Imagem captada do video de campanha eleitoral de Renan Santos, Brasil, Agosto de 2026
Quando vi aquilo, pensei no mal. Não o abstracto dos livros, nem o das grandes barbáries, mas aquele que se senta à mesa connosco enquanto mastigamos, distraídos, a normalização do inaceitável
Crescemos com um mal distante: mentiras miúdas, alcunhas cruéis, guerras noutro mapa. Foi crescendo devagar, como uma maré que sobe sem que se note nos pés.
Até que, na sexta-feira 21 de Agosto, apareceu no ecrã do telemóvel: pás e garras mecânicas a recolher corpos de deserdados da sorte, os não apartamentáveis, como se fossem resíduos urbanos. Não era guerra, era proposta eleitoral. Todos os apanhados tinham a mesma cor. A legenda dizia: “QUER VER ISSO ACONTECENDO? VOTE RENAN SANTOS 14.” O mal deixava de ser acção para ser programa de governo.
Minutos depois liguei a televisão para almoçar. E lá estava o mesmo teatro, só que noutro canal: discursos de ódio disfarçados de franqueza, vidas reduzidas a “problemas logísticos”. Não houve sobressalto. Apenas o gesto automático de levar a comida à boca. O mal já era o pano de fundo.
É aqui que Hannah Arendt nos interpela. Para ela o mal não mora na monstruosidade excepcional, mora na banalidade, na repetição mecânica que transforma o horror em rotina. Aquele vídeo não é excepção, é a banalidade do mal elevada a espectáculo eleitoral. E é assim que ele triunfa: não quando nos indignamos, mas quando deixa de ser notícia e passa a ser cenário.
Zygmunt Bauman chamou a isto “modernidade líquida”. Num mundo em que as relações se tornam descartáveis, as vidas também se tornam descartáveis. Os braços mecânicos são só o símbolo mais cru dessa lógica. O candidato não inventou a desumanidade, apenas a tornou explícita.
E isto não é figura de estilo. Aconteceu, com data e hora marcadas. A única diferença entre aquelas pessoas e nós é a barriga cheia do nosso lado do ecrã.
Assistimos todos os dias a políticos a fazer o que nos ensinaram a não fazer: mentem, roubam, prometem o impossível e cobram o preço em vidas. E nós vemos, indignamo-nos talvez, e viramos a página.
Theodor Adorno escreveu que não há vida verdadeira na vida falsa. E não há inocência em quem almoça enquanto vê corpos a serem recolhidos como lixo. É isso que torna o vídeo pornográfico, não a violência, mas a exibição do proibido como espectáculo, e a nossa incapacidade de desviar o olhar. O mal combate-se quando nos recusamos a consumi-lo.
Não tenho solução. Tenho só uma pergunta: se o mal já não nos surpreende, como é que o vamos reconhecer a tempo?
Porque o mal, na sua versão mais perigosa, não é o que nos faz gritar. É o que nos faz continuar a comer. Arendt, Bauman e Adorno convergem aqui: o mal é um hábito, e como todos os hábitos, só se desfaz pela interrupção.
O que vi naquela sexta-feira foi um anúncio. A promessa de que, se deixarmos, ele sai dos ecrãs para as ruas, cobrado em corpos que já não têm nome.
O primeiro combate é recusar a normalização. Olhar para a retroescavadora e não desviar os olhos. Mastigar, engolir, e mesmo assim saber que aquilo não se digere.
Não podemos aceitar que o mal seja servido à mesa como um prato qualquer. Porque se o aceitarmos, um dia seremos nós, ou os nossos filhos, a ser recolhidos como lixo, enquanto alguém, do outro lado do ecrã, pega no garfo e continua a comer.
