Em 2017, Matthias Müller, então CEO da Volkswagen, olhou para a Tesla com aquele desdém próprio de quem vende 11 milhões de automóveis e apresenta lucros de 13 ou 14 mil milhões de euros por ano.
«Há empresas que mal vendem 80 mil carros», disse
«E depois há companhias como a Volkswagen.»
E rematou, a propósito das perdas e dos despedimentos na Tesla
«Responsabilidade social? Por favor.»
Müller acrescentaria que não se deviam comparar maçãs com laranjas.
A reprimenda tinha uma particularidade: vinha da Volkswagen, apenas dois anos depois de rebentar o Dieselgate. Mas Müller estava a falar da responsabilidade social dos outros.
Nove anos depois, a Volkswagen enfrenta a maior reestruturação dos seus 89 anos de história. O grupo prevê eliminar cerca de 50 mil postos de trabalho adicionais em todo o mundo, além de outros 50 mil já abrangidos pelo processo de redução em curso. E procura alternativas para quatro fábricas alemãs, Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanover, que irão progressivamente ficar sem modelos para produzir.
Entretanto, em Osnabrück, onde a produção automóvel deverá terminar em 2027, desenha-se uma transformação que em 2017 pareceria improvável: a fábrica poderá passar a produzir componentes para sistemas de defesa aérea.
O círculo não se fechou completamente.
Mas aproximou bastante as pontas.
A maçã não caiu longe da laranja
Em 2017, a Tesla era, aos olhos de Müller, a empresa irresponsável que queimava dinheiro e despedia trabalhadores.
Em 2026, é a Volkswagen que corta dezenas de milhares de postos de trabalho, procura destino para fábricas que já não consegue ocupar e admite transformar uma delas num centro ligado à indústria da defesa.
A diferença talvez seja esta: a Tesla fazia-o enquanto tentava mudar uma indústria. A Volkswagen fá-lo enquanto tenta sobreviver às mudanças dessa mesma indústria.
Não há nisto uma vitória moral da Tesla. Há apenas uma daquelas pequenas vinganças da História: aquilo que parece irresponsabilidade quando acontece aos outros pode chamar-se reestruturação quando nos bate à porta.
Quando o passado bate à porta
Mas há aqui qualquer coisa mais inquietante do que uma ironia empresarial.
A Volkswagen chegou a um acordo preliminar para vender a fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à Aurelius Capital. A produção automóvel deverá terminar em 2027 e o primeiro grande projeto previsto para o local será desenvolvido em cooperação com a israelita Rafael Advanced Defense Systems, uma das empresas envolvidas nos sistemas Iron Dome, Arrow e David’s Sling.
A intenção é produzir sistemas e componentes de defesa aérea para a Alemanha e para a Europa. A reconversão poderá preservar cerca de 1.400 dos atuais 1.800 postos de trabalho da fábrica.
Uma fábrica de automóveis alemã poderá, portanto, tornar-se uma fábrica ligada à produção militar.
Nada há de historicamente extraordinário nisso. A Europa está a rearmar-se e a indústria acompanha as necessidades dos Estados.
O desconforto nasce noutro lugar.
Na mesma semana, do outro lado do país, na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha venceu umas eleições estaduais, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021. A AfD ficou sem maioria absoluta, mas a sua vitória colocou pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial um partido de extrema-direita ao alcance do poder num estado alemão.
Eva Umlauf tinha dois anos quando foi libertada de Auschwitz.
Mais de oito décadas depois, disse estar consternada com o resultado. Falou também do medo das minorias e do perigo de uma sociedade esquecer aquilo que aconteceu.
São histórias diferentes.
Não existe uma relação de causa e efeito entre uma fábrica que muda de produção e um eleitor que muda de voto. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo.
Mas aconteceram na mesma semana, no mesmo país.
E por isso pesam uma sobre a outra.
Uma indústria automóvel em crise. Uma fábrica que olha para a produção militar como possibilidade de futuro. Uma extrema-direita que conquista uma votação que há poucos anos pareceria inimaginável. E uma empresa que, nove anos antes, dava lições públicas sobre responsabilidade social.
Mutatis mutandis, a Alemanha de 2026 não está a repetir a sua história. Mas há coincidências que, naquele país mais do que noutro qualquer, têm o incómodo poder de acordar a memória.
Moral da história
Em 2017, Matthias Müller chamou à Tesla uma espécie de campeã mundial dos grandes anúncios. Criticou as suas perdas, os seus despedimentos e perguntou onde estava a responsabilidade social.
Em 2026, a Volkswagen anuncia a maior reestruturação da sua história, prepara dezenas de milhares de cortes adicionais e procura novos destinos para fábricas que a indústria automóvel já não consegue alimentar como antes.
Uma delas poderá ajudar a fabricar sistemas de defesa aérea.
Talvez a lição seja esta: quando se passa demasiado tempo a apontar o dedo aos outros, corre-se o risco de não reparar naquilo em que nos estamos a transformar.
Ou, como diria Matthias Müller, com aquele desdém de quem não queria comparar maçãs com laranjas:
«Responsabilidade social? Por favor.»
Por favor, mesmo.





