Ontem juntámos-os trinta septuagenários, vinte e um deles éramos ex-finalistas do Liceu da Guarda de 1969/70 e os nove restantes familiares directos. Foi bom, mesmo muito bom.
Tudo começou com um flyer encontrado por acaso, um verdadeiro achado arqueológico, a anunciar o nosso baile de há 57 anos. Serviu de pretexto para um bom almoço, para um magusto e jeropigas, para trazermos uma treta de recordação, que se exibe na fotografia, e, sobretudo, para nos voltarmos a sentar uns diante dos outros.
Ontem, o passado não veio cobrar nada. Veio apenas oferecer-se à conversa.
Falou-se muito, como é natural. De uns e de outros, do que foi, do que ficou, do que já ninguém sabe muito bem se aconteceu assim ou se a memória resolveu compor à sua maneira. E, entre lembranças e opiniões, percebi outra vez como às vezes gostamos mais de defender o que pensamos do que de perceber o que o outro está a dizer.
Foi aí que me lembrei de Popper: uma conversa só vale a pena quando se assume a possibilidade do erro. Não serve para confirmar o que já sabemos, mas para regressarmos a casa com uma dúvida inédita, uma ideia nova ou uma pequena correcção no que julgávamos certo.
Falámos também das manifestações, onde alguns de nós estaríamos. Mas ontem falou mais alto outra parte de nós. A que ainda precisa de se reconhecer nos outros, de rir das velhas histórias, de medir o tempo pelos rostos e não pelas notícias.
A memória é assim. Não é um arquivo obediente. Engana-se, escolhe, apaga, recompõe. Por isso é tão bom pô-la à mesa com outros.
O reencontro de ontem foi um pouco isso: não vencemos o tempo, nem corrigimos o passado.
Conversámos com ele.
E foi uma conversa feliz.






