domingo, 9 de agosto de 2026

             SALVAR PORTUGAL?


Dizem que a 28 de Julho último, um grupo parlamentar da Assembleia da República foi assaltado. A ser verdade foi um crime horrível, não pelo espólio material, mas pela violência simbólica de invadir o sagrado. Dizem que houve roubo de documentos e de uma pendrive. Dizem. Desde há vários dias que se abre um jornal, ouvem-se os noticiários e nem uma referência. E assim, o que poderia ser um escândalo de segurança nacional dissolve-se na névoa do "não interessa" ou "foi simulado”.

E é precisamente aí que o regime totalitário moderno, aquele que não precisa de botas nem de fogueiras, encontra o seu terreno fértil. Porque o verdadeiro golpe não foi dado ao violar as instalações do grupo parlamentar. Foi dado na nossa capacidade de acreditar. Se o crime existiu, porque é que desapareceu? Se não existiu, porque é que foi noticiado? A resposta, meus caros, é o cansaço.

É esse o mecanismo perverso: espalhar tantas versões, tantos desmentidos contraditórios, que o cidadão comum desiste. "Afinal, já não sei o que é verdade. Já não me importo. Deve ser mais uma guerra política." E nesse gesto de ombros, a democracia morre um pouco.

O alvo, “o sujeito ideal" do nosso tempo não é o extremista apaixonado, esse ainda se incomoda, ainda protesta, ainda exige. O sujeito ideal é aquele que, exausto, confunde o facto com a ficção. Que lê uma coisa, lê o contrário, e conclui que ambas são igualmente prováveis ou igualmente falsas. Quando a verdade se torna uma questão de opinião, o poder já não precisa de censurar. Basta-lhe inundar, contradizer, negar, esquecer.

O assalto de 28 de Julho, verdadeiro ou falso, cumpre plenamente a sua função: gerou dúvida. Gerou ruído. E enquanto discutimos se houve ou não houve, o que realmente importa, a segurança das instituições, a transparência dos actos, a credibilidade do Estado, fica em segundo plano, soterrado pela areia movediça da desinformação.

As pessoas, já exaustas, deixam de perguntar. 

Deixamos de exigir. Deixamos de distinguir entre o bem e o mal, porque já não sabemos o que é real.

Esse, sim, é o crime hediondo, asqueroso. Esse aconteceu. E esse, esse sim, parece ninguém querer investigar

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