigar

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Ontem fui atestar o carro, o maior.

Ontem fui atestar o carro, o maior. Amaldiçoei os senhores da guerra e os carrascos e vítimas que são donos do petróleo. Lembrei-me do hidrogénio.

Nunca fiz, não pretendo fazer, nem vi feito, o cálculo do tempo que entremeou a invenção da roda, o carril, a vela, o leme, a asa. Deve haver uma fórmula que ainda ninguém descobriu, mas as leis do acaso, ao que sei, parecem ser, contranatura, rigorosas. A espécie humana chegou a este momento gordo de contradições. Vai responder com o hidrogénio? Com um desenho diferente de asa ou de leme? Ou dará um salto psicofísico?

As grandes mudanças tecnológicas quase nunca nascem de uma máquina extraordinária. Nascem porque a sociedade já não consegue viver com a tecnologia anterior.

A roda não substituiu o homem a pé, ampliou-lhe o mundo. A vela não substituiu os remos, abriu oceanos inteiros. O carril não foi só uma diligência melhorada, mudou a economia. A asa não foi um pássaro aperfeiçoado, aboliu distâncias.

Talvez estejamos precisamente num desses momentos.

O petróleo deu-nos um século de abundância extraordinária, mas trouxe dependências, guerras, alterações climáticas e uma geopolítica em que poucos controlam aquilo de que quase todos precisam. O preço que paguei ontem na bomba não era só o preço do combustível. Continha uma parcela de conflitos, de especulação, de impostos, de transporte, de refinarias, de frágeis equilíbrios internacionais.

E, sem pudor nem mentira, diga-se que os Trumps deste mundo, têm provocado um atraso em todo o processo civilizacional, ao negarem a ciência, retirando-se de acordos climáticos, alimentando a dependência dos combustíveis fósseis como se o futuro não fosse além da sua própria vida, uma miragem de gente nova.

Responderemos com o hidrogénio?

Talvez, em parte. Mas suspeito que o hidrogénio não será “a” resposta. Será uma das respostas, ao lado de baterias mais eficientes, energia nuclear de nova geração, fusão, combustíveis sintéticos, redes elétricas inteligentes e tecnologias que hoje talvez nem imaginemos.

E o salto psicofísico?

Se falamos de uma transformação da consciência humana, essa é a mudança mais difícil de todas. A nossa inteligência técnica avança muito mais depressa do que a nossa inteligência moral. Continuamos a resolver problemas do século XXI com emoções herdadas da Idade da Pedra: medo, território, poder, rivalidade. Construímos satélites e ainda fazemos guerras por recursos. Dominamos o átomo, mas nem sempre nos dominamos a nós próprios.

Talvez a verdadeira revolução não seja descobrir um combustível novo. Talvez seja descobrir uma forma de cooperação que torne os combustíveis motivo de progresso, e não de conflito.

Quando uma civilização sente que um paradigma está a chegar ao limite, começa a investir em alternativas que parecem quase ficção científica. É o caso do novo projeto chinês de fusão nuclear: reproduzir na Terra o processo que alimenta o Sol. Em vez de partir átomos pesados, como fazem as centrais atuais, a fusão une núcleos leves, isótopos do hidrogénio, libertando quantidades enormes de energia.

O íman de 582 toneladas não existe por extravagância. É preciso para gerar campos magnéticos de intensidade colossal, capazes de manter um plasma acima dos 100 milhões de graus sem tocar nas paredes do reator. É uma das maiores dificuldades da engenharia moderna.

Mas há uma nuance importante: mesmo que um reator destes funcione como se espera, isso não quer dizer que em 2030 ou 2040 passe a alimentar cidades inteiras. Há sempre uma distância entre provar que algo é possível e torná-lo economicamente banal. O primeiro voo dos irmãos Wright durou segundos. Menos de setenta anos depois, havia homens a caminhar na Lua. Talvez a fusão siga um caminho parecido.

O mais interessante é que ela e o hidrogénio podem não ser rivais, mas parceiros. Imaginemos reatores de fusão a produzir eletricidade em abundância. Essa eletricidade serviria para fabricar hidrogénio por eletrólise da água, em quantidades gigantescas. O hidrogénio seria depois o combustível dos navios, dos aviões, das siderurgias, das indústrias químicas. A fusão produziria a energia, o hidrogénio levá-la-ia até onde fosse preciso. Duas peças do mesmo puzzle.

 «Mais vale acender o futuro do que apagar o presente».

Gastamos demasiado talento a gerir crises e pouco a construir soluções duradouras. A investigação científica é das poucas atividades humanas cujo objetivo verdadeiro é esse: iluminar um futuro que ainda não existe.

Há sessenta anos, se alguém dissesse ao meu pai, homem clarividente, que um pequeno aparelho no bolso substituiria com vantagem os seus enormes ficheiros, que lhe permitiria ouvir a versão que mais gostasse de qualquer sinfonia, falar de imediato com qualquer pessoa do planeta, consultar milhões de livros, fotografar eclipses e localizar-se por satélite, ele tê-lo-ia chamado “sonhador”.

Talvez daqui a cem anos um estudante leia, num livro de História, que no início do século XXI a humanidade queimava petróleo tirado do subsolo para mover automóveis. E talvez ache isso tão estranho quanto nós achamos hoje aquecer uma locomotiva a lenha.

Se isso acontecer, não será porque o petróleo acabou. Será porque alguém teve a coragem de imaginar uma maneira melhor de acender o futuro.

Não sei se será o hidrogénio, o mais abundante combustível no mundo, ou a fusão nuclear, ou uma tecnologia que ainda ninguém imaginou. Mas há momentos em que uma civilização percebe que aperfeiçoar a solução antiga já não chega. É aí que começa a procurar uma linguagem nova para os mesmos problemas.

Há uma frase de Victor Hugo de que gosto muito: “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.

Talvez o tempo do hidrogénio ainda não tenha chegado por inteiro. Talvez nem seja ele a ideia vencedora. Mas a procura de uma energia abundante, limpa e acessível deixou de ser utopia. Tornou-se necessidade histórica.

 


domingo, 26 de julho de 2026





Por onde andarão os arquivos da PIDE/DGS


Há uma ideia simples que, pelos vistos, se tornou complicada em Portugal: o arquivo da polícia política pertence ao povo que ela perseguiu. Não pertence ao regime que a pariu, nem aos seus sicários, nem aos serviços secretos estrangeiros, e muito menos a quem o desviou ou trocou por favores políticos. Pertence às vítimas, à História, ao país.

É por isso que, se se confirmar que parte substancial do arquivo da PIDE/DGS foi enviada para Moscovo, não estamos perante uma curiosidade de arquivista. Estamos perante um roubo de memória, de prova documental e de património nacional.

Os indícios não são poucos. O antigo general do KGB Oleg Kalugin escreveu nas suas memórias sobre a transferência de documentação da PIDE/DGS para Moscovo. O Arquivo Mitrokhin é preciso: 474 Kg de documentos foram embarcados num avião da Aeroflot, no Figo Maduro.  «O Arquivo Mitrokhin é uma colecção de manuscritos copiados pelo major Vasili Nikitich Mityrokhin durante os anos de serviço prestados como arquivista no KGB. Entregues em 1992 ao Serviços Secretos Britãnicos os documentos foram transformados em livro pelo historiador Christopher Andrew, escritor e académico britãnico» segundo a Wikipédia.  

Junte-se o testemunho do então comandante da PSP de Lisboa, que viu camiões da Armada carregar caixotes da Rua António Maria Cardoso até ao aeródromo. Pode discutir-se a suficiência jurídica destes elementos. A sua gravidade, não.

A Torre do Tombo alega faltar a localização exacta dos documentos para justificar um pedido formal às autoridades russas. Como não sabemos onde está o corpo, também não perguntamos quem o enterrou.

Imagine-se um museu português a suspeitar que um quadro de Nuno Gonçalves foi levado clandestinamente para o estrangeiro. Alguém defenderia encerrar o caso até aparecer a morada exacta da casa e o número da sala onde está pendurado? Naturalmente que não. Com a PIDE sucede o mesmo, só que em vez de tinta sobre madeira falamos de vidas humanas, e mesmo assim o assunto arrefece na gaveta.

Cada processo pode conter uma denúncia, uma prisão, uma vigilância, uma injustiça. Pode inocentar uns e comprometer outros. Talvez seja precisamente por isso que os arquivos desaparecem. Quem controla os papéis controla parte da memória colectiva, e quem controla a memória guarda, em silêncio, uma forma de poder. Não é difícil imaginar a utilidade destes arquivos para um serviço estrangeiro: redes pessoais, cumplicidades, informadores, e sobretudo a distinção entre perseguidos e colaboradores.

Há sempre quem prefira certas páginas fechadas. Não para proteger vítimas, mas para poupar os privilegiados do costume, o desconforto de aparecerem no lado errado da História.

O Estado português tem, apesar disso, uma obrigação moral que nenhuma dificuldade diplomática dispensa, continuar a procurar esses documentos enquanto existir uma hipótese, por mínima que seja, de os recuperar. Porque não se trata de papel. Trata-se da propriedade de um povo. E para esta propriedade roubada não há usucapião, não deixa de pertencer ao dono só porque passaram cinquenta anos, ou porque o ladrão vive longe.

A memória não prescreve. Nem o dever de a restituir.



terça-feira, 21 de julho de 2026

Encontrei no éter um americano, dos que gosto. 

Respondi  a um CQ - Chamada Geral - como mandam as normas  repetindo o seu sinal de chamada, que  não reproduzo e o meu, mas de maneira diferente do habitual: this is CT7AJB. My QTH is Guarda, in central Portugal. We’re in the mountains here. I’m running a Yaesu FTDX3000 into an end-fed antenna. My name is Júlio. I spell, Juliett Uniform Lima India Oscar. You’re five-nine”. Pela voz calma que tinha e de dicção tão clara, imaginei-o grande e de origem africana. Confirmei essa imagem, depois, no QRZ.COM. Fugimos ao registo habitual e algum tempo depois, estava a dizer coisas do seu país que eu desconhecia. Não vou reproduzir a conversa ouvida por muitos. Foi no rádio e de certeza que alguém a monitorizou na sua terra. Fiquei a pensar no que ouvi e deu-me para escrever o essencial. É a melhor forma de pensar, é como por um problema em equação: "they profit from human flesh.” disse.  Prefiro não traduzir e escrever em português: são picadores de carne humana. 
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domingo, 19 de julho de 2026







Os rapazes que já não são rapazes


Ontem almoçámos, rapazes que já não o são há muito. Fizemos juntos a quarta classe há sessenta e quatro anos, na altura, o fim do ensino obrigatório. Fomos à Churrasqueira Típica, o local de comes e bebes, mais perto da Escola do Espirito Santo onde nos trataram bem e a bom preço, o que também é uma forma de amizade. Começámos às 12h30 e só nos levantámos cerca das 16h00. Comemos bem, bebemos melhor, e sobretudo falámos. Falámos muito, e sorrimos e rimos mais ainda.
Falámos de tudo menos das profissões que cada um seguiu. Isso quase nunca aparece, e quando aparece é de passagem, como quem menciona o tempo. Estiveram em cima da mesa as traquinices, as professoras, os episódios de uma “escola”, um ensino que já só existe em nós. Houve, estranhamente ou talvez não, um espaço mais demorado, mais grave, para o serviço militar, um de nós traz no corpo as marcas das malhas que o Império teceu. Por horas conseguiu-se o impossivel, falar de tudo inclusivé de politica, ter opiniões diferentes sem discutir, apontar erros passados e presentes, aceitar democraticamente as diferenças nacionais, e da mundial nada se disse porque creio que todos achamos que a politica mundial está entregue a outra espécie, aos bichos. Há uma origem comum que nos une, e ontem voltámos a ela de coração aberto. Durante algumas horas esquecemo-nos de que já somos mais os que contam ausências do que os que fazem planos.
Há qualquer coisa de profundamente bom em sermos vistos, por um dia, não como o que somos agora, mas como os rapazes que fomos. Ninguém nos pede contas do que fizemos da vida. Conhecemo-nos desde a origem, e por isso as formalidades da vida adulta caem sozinhas. Não há máscaras a manter entre nós, só irmãos que a infância uniu e que o tempo não conseguiu separar.
Lembrámos os mortos, que já são muitos. Brindámos à professora, ao professor da sala ao lado e também a uma professora estagiária que era, imagine-se, a minha irmã mais velha.
No fundo, este almoço foi um hino à vida. Estarmos vivos, activos, ainda capazes de nos sentar à mesa uns com os outros, rir alto e contar as mesmas histórias, é já uma vitória. Ontem foi isso: uma festa da amizade, celebrada com vinho e memória, entre homens que um dia foram rapazes juntos e que continuam a sê-lo, sempre que se voltarem a encontrar.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Manuel Valentim Dias Júnior

 

Há noventa anos, faz hoje exactamente noventa anos, que numa madrugada que a história oficial preferiu esquecer, bateram à porta de um homem livre. Não vinham prender um criminoso. Vinham calar uma consciência.

Era solteiro, 26 anos, contabilista do pai e dos sócios que ergueram uma empresa de transportes e oficina com as próprias mãos e nela empregaram vizinhos, amigos e quem precisava de trabalho. Era republicano por convicção firme, não por moda nem por conveniência. Era democrata num tempo em que essa palavra já soava perigosa aos ouvidos do regime. E era, sobretudo, um livre pensador, dessas pessoas incómodas que insistem em julgar por si mesmas, em vez de aceitar o julgamento que lhes impõem.

Chamaram-lhe comunista. Não o era, nunca o foi. Mas a PVDE não distinguia matizes, bastava simpatizar com a causa dos republicanos espanhóis, bastava recusar-se a ficar calado perante o avanço do fascismo em Espanha, para se tornar suspeito. Ajudou quem podia, como podia. Pagou por isso com a prisão e com a tortura, esse instrumento cobarde dos que não sabem vencer ideias e por isso tentam quebrar corpos.

 Não quebraram nada que se visse.

Porque este homem, além de tudo o resto, era melómano. Amava a música com a mesma obstinação com que amava a liberdade, e talvez as duas coisas fossem, para ele, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. A música não se rende a ordens; obedece apenas às suas próprias leis internas, à harmonia que cada um descobre e reconhece como verdadeira. Um homem que ouve assim, que se deixa atravessar por uma sinfonia sem pedir licença a ninguém, já sabe, no corpo e na alma, o que é ser livre. Nenhuma cela consegue fazer esquecer isso.

Passaram noventa anos. O regime que o prendeu caiu, como caem sempre os regimes que temem os homens livres. Ele continuou a ser o que sempre foi: democrata indefectível, incapaz de trocar a verdade pela comodidade, incapaz de calar-se quando calar-se seria mais seguro. Mas o mal estava feito, O SPT durou até ao fim da sua vida.

 Hoje, recordá-lo não é apenas exercício de memória familiar. É lembrar que a liberdade teve sempre um preço, e que houve quem o pagasse sem hesitar, para que outros, depois, pudessem ouvir música em paz.

Honra e glória ao meu pai, Manuel Valentim Dias Júnior