quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A MAÇÃ NÃO CAIU LONGE DA LARANJA

             Ou como a Volkswagen descobriu que o futuro é o passado com outro uniforme

Em 2017, Matthias Müller, então CEO da Volkswagen, olhou para a Tesla com aquele desdém próprio de quem vende 11 milhões de automóveis e apresenta lucros de 13 ou 14 mil milhões de euros por ano.

«Há empresas que mal vendem 80 mil carros», disse

«E depois há companhias como a Volkswagen.»

E rematou, a propósito das perdas e dos despedimentos na Tesla

«Responsabilidade social? Por favor.»

Müller acrescentaria que não se deviam comparar maçãs com laranjas. 

A reprimenda tinha uma particularidade: vinha da Volkswagen, apenas dois anos depois de rebentar o Dieselgate. Mas Müller estava a falar da responsabilidade social dos outros.

Nove anos depois, a Volkswagen enfrenta a maior reestruturação dos seus 89 anos de história. O grupo prevê eliminar cerca de 50 mil postos de trabalho adicionais em todo o mundo, além de outros 50 mil já abrangidos pelo processo de redução em curso. E procura alternativas para quatro fábricas alemãs, Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanover, que irão progressivamente ficar sem modelos para produzir. 

Entretanto, em Osnabrück, onde a produção automóvel deverá terminar em 2027, desenha-se uma transformação que em 2017 pareceria improvável: a fábrica poderá passar a produzir componentes para sistemas de defesa aérea.

O círculo não se fechou completamente.

Mas aproximou bastante as pontas.

A maçã não caiu longe da laranja

Em 2017, a Tesla era, aos olhos de Müller, a empresa irresponsável que queimava dinheiro e despedia trabalhadores.

Em 2026, é a Volkswagen que corta dezenas de milhares de postos de trabalho, procura destino para fábricas que já não consegue ocupar e admite transformar uma delas num centro ligado à indústria da defesa.

A diferença talvez seja esta: a Tesla fazia-o enquanto tentava mudar uma indústria. A Volkswagen fá-lo enquanto tenta sobreviver às mudanças dessa mesma indústria.

Não há nisto uma vitória moral da Tesla. Há apenas uma daquelas pequenas vinganças da História: aquilo que parece irresponsabilidade quando acontece aos outros pode chamar-se reestruturação quando nos bate à porta.

Quando o passado bate à porta

Mas há aqui qualquer coisa mais inquietante do que uma ironia empresarial.

A Volkswagen chegou a um acordo preliminar para vender a fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à Aurelius Capital. A produção automóvel deverá terminar em 2027 e o primeiro grande projeto previsto para o local será desenvolvido em cooperação com a israelita Rafael Advanced Defense Systems, uma das empresas envolvidas nos sistemas Iron Dome, Arrow e David’s Sling.

A intenção é produzir sistemas e componentes de defesa aérea para a Alemanha e para a Europa. A reconversão poderá preservar cerca de 1.400 dos atuais 1.800 postos de trabalho da fábrica. 

Uma fábrica de automóveis alemã poderá, portanto, tornar-se uma fábrica ligada à produção militar.

Nada há de historicamente extraordinário nisso. A Europa está a rearmar-se e a indústria acompanha as necessidades dos Estados.

O desconforto nasce noutro lugar.

Na mesma semana, do outro lado do país, na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha venceu umas eleições estaduais, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021. A AfD ficou sem maioria absoluta, mas a sua vitória colocou pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial um partido de extrema-direita ao alcance do poder num estado alemão. 

Eva Umlauf tinha dois anos quando foi libertada de Auschwitz.

Mais de oito décadas depois, disse estar consternada com o resultado. Falou também do medo das minorias e do perigo de uma sociedade esquecer aquilo que aconteceu. 

São histórias diferentes.

Não existe uma relação de causa e efeito entre uma fábrica que muda de produção e um eleitor que muda de voto. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo.

Mas aconteceram na mesma semana, no mesmo país.

E por isso pesam uma sobre a outra.

Uma indústria automóvel em crise. Uma fábrica que olha para a produção militar como possibilidade de futuro. Uma extrema-direita que conquista uma votação que há poucos anos pareceria inimaginável. E uma empresa que, nove anos antes, dava lições públicas sobre responsabilidade social.

Mutatis mutandis, a Alemanha de 2026 não está a repetir a sua história. Mas há coincidências que, naquele país mais do que noutro qualquer, têm o incómodo poder de acordar a memória.

Moral da história

Em 2017, Matthias Müller chamou à Tesla uma espécie de campeã mundial dos grandes anúncios. Criticou as suas perdas, os seus despedimentos e perguntou onde estava a responsabilidade social. 

Em 2026, a Volkswagen anuncia a maior reestruturação da sua história, prepara dezenas de milhares de cortes adicionais e procura novos destinos para fábricas que a indústria automóvel já não consegue alimentar como antes.

Uma delas poderá ajudar a fabricar sistemas de defesa aérea.

Talvez a lição seja esta: quando se passa demasiado tempo a apontar o dedo aos outros, corre-se o risco de não reparar naquilo em que nos estamos a transformar.

Ou, como diria Matthias Müller, com aquele desdém de quem não queria comparar maçãs com laranjas:

«Responsabilidade social? Por favor.»

Por favor, mesmo.

domingo, 6 de setembro de 2026

O Imperador Começa Antes de Ser Coroado

A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David
                                                 A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David


 O armisticio inacabado da democracia americana

 

Há guerras que acabam no dia em que se depõem as armas. Outras continuam, transformadas, na memória dos povos.

A Guerra Civil Americana terminou militarmente em 1865. A União venceu, a Confederação desapareceu e a escravatura foi abolida. Mas seria ingénuo imaginar que quatro anos de guerra e séculos de escravatura desapareceriam com a assinatura de uma rendição.

No centro da guerra estavam a escravatura e o seu futuro e, inseparável delas, uma disputa sobre os limites do poder federal, a soberania dos Estados e a própria natureza da União. Depois veio a Reconstrução, a tentativa extraordinária e incompleta de transformar milhões de antigos escravos em cidadãos de pleno direito. Seguiram-se a segregação, a violência racial, o movimento dos direitos civis e sucessivas batalhas sobre aquilo que Washington podia ou não impor aos Estados.

Talvez seja por isso que certas palavras nunca perderam completamente a sua força na política americana: Washington, Governo federal, Estados, Liberdade, Tirania, Povo.

Mudam os tempos e muda o significado das palavras, mas algumas feridas reconhecem o vocabulário.

É nesse terreno que Donald Trump me inquieta.

Não porque seja possível traçar uma linha directa entre 1861 e 2026. A História não funciona assim. Trump não é Jefferson Davis, os Estados Unidos não são a Confederação e a América de hoje não é a América que disparou sobre Fort Sumter.

Mas há ecos.

Quando um político se apresenta não apenas como alguém capaz de governar melhor, mas como o único capaz de salvar a nação,  I alone fix it, alguma coisa muda na relação entre o cidadão e o poder. A política deixa lentamente de ser a escolha entre programas e começa a transformar-se numa relação pessoal entre o chefe e os seus seguidores.

O problema não está apenas em Trump. Talvez nem esteja principalmente nele.

Está na possibilidade de milhões de pessoas começarem a desejar aquilo para que as democracias foram construídas, precisamente para evitar um homem suficientemente forte para não precisar de todos os incómodos que limitam o poder: tribunais, parlamento, imprensa, funcionários independentes, governadores, generais, eleições.

Tudo isso é terrivelmente maçador. Obriga a negociar, esperar, perder votações, aceitar decisões de que não gostamos e reconhecer legitimidade a pessoas que detestamos.

A democracia é lenta porque desconfia do poder.

O homem providencial é rápido porque pede que confiemos nele.

É aqui que a actual experiência americana merece ser observada com atenção.

Trump nomeou juízes para o Supremo Tribunal e para numerosos tribunais federais. Isso é constitucional e outros presidentes fizeram exactamente o mesmo. A questão não é saber quem nomeou um juiz, mas se as instituições continuam capazes de contrariar o Presidente que o nomeou.

E, até agora, contrariaram-no.

Os tribunais têm bloqueado decisões da Administração. Estados enfrentam Washington nos tribunais. Governadores contestam o alcance do poder federal. A imprensa continua a investigar. As eleições continuam a ser disputadas.

A democracia americana ainda não desapareceu. Mas está a ser posta à prova.

O mesmo vale para as Forças Armadas.

Pete Hegseth tem experiência militar. Serviu como oficial de Infantaria na Guarda Nacional, esteve no Iraque e no Afeganistão, foi condecorado e chegou ao posto de major. Nas democracias, os militares devem obediência ao poder civil e assim deve ser. Mas de major e apresentador de televisão a chefe do Pentágono, com generais e almirantes de várias estrelas sob a sua autoridade, vai uma distância considerável. A questão não é a patente. É a preparação para exercer o poder que o cargo lhe confere.

E isso leva a uma pergunta muito mais importante: até onde vai a lealdade de um militar ao Presidente e onde começa a sua lealdade à Constituição?

Mark Milley tornou-se uma figura controversa porque, nos últimos meses da primeira presidência de Trump, se preocupou com a estabilidade da cadeia de comando e com a possibilidade de as Forças Armadas serem arrastadas para uma crise política. O simples facto de um chefe militar ter sentido necessidade de recordar procedimentos e limites mostra até onde tinha chegado a desconfiança dentro do próprio Estado.

É aqui que começa a minha verdadeira inquietação.

As democracias raramente acordam numa manhã transformadas em ditaduras. A transformação, quando acontece, pode ser muito mais banal.

Uma emergência justifica uma excepção. A excepção cria um precedente. O precedente transforma-se em hábito. O funcionário incómodo é substituído. O juiz adverso passa a ser chamado inimigo. O jornalista crítico torna-se traidor. O opositor deixa de estar errado e passa a ser uma ameaça.

Nenhum destes passos, isoladamente, parece suficiente para destruir uma democracia.

Talvez seja precisamente esse o perigo.

Uma hipótese, não uma previsão: «imagino» uma crise grave nos Estados Unidos.

Pode ser um atentado, uma convulsão social, violência política, uma emergência na fronteira ou uma eleição cujo resultado milhões de pessoas se recusem a aceitar.

O Presidente invoca poderes extraordinários. Uma parte do país aplaude porque deseja ordem. Alguns tribunais resistem. Algumas autoridades estaduais recusam. Funcionários públicos hesitam. Militares perguntam onde termina uma ordem discutível e começa uma ordem ilegal.

E então aparece a pergunta que nenhuma Constituição consegue responder sozinha:

Quem obedece a quem?

Não estou a prever um golpe de Estado. Muito menos imagino Trump de coroa na cabeça, sentado num trono na Casa Branca.

“Imperador” é uma metáfora.

É o nome que dou ao momento em que uma democracia continua a conservar eleições, tribunais, bandeiras e constituições, mas começa a aceitar que um homem esteja acima de todos eles.

E não seria necessário que Trump se proclamasse imperador. Bastaria que uma parte suficiente dos americanos começasse a desejar que pudesse comportar-se como um.

É por isso que o verdadeiro perigo não é Trump.

Trump passará, como passam todos os presidentes.

O perigo é o cansaço democrático, o cidadão que olha para instituições imperfeitas e conclui que são inúteis; aquele que, cansado da lentidão, deseja eficácia a qualquer preço; aquele que diz que todos os políticos são iguais, que os tribunais só atrapalham, que os jornalistas mentem todos e que talvez fosse melhor entregar o poder a alguém que pusesse ordem nisto.

Nesse instante, o aspirante a autocrata já não precisa de derrubar a democracia.

Basta esperar que ela lhe seja entregue.

E este problema não é exclusivamente americano.

Há um fascínio, à escala planetária, pelo homem forte. Aparece quando as sociedades têm medo, quando se sentem humilhadas, quando as desigualdades parecem intoleráveis ou quando demasiadas pessoas deixam de acreditar que as instituições ainda trabalham para elas.

É aí que o ressentimento se transforma em força política.

Talvez a grande lição americana não esteja, portanto, em 1861, mas no que aconteceu depois de 1865.

Ganhar uma guerra não basta.

A Reconstrução tentou transformar juridicamente uma sociedade que a guerra tinha destruído. Aboliu-se a escravatura, reconheceu-se cidadania e procurou-se garantir direitos políticos. Mas uma parte enorme da promessa ficou por cumprir. Décadas depois, foi necessário voltar a lutar por direitos que pareciam já garantidos pela Constituição.

As instituições podem escrever uma promessa.

Só as pessoas conseguem mantê-la viva.

É por isso que talvez a Guerra Civil Americana tenha terminado militarmente, mas algumas das perguntas que a atravessaram nunca tenham desaparecido completamente.

Quem pertence verdadeiramente à comunidade política?

Até onde pode ir o poder federal?

O que acontece quando uma parte do país deixa de reconhecer legitimidade à outra?

E, sobretudo, o que fazemos quando a liberdade começa a parecer menos confortável do que a autoridade?

Não sei se os Estados Unidos caminham para uma crise constitucional mais profunda. Espero que não.

Também não sei se Donald Trump ficará na História apenas como um presidente que fez da divisão e da mentira as suas armas políticas ou como o homem que empurrou as instituições americanas até um limite que desconhecíamos.

Mas sei uma coisa.

Nenhuma democracia se salva apenas porque tem uma Constituição.

Uma Constituição é papel, enquanto não houver juízes dispostos a aplicá-la, militares dispostos a obedecer-lhe, funcionários dispostos a defendê-la e cidadãos dispostos a aceitar que democracia significa também perder.

O imperador começa a existir muito antes de alguém lhe colocar uma coroa.

Começa no dia em que suficientes pessoas concluem que já não precisam de cidadãos e preferem súbditos.

E talvez seja esse o verdadeiro armistício inacabado.













quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Mal à Mesa


                          Imagem captada do video de campanha eleitoral de Renan Santos, Brasil, Agosto de 2026


Quando vi aquilo, pensei no mal. Não o abstracto dos livros, nem o das grandes barbáries, mas aquele que se senta à mesa connosco enquanto mastigamos, distraídos, a normalização do inaceitável

Crescemos com um mal distante: mentiras miúdas, alcunhas cruéis, guerras noutro mapa. Foi crescendo devagar, como uma maré que sobe sem que se note nos pés.

Até que, na sexta-feira 21 de Agosto, apareceu no ecrã do telemóvel: pás e garras mecânicas a recolher corpos de deserdados da sorte, os não apartamentáveis, como se fossem resíduos urbanos. Não era guerra, era proposta eleitoral. Todos os apanhados tinham a mesma cor. A legenda dizia: “QUER VER ISSO ACONTECENDO? VOTE RENAN SANTOS 14.” O mal deixava de ser acção para ser programa de governo.

Minutos depois liguei a televisão para almoçar. E lá estava o mesmo teatro, só que noutro canal: discursos de ódio disfarçados de franqueza, vidas reduzidas a “problemas logísticos”. Não houve sobressalto. Apenas o gesto automático de levar a comida à boca. O mal já era o pano de fundo.

É aqui que Hannah Arendt nos interpela. Para ela o mal não mora na monstruosidade excepcional, mora na banalidade, na repetição mecânica que transforma o horror em rotina. Aquele vídeo não é excepção, é a banalidade do mal elevada a espectáculo eleitoral. E é assim que ele triunfa: não quando nos indignamos, mas quando deixa de ser notícia e passa a ser cenário.

Zygmunt Bauman chamou a isto “modernidade líquida”. Num mundo em que as relações se tornam descartáveis, as vidas também se tornam descartáveis. Os braços mecânicos são só o símbolo mais cru dessa lógica. O candidato não inventou a desumanidade, apenas a tornou explícita.

E isto não é figura de estilo. Aconteceu, com data e hora marcadas. A única diferença entre aquelas pessoas e nós é a barriga cheia do nosso lado do ecrã.

Assistimos todos os dias a políticos a fazer o que nos ensinaram a não fazer: mentem, roubam, prometem o impossível e cobram o preço em vidas. E nós vemos, indignamo-nos talvez, e viramos a página.

Theodor Adorno escreveu que não há vida verdadeira na vida falsa. E não há inocência em quem almoça enquanto vê corpos a serem recolhidos como lixo. É isso que torna o vídeo pornográfico, não a violência, mas a exibição do proibido como espectáculo, e a nossa incapacidade de desviar o olhar. O mal combate-se quando nos recusamos a consumi-lo.

Não tenho solução. Tenho só uma pergunta: se o mal já não nos surpreende, como é que o vamos reconhecer a tempo?

Porque o mal, na sua versão mais perigosa, não é o que nos faz gritar. É o que nos faz continuar a comer. Arendt, Bauman e Adorno convergem aqui: o mal é um hábito, e como todos os hábitos, só se desfaz pela interrupção.

O que vi naquela sexta-feira foi um anúncio. A promessa de que, se deixarmos, ele sai dos ecrãs para as ruas, cobrado em corpos que já não têm nome.

O primeiro combate é recusar a normalização. Olhar para a retroescavadora e não desviar os olhos. Mastigar, engolir, e mesmo assim saber que aquilo não se digere.

Não podemos aceitar que o mal seja servido à mesa como um prato qualquer. Porque se o aceitarmos, um dia seremos nós, ou os nossos filhos, a ser recolhidos como lixo, enquanto alguém, do outro lado do ecrã, pega no garfo e continua a comer.

sábado, 29 de agosto de 2026

As alterações Climáticas e os Ritmos da História

As civilizações conhecem ritmos de ascenção e declinio. Haverá fenómenos que não apenas escapam aos ciclos da História, como acabam por redefeni-los?

As alterações climáticas obrigam-nos a repensar uma velha ideia, será que a História avança por ciclos ou enfrenta, por vezes, rupturas sem precedentes?

A civilização comporta-se como uma maré: há fluxos e refluxos. Nos primeiros, crescem o conhecimento, o comércio, a arte e a ciência, com estabilidade política como em Atenas, no Renascimento ou no pós-II Guerra. Nos refluxos, há fragmentação, guerras, declínio e perda de confiança, como na queda de Roma ou nas guerras religiosas.

Mas a História não volta atrás: no século XX, a ciência avançou imenso, mas também houve Auschwitz e Hiroshima.

Pensadores como Spengler, Toynbee, Ibn Khaldun ou Vico falaram de ciclos. Prefiro falar em ritmos: abertura e fecho, confiança e medo, construção e erosão de instituições.

A questão difícil é: como saber, vivendo-o, se estamos num refluxo? Quem viu Roma ruir não sabia o que vinha a seguir. Nós também não sabemos ao certo se este tempo é declínio, crise ou transformação.

Mas esta ideia, por mais sugestiva que seja, tem limites. É vaga ao ponto de quase qualquer época poder ser encaixada num fluxo ou refluxo, conforme aquilo que escolhemos medir. E corre o risco de naturalizar o sofrimento, como se guerras e colapsos fossem marés inevitáveis, e não resultados de decisões humanas concretas. Subestima também o acaso: uma pandemia, uma invenção, um vulcão, um cataclismo à escala planetária podem virar o jogo sem aviso.

Há, porém, uma diferença hoje. As alterações climáticas não são um refluxo entre outros. São uma alteração física do planeta que não respeita ciclos políticos nem confianças culturais. Podemos estar em fluxo ou refluxo, mas em ambos a temperatura sobe, os glaciares derretem e os oceanos avançam. Isto torna a metáfora da maré quase irónica: a maré que nos ameaça é literal.

E, no entanto, vale a pena lembrar algo simples. Ao homem nunca se lhe colocou, até hoje, um problema que não tenha acabado por resolver. Pragas, fomes, guerras totais, buracos na camada de ozono: tudo pareceu, no seu tempo, insuperável. Não é otimismo ingénuo, é apenas o que a História mostra quando se olha com distância. A diferença agora não é a capacidade, é o prazo. Os colapsos do passado davam tempo para reconstruir depois. Este exige que se resolva antes, ou pelo menos ao mesmo tempo, porque o que está em jogo não é só conhecimento, é a própria habitabilidade do planeta.

Isso não se resolve com novas instituições sozinhas, resolve-se com decisões globais, rápidas e coordenadas, que a História nunca antes exigiu de nós com esta urgência. Mas exigir não é o mesmo que impossibilitar.

No fundo, a metáfora da maré vale como ferramenta de reflexão, não como teoria. E se há uma lição a tirar da capacidade humana de resolver o que parecia insolúvel, é esta: precisamos de agir sobre o nível da água, e depressa, porque este não é um ritmo, é uma emergência. Mas é uma emergência que ainda pode ser resolvida, como tantas outras que a História, quando pareciam insolúveis, acabou por vencer.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026


 A Sombra que não Veremos

“Porque plantas tamareiras, se sabes que nunca comerás os seus frutos?”

A pergunta é legítima, até sensata. Num mundo que mede o esforço pelo retorno, que avalia o tempo pelo rendimento, que exige que cada acção tenha um beneficiário visível, o velho que insiste em plantar árvores cujo fruto não provará parece, no mínimo, um anacronismo. Parece, sobretudo, um desperdício.

E no entanto, ele responde com uma serenidade que desarma a lógica utilitária: “Os que hoje como não foram plantados por mim. Foram plantados por quem viveu antes de mim. Assim como eu beneficiei do trabalho deles, outros beneficiarão do meu.”

Não há nesta resposta qualquer vestígio de heroicidade ou sacrifício. Há, isso sim, um reconhecimento profundo e quase óbvio: ninguém começa do zero. Cada refeição, cada conhecimento, cada conquista que hoje tomamos como nossa é, na verdade, uma herança. O velho não está a fazer um favor ao futuro; está a saldar uma dívida ao passado. E nesse gesto modesto reside uma das ideias mais poderosas que a humanidade já produziu: a de que uma sociedade cresce verdadeiramente quando os seus membros mais velhos plantam árvores à sombra das quais sabem que nunca se sentarão.

A frase foi popularmente atribuída a John F. Kennedy, embora os estudiosos a encontrem muito antes, em provérbios gregos, em tradições orientais, em textos sufis. Que a mesma intuição atravesse culturas e séculos não é um mero acaso histórico. É antes um sinal de que estamos diante de um arquétipo, de uma verdade antropológica que parece emergir sempre que uma civilização atinge certa maturidade. A capacidade de trabalhar por um fruto que não colheremos é, talvez, o que distingue uma tribo que apenas sobrevive de uma sociedade que verdadeiramente dura.

Ora, se esta ideia já era rara em tempos mais lentos, no século XXI parece quase extraterrestre. E não por maldade ou egoísmo. Há hoje tanta boa vontade como houve em qualquer outra época. Mas algo mudou. Algo de estrutural se alterou na nossa relação com o tempo, com o conhecimento e, sobretudo, com a própria ideia de sabedoria.

Vivemos a era da informação plena. Nunca a humanidade soube tanto, em dados, factos, estudos e opiniões. E nunca, paradoxalmente, pareceu tão insegura sobre o que fazer com esse conhecimento. O telemóvel que carregamos no bolso dá respostas em fracções de segundo, mas talvez nos tenha roubado, em silêncio, o direito às perguntas importantes. Porque a pergunta exige pausa. Exige que fiquemos calados por tempo suficiente para que a dúvida amadureça. E o silêncio, hoje, é um luxo que raramente nos concedemos.

Confundimos memória com acesso à memória. Saber já não é recordar; é saber onde procurar. O conhecimento deixou de ser uma integração orgânica na nossa experiência para se tornar um ficheiro sempre disponível, basta procurá-lo. E há consequências profundas nessa mudança: se o saber está fora de nós, numa nuvem, o discernimento, que é a aplicação íntima do saber à vida, fica órfão. Podemos citar estatísticas, evocar teorias, recitar dados. Mas compreender? Isso exige algo que a velocidade não permite: a digestão lenta da experiência.

A velocidade tornou-se um valor em si mesmo. Respondemos a e-mails antes de pensar, publicamos opiniões antes de as formar, tomamos decisões antes de as sentir. Mas haverá decisões que só amadurecem com o tempo, como o fruto da tamareira? Haverá escolhas que não podem ser optimizadas, que exigem espera, erro, hesitação, essa coisa tão impopular chamada paciência? Um agricultor analfabeto de há cem anos podia ler o céu, o solo e o vento de uma forma que nenhum sensor hoje condensa. Lia com o corpo, com a espera, com a repetição cíclica das estações. Não sabia mais do que sabemos. Ou saberia? Sabia, isso sim, o que era essencial.

A inteligência artificial, que promete ampliar o nosso conhecimento, pode também ampliar a nossa preguiça cognitiva. Se a máquina responde primeiro, se o algoritmo sugere antes de perguntarmos, se a interface nos poupa o esforço de formular a dúvida, o que acontece à nossa capacidade de pensar por nós próprios? Não se trata de uma resistência ingénua, a tecnologia é um instrumento formidável. O problema não está na ferramenta, está na delegação. Quando subcontratamos o pensamento, ganhamos eficiência, mas perdemos a intimidade com o problema. E sem essa intimidade, não há sabedoria possível.

Talvez o problema do século XXI não seja, afinal, a falta de verdade. As verdades objectivas, científicas, mensuráveis, estão mais disponíveis do que nunca. O problema é o excesso de verdades provisórias. A cada minuto, uma nova certeza substitui a anterior. Um estudo contradiz outro. Uma opinião desmente a que foi dita na hora anterior. Neste turbilhão de dados, o que se perde não é a exactidão, é a direcção. Podemos saber tudo sobre o parafuso e nem imaginar que a porca existe. Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, e o que é essencial fica soterrado sob o que é urgente.

O velho que plantava tamareiras não sabia se os seus frutos seriam doces. Não sabia sequer se a árvore vingaria. Sabia apenas que o gesto de plantar era, em si mesmo, a resposta. Não precisava de garantias. Plantava porque acreditava que o tempo não termina nele, uma crença que não é religiosa, mas profundamente humana. É essa crença que nos permite construir hospitais que não veremos concluídos, escrever livros que ninguém lerá daqui a cem anos, educar crianças cujo destino desconhecemos.

A tamareira leva anos a dar fruto. Durante todo esse tempo, o velho não os come. Mas come, todos os dias, os frutos que outros plantaram. Essa consciência da interdependência geracional é o que nos salva do presente absoluto, do imediatismo que nos reduz a consumidores de instantes.

Hoje, quando tudo é rápido, quando o conhecimento se pulveriza em notificações, quando a resposta chega antes da pergunta, talvez a nossa tarefa mais urgente seja reaprender a plantar tamareiras. Não no sentido literal, embora isso também não fizesse mal, mas no sentido profundo: fazer o que não veremos terminado, pensar o que não será imediatamente útil, semear o que só outras gerações colherão.

E fazer tudo isso sem a arrogância de quem crê estar a salvar o mundo. Apenas com a humildade de quem, como o velho, reconhece que já comeu muitas tâmaras de tamareiras plantadas por outros. E que, portanto, tem uma dívida. Uma dívida que só se paga plantando, mesmo que a sombra, essa, nunca seja para nós.

Fica então uma pergunta por responder, para quem troca a paciência das gerações pela urgência do instante. Em fevereiro de 2025, numa entrevista ao The Joe Rogan Experience, Elon Musk afirmou que “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, que existe uma “empatia suicidária” e que o verdadeiro problema é a “empatia instrumentalizada”, isto é, quando terceiros exploram o impulso empático para obter vantagens políticas ou sociais. Se plantar tamareiras é um acto de fé no outro, um gesto que só faz sentido porque acreditamos numa cadeia de cuidado entre gerações, que espécie de sombra restará a uma civilização que decide chamar fraqueza àquilo que sempre a manteve de pé?

quarta-feira, 19 de agosto de 2026


O Rádio Amadorismo, última Trincheira da Comunicação 


Quando as luzes se apagam, o mundo digital desaba, rui sem estrondo. Num cenário de catástrofe natural, como os incêndios florestais, cheias ou tempestades, que vão cada vez mais frequentemente assolando Portugal e o resto do Mundo, a primeira vítima é sempre a infraestrutura crítica. A energia elétrica cai, as antenas das operadoras de telemóvel sucumbem ao fim de algumas horas, a fibra óptica rompe-se e o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal), por mais nobre que seja a sua missão, revela a sua fragilidade dependendo de centrais, repetidores e fontes de alimentação que, num cenário de colapso total, também falham.

Mas, no meio do caos, há uma voz que resiste. É a voz do radioamador analógico.

A Física não falha: a radiofrequência e o poder da  HF, VHF e UHF.

Ao contrário das redes celulares, que dependem de uma intrincada cadeia de servidores e de ligações de backhaul (ou seja, a infraestrutura que interliga o núcleo da rede às antenas ou às redes locais), o radioamadorismo analógico assenta num princípio simples e intemporal: a propagação de ondas eletromagnéticas.

Uma estação de HF (Ondas Curtas), com uma bateria de automóvel e um fio esticado entre duas árvores, consegue comunicar a milhares de quilómetros. Os equipamentos PMR de meio watt, sejam os usados pelas crianças ou pelos caminheiros em plena natureza, conseguem fazer verdadeiros milagres. Ainda assim, não se comparam ao alcance e à eficácia surpreendente dos CB (Banda do Cidadão), que, operando livremente nos 27 MHz sem necessidade de licença, são de uma robustez e um desempenho notáveis. Em VHF e UHF, com repetidores alimentados a energia solar ou a geradores, mantém-se a cobertura local e regional, esta num sentido muito amplo.

Basta uma bateria, um rádio e um operador com conhecimento. E há comunicação.

É esta resiliência que tem permitido, em cenários de furacões nos EUA, terramotos no Japão ou incêndios na Austrália, que os radioamadores sejam os primeiros a transmitir as coordenadas exactas de feridos, a pedir medicamentos ou a coordenar abrigos. A informação passa, e vidas são salvas por causa disso.

Mais do que Hobby, uma Escola de Vida.

Mas a nossa importância não se mede apenas nos momentos de aperto. Mede-se na preparação. É por isso que nos orgulhamos do trabalho de base, como o que fazemos aqui e noutras localidades. O JOTA (Jamboree on the Air), onde apoiamos incondicionalmente os escuteiros, é a prova viva de que o futuro pode ser melhor. Ensinamos os mais novos que as ondas de rádio não precisam de Wi-Fi para viajar, incutimos-lhes o gosto pela eletrónica e, acima de tudo, ensinamos-lhes que a comunicação é um acto de responsabilidade.

Mas esse trabalho de base esbarra sempre no mesmo obstáculo.

O Alheamento das Autoridades, num colossal erro estratégico.

É aqui que a frustração se instala. Enquanto nos dispomos a formar a população civil, desde os alunos das escolas até a qualquer pessoa interessada, um muro de silêncio isola-nos.

Deixem que ensinemos as pessoas a usar um rádio antes da catástrofe chegar. Uma população treinada é uma população que se salva a si própria e alivia a pressão sobre os meios de socorro. Ignorar este recurso, que não custa um cêntimo aos cofres públicos em manutenção, é pura negligência.

A Revolução Digital chegou (e nesta área há trabalho sério, um enorme desenvolvimento por parte dos rádio amadores)

Felizmente, e para terminar em tom positivo, o radioamador não é uma relíquia do século XX. Todos os astronautas o são. Evoluímos. Se o analógico é a nossa espingarda de cano duplo para situações de colapso, o digital é a nossa nave espacial do dia a dia.

As redes DMR, D-STAR, Fusion e outras entre nós menos usadas que não cabe aqui citar,  mudaram a forma como falamos com o mundo. Hoje, com um hotspot e uma ligação à internet, quando ela existe, ligamo-nos a radioamadores na Austrália ou no Brasil com qualidade cristalina com equipamentos que custam pouco mais de 20€. Mas o melhor disto tudo é que estas redes são desenvolvidas e mantidas por radioamadores. Não dependemos de gigantes das telecomunicações; criamos os nossos próprios servidores, repetidores digitais e protocolos. Unimos o melhor da tecnologia moderna à resiliência do ethos amador.

O rádio amadorismo não é um passatempo. É uma infraestrutura crítica de reserva. É a voz que se ouve quando todos os outros se silenciam.

Formem connosco as novas gerações. Porque, quando tudo o resto falhar, e a história mostra que falha, estaremos nós, de headphones na cabeça e micro na mão, a passar a mensagem que salva vidas.

sábado, 15 de agosto de 2026



A IA deve ser uma lupa, não um piloto automático

Há uma tentação óbvia com estas ferramentas, pedir-lhes que decidam por nós. E há um erro ainda mais subtil, que é deixá-las falar como se decidissem. Uma IA é, no fundo, um mecanismo estatístico, que entre outras coisas, pode prever a palavra seguinte. Não estabelece ligações históricas, não sente indignação, não questiona o poder. Isso continua a ser trabalho nosso. Quando alguém pergunta porque é que um Peugeot eléctrico de 1941 não deu em nada, não evoluiu consistentemente, ou porque é que ainda andamos com motores estúpidos, tão pouco inteligentes que dissipam 65 a 70% da energia do combustivel como há um século, está a fazer exactamente aquilo que a máquina não faz sózinha.

Há uma IA má e há uma IA ao serviço da humanidade, e a diferença não é técnica, é de atitude. A má dá respostas fechadas, apresenta-as como verdades definitivas e fecha o assunto. A outra mostra dados, confronta fontes, expõe contradições, e diz: aqui estão os factos, a decisão é sua. Um bom bibliotecário não escolhe os livros de que vamos gostar, entrega-nos os certos para que construamos a nossa própria tese. É essa a função que a tecnologia devia ter, nada mais.

A energia e a medicina já mostraram o caminho, e os desvios.
A mesma lógica que se aplica à energia eléctrica e ao hidrogénio aplica-se, ponto por ponto, à medicina e às telecomunicações.
Na medicina, temos IA capaz de diagnosticar cancros com uma precisão notável. Mas temos também algoritmos a negar seguros de saúde com base em estatísticas frias. A tecnologia ao serviço da humanidade amplia o acesso e personaliza o tratamento; a tecnologia ao serviço do lucro cria castas, onde quem paga mais tem acesso a melhor diagnóstico.

Nas telecomunicações a história repete-se. A internet devia ter sido a grande biblioteca de Alexandria do nosso tempo. Tornou-se, em vez disso, um território dominado por algoritmos que nos prendem em bolhas de confirmação para vender anúncios e políticas de duvidosa bondade. A tecnologia que liberta é a que nos dá ferramentas de verificação. A que nos prende num feed infinito faz exatamente o oposto.

O progresso humano não é tecnológico, é ético.
Aqui está o cerne da questão, e é aqui que a história dá razão a quem desconfia do determinismo tecnológico.

Do voo dos irmãos Wright ao desembarque na Lua passaram 66 anos, não porque tínhamos melhores motores. Chegou-se porque, décadas depois, houve uma decisão humana colectiva de que aquilo era um objectivo nobre, digno de investimento e de risco. O Peugeot VLV de 1941 não evoluiu para um carro eléctrico com mil quilómetros de autonomia, não por falta de ciência, mas porque decisões humanas, interesses petrolíferos, guerras, lobbies, colocaram outros objetcivos acima do bem comum.

O verdadeiro travão ao progresso nunca foi tecnológico. Foi sempre político e moral.

O que isto exige de nós
Manter viva esta ideia exige três atitudes práticas.

A primeira é a curiosidade activa: ir buscar dados de 1941 e cruzá-los com a alunagem, ligar factos que parecem distantes até se revelarem a mesma história contada duas vezes. A segunda é o cepticismo informado, que não desconfia por desconfiar, mas pergunta sempre quem ganha com esta tecnologia. A terceira é a participação cívica, porque a direcção da ciência decide-se nos orçamentos públicos, nas leis e nas eleições, não nos laboratórios.

A IA, a energia, a medicina, as telecomunicações, são meios. O fim é e será sempre o ser humano: a sua dignidade, a sua liberdade de pensar, a sua capacidade de se admirar diante do mundo.

Por isso vale a pena escrever sobre isto, falar disto, discuti-lo sem descanso. Uma humanidade que não decide o seu próprio rumo já foi substituída, não por máquinas, mas pela sua própria passividade.

E há, felizmente, quem não seja passivo