A PRAÇA PÚBLICA E O RUÍDO
Há uma pergunta que atravessa qualquer conversa sobre redes sociais, scroll infinito e política contemporânea: ficámos mais estúpidos? A resposta curta é não. A resposta longa é mais incómoda.
Não há evidência sólida de declínio na capacidade cognitiva bruta atribuível à internet. O que existe, isso sim, é uma mudança profunda dos hábitos. Antigamente, investigar um assunto obrigava a percorrer um longo caminho. Um livro levava a outro, uma nota de rodapé abria uma nova pista, e se queria saber algo tinha demorar o tempo que isso exigia. Com o meu primeiro PC, um Shneider com um processador 386, era o mesmo: leitura de um texto e procura de outro que se ligava a este. Horas seguidas. Hoje esse caminho ainda existe, mas deixou de ser o caminho por defeito. O scroll oferece uma alternativa mais fácil, mais rápida e, sobretudo, desenhada para prender a atenção sem exigir esforço.
A capacidade de pensar fundo não desapareceu. Atrofiou por desuso, como um músculo que já não é chamado a trabalhar. E aqui está o primeiro ponto de discórdia possível: uns dirão que isto é decadência, outros dirão que é apenas adaptação a um novo ambiente. Nenhuma das duas respostas será totalmente errada.
Há quem defenda, com razão de sobra, que o resultado colectivo é o que importa, não a capacidade individual guardada na gaveta. Se a maior parte das pessoas capazes de análise cuidada gasta essa capacidade a escolher onde jantar e reserva o piloto automático para decisões políticas, o efeito público é indistinguível de uma sociedade genuinamente menos capaz. Não importa quanto potencial existe, importa quanto é usado quando é preciso.
Junte-se a isto um facto incómodo sobre quem fala hoje na praça pública. Antes, quem não lia, não escrevia e não investigava, ficava calado. O espaço público tinha porteiros, editores, um processo de validação imperfeito mas existente. Hoje esse filtro caiu. Um influenciador semianalfabeto tem o mesmo alcance que um especialista, e por vezes mais, porque o algoritmo recompensa a convicção e não a precisão. Steve Bannon resumiu isto sem pudor nenhum: inundar a zona com lixo, informação falsa, sabendo que a imprensa nunca vai conseguir desmentir ao mesmo ritmo a que a mentira se espalha. Não é retórica política vulgar. É engenharia de atenção, feita por gente que sabe exactamente o que está a fazer.
A assimetria é matemática. Uma mentira custa uma frase. Desmenti-la custa dias de trabalho, e por essa altura já ninguém está a ler o desmentido, porque o ciclo de indignação seguinte já começou. Nestas condições, dizer que a evolução da internet piorou as escolhas políticas não parece exagero. Parece apenas descrição.
Mas há outra leitura possível, e não é ingénua, é apenas mais cautelosa antes de assinar um diagnóstico definitivo.
Cada geração acusou a tecnologia nova de estragar a seguinte. Sócrates desconfiava da escrita, achava que ia destruir a memória. A imprensa foi acusada de espalhar heresias sem controlo. A televisão foi o inimigo da leitura, o inimigo do cinema, da atenção, o inimigo de tudo. Isto não prova que desta vez o alarme está errado, mas obriga a alguma humildade antes de declarar que finalmente chegámos ao fim da inteligência colectiva.
Há também ganhos reais que ficam esquecidos quando o foco vai todo para o pior caso. Grupos historicamente sem acesso ao debate público, jovens, minorias, gente fora dos grandes centros, ganharam voz que nunca tiveram. Jornalistas e académicos sérios migraram para os mesmos formatos que os demagogos usam, e alguns conseguem simplificar bem informação complexa sem a trair. O problema não é o formato em si, é que o formato não distingue entre quem o usa com cuidado e quem o usa como arma.
E fica a dúvida mais desconfortável de todas: será que a procura por certeza fácil já existia antes, à espera de oferta? Talvez a internet não tenha criado o apetite pela mentira reconfortante. Talvez tenha apenas removido o atrito que antes obrigava esse apetite a ser contido.
Nenhuma das três respostas óbvias parece suficiente. A via legal, responsabilizar plataformas pela amplificação e não só quem publica, ataca o mecanismo certo, mas entrega um poder enorme a quem decide o que conta como desinformação, com todos os riscos de abuso que isso implica. A via do mercado e da reputação pressupõe uma audiência que valoriza a precisão factual, e isso já não pode ser dado como garantido, sobretudo quando a mentira reforça a lealdade da base em vez de a afastar. A via da literacia é a mais lenta e a mais incerta de todas, embora seja a única que não depende de confiar numa autoridade central para definir a verdade.
Fica então a pergunta em aberto, sem resposta fácil à vista. Se a mentira viaja sempre mais depressa que a correcção, e se nenhum dos mecanismos de responsabilização existentes consegue acompanhar esse ritmo, o que resta? Regular a distribuição e aceitar o risco de censura disfarçada de moderação? Confiar na literacia de longo prazo, sabendo que o dano imediato já está feito antes de qualquer educação fazer efeito? Ou aceitar que a praça pública sempre teve ruído, e que o trabalho de cada geração é apenas aprender a ouvir através dele, sem esperar que algum dia o ruído desapareça?
A praça pública sempre teve ruído. A diferença é que agora o ruído tem dono, e nós pagamos para o ouvir, não com dinheiro, mas com atenção. E pagamos de livre vontade.
Porque o ruído não é acidental. É financiado. Peter Thiel, o homem do PayPal e da Palantir, de quem ainda ouviremos falar muito, financiou a campanha de Vance e moldou a narrativa tecnoconservadora com a precisão de quem sabe que o algoritmo é uma alavanca e a usa como tal. Elon Musk comprou o Twitter, rebatizou-o de X, e com a desculpa da liberdade de expressão reabilitou contas banidas, reduziu a moderação e amplificou, ele próprio, teorias da conspiração. O resultado é um fluxo constante de desinformação verificada, 54% do que circula na net é falso e ele cobra por isso, com as suas assinaturas azuis. Os irmãos Koch, David e Charles, e a sua rede bilionária de think tanks, financiam há décadas a negação climática e os cortes fiscais para o 1%, sempre com a mesma técnica: repetir uma mentira até que pareça senso comum. Robert Mercer e a sua filha Rebekah, os donos originais da Cambridge Analytica, financiaram a transformação de dados psicológicos em munição política, segmentando eleitores pelo medo, pela raiva e pela identidade. Rupert Murdoch, com a Fox News, não é tecnológico, mas é o avô do modelo: trinta anos a provar que a indignação dá mais audiência do que o factual, e que a audiência dá poder político. E, claro, Donald Trump, que não é um bilionário no sentido clássico, porque herdou, queimou e alavancou a marca, é o produto final deste ecossistema. Ele não criou o ruído; apenas descobriu que podia gritar mais alto que todos porque o ringue estava pago.
O que resta, então? Resta chamar as coisas pelo nome. A pergunta sobre se a internet criou o apetite pela mentira ou apenas removeu o atrito tem uma resposta: remover o atrito tem dono. Cada segundo de scroll, cada indignação que não leva a lado nenhum, cada debate que se resume a "ganhaste?" gera receita para estas mesmas pessoas, em acções, em poder político, em isenção fiscal. A praça pública sempre teve ruído, é verdade. Mas nunca o ruído teve donos com lucro directo em amplificá-lo. E nunca os donos do ruído também possuíram as plataformas, os canais e os dados. Não se trata de estupidificação espontânea. Trata-se de um investimento calculado de bilionários na desinformação, porque o retorno em cortes de impostos, desregulação e poder é garantido. Enquanto o debate for sobre literacia ou moderação, os donos do ringue continuam a facturar. O problema não é o ruído. É quem paga o amplificador e a coluna de som.
Mas há verdades mais incómodas, que raramente se dizem em público. Nós gostamos do ruído. Não apesar dele, mas por causa dele. O scroll infinito não é uma prisão; é uma praia onde nos deitamos de livre vontade. A verdade exige esforço; a indignação dá prazer imediato. E o prazer imediato é mais forte do que o dever cívico, sempre foi, sempre será. Culpar os bilionários é confortável porque nos isenta. Mas eles só vendem o que compramos. A literacia, por si só, não salva ninguém. Pessoas com doutoramentos acreditam em teorias da conspiração, em políticos que mentem na cara. Não é falta de inteligência; é vontade de acreditar. A literacia ensina a ler, mas não ensina a duvidar de si mesmo. E duvidar de si mesmo é a única defesa real contra a manipulação, mas é também a mais rara, porque dói.
O mais inconfessável de todos é isto: a democracia não exige verdade, exige apenas votos. O sistema não colapsa com a mentira; colapsa quando as pessoas deixam de votar ou sejam impedidas de o fazer. Enquanto houver votos, o sistema funciona, com ou sem factos. A praça pública nunca foi um seminário, foi sempre um mercado. E nos mercados, vende mais quem grita melhor. A nostalgia de uma ágora racional é uma ficção romântica. E cada um de nós lê um textos destes e pensa: "eu sou o que resiste, os outros são os analfabetos." Essa é a maior armadilha. A certeza de que se está fora do jogo é o que nos mantém dentro dele. Os manipuladores sabem disso. Contam com isso.
Julgar é fácil. O que custa é olhar sem desviar. Eles não são monstros; são pessoas que descobriram uma alavanca e puxaram-na. Fariam o mesmo? Provavelmente. O poder corrompe, mas também selecciona, quem não quer poder não chega lá. Nós não somos vítimas, somos público. E o público escolhe, todos os dias, o que clica. A responsabilidade é partilhada, mesmo que o poder não seja. A questão não tem resposta não porque seja difícil, mas porque a pergunta certa não é "como acabar com o ruído?"; é "o que estamos dispostos a perder para o reduzir?" Liberdade? Prazer? Conforto? Certeza? Ninguém quer pagar esse preço. Por isso o ruído fica.
A resposta final é esta: não há vilão único. Há um pacto tácito entre quem vende a mentira e quem a compra. Ambos sabem o que fazem. Ambos negam. E ambos continuam. Fecho aqui. Quase sem moral, quase sem solução. Apenas com a constatação de que, se houver saída, ela não virá de fora virá de cada um, no silêncio que ninguém vê.
Não vai ser uma revolução. Vai ser mais lento e mais aborrecido do que isso. É desligar o telemóvel dez minutos antes de reagir. É perguntar quem lucra com a raiva que se sente antes de a partilhar. É ensinar um filho a duvidar de si mesmo, não só dos outros. Nenhum destes gestos derruba um império publicitário. Mas o ringue só existe porque há bilhetes vendidos, e cada pessoa que sai da bancada é um lugar vazio que ninguém pode facturar.
O ruído não vai desaparecer. Talvez nunca desapareça. Mas não precisa de vencer sempre, só precisa de encontrar, de vez em quando, alguém que não estava a comprar naquele dia. É pouco. Mas é mais do que nada, e é a única coisa que depende de nós
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