sábado, 14 de março de 2009

8 de Março

A Mãe natureza fê-la mãe. A pele ia do toque de seda ao de veludo. Não era uma Barbie, era garantido enfarte dum banqueiro. Tinha tudo o que os homens gostam, desde a beleza e equilíbrio natural à vertigem do abissus abissum. Interiormente, muito raramente se entregava ao tirano e quando o fazia era porque o corpo lhe ostentava o vencimento da biológica letra, em raros momentos mágicos que produzia aquele encantamento de responder sim, sem o dizer, a uma pergunta que não se fez. A maioria das vezes freira de clausura numa perpétua quaresma não pretendida. Farta do quotidiano abominava as surpresas pois só traziam mais contratempos que prazeres.
Óbvio que as palavras que escrevi se aplicam a um sem número de pessoas, com as devidas adaptações, a quem tiro o chapéu, hoje e sempre.
Recuso-me a celebrar mais um dia de actividade acrescida para o comércio, por mal que este esteja. Da meiga galega à dona de casa independente todos os dias são delas, pois garantidamente trabalham duas vezes o dia dum homem.
Aqui fica o meu preito e homenagem: à minha mãe, à minha mulher, à minha filha e a todas as mulheres que estiveram sempre tão presentes na minha vida, as minhas tias, as minhas irmãs e as minhas amigas de agora e de outrora.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Velhas ao Soalheiro


Nas aldeias da serra é costume ver as velhas à porta das casas, apanhando os raios de sol em amena cavaqueira, forma de dizer no corte ou na má língua, exclusivo desporto mental, e a cometerem o único pecado que lhes resta, murmurar do próximo, neste caso afastado.
A minha terra é uma cidade fria, muito fria. Foi aqui recentemente inaugurado um Centro Comercial idêntico a todos os outros que por esse mundo existem. Vários pisos, muitas lojas, restaurantes, várias salas de cinema, um espaço apreciavelmente grande e agradável. Bem decorado, talvez bonito mesmo e mais importante que tudo isso, equipado com ar condicionado logo aquecido. Pergunta-se a quem lê estas linhas, como será designado este espaço na gíria da população mais velha da cidade? Os reformados e outros desocupados enchem aquela “Praça de Comércio” devidamente amornada, e aí se sentem acalentados e seguros. Então, para meu riso, ouvi um recém reformado ser convidado por outro a aparecer no Centro de Dia.
A minha terra é mesmo sui generis, porque não há paridade mais dissemelhante que estes dois conceitos, Centro Comercial e Centro de Dia. Este poder de apropriação mostra pelo menos que a minha terra está viva, ainda não morreu.

terça-feira, 10 de março de 2009

Melhoras


Constipado, sem sabor nem cheiro, espirrando e com um trombil digno dum elefante, lá vamos atravessando este Março que por agora se mostra sorridente e luminoso. Começam a ouvir-se ecos menos fúnebres sobre a Crise. O Bezerro começa a dar sinais de melhoras. O grande veterinário não me parece ter sido o messias Obama mas um europeu e pouco dado às coisas esotéricas, chama-se Jean Paul Trichet e é presidente do Banco Central Europeu. O homem apenas disse que se os bancos não emprestassem dinheiro o BCE fá-lo-ia directamente e sem intermediários. O Bezerro, ou se quisermos, o mercado, cujo comportamento nunca é lá muito racional, entendeu a mensagem e mexeu-se. O hálito era menos nauseabundo e os grandes sacerdotes começam a falar, ainda que baixinho, de melhoras. O Citigroup já tem lucros este trimestre e as bolsas já subiram hoje 4 e 5 por cento, quer do lado de lá, quer do lado de cá do Atlântico.
Eu é que não melhoro. Devo começar a ficar alérgico à beleza e ao bom tempo. Céu azul e sol doirado tornam-me num musaranho inclassificável. Uma rede separa-me dos prazeres da vida.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Março


Mês cujo nome é homenagem ao deus guerreiro. O planeta tem duas luas Fobos e Deimos, o medo e o pânico, filhos de Ares e Afrodite, (Marte e Vénus).
Não sou dado à Astrologia, mas convenhamos que mês com semelhante patrono e em tão boa companhia, teria que ter um magnífico efeito na minha disposição, pelo menos por sugestão. Há alturas que brilhando vermelho no horizonte cintila e fascina. Em algumas culturas orientais é a Estrela de Fogo. É a cor avermelhada que lhe dá todos os bons atributos. É a proveniência, pouco imaginativa, dos Ovnis…
Houve um tempo em que Março para os romanos era o primeiro mês do ano, começo dum novo ciclo. Percebe-se, pois é a época do equinócio da Primavera, e isto tem os seus efeitos. Até ao fim do sec XV na Rússia o ano começava no primeiro de Março e no Reino Unido e colónias o ano começava a 25 de Março, isto até 1752. A 21 de Março tem inicio o Ano Novo de 19 meses da religião Baha'i
Mês em que tenho tido diversos penalties, incluindo o da minha estreia profissional.
Mas mais que tudo, o mais importante é ser o mês de regresso das andorinhas, é o mês que a natureza emita as aguarelas dia sim, dia sim. Digno de todos os humores e de todas as estações: Março marçagão de manhã inverno, à tarde verão e à noite focinho de cão. Por muito mal que queira dizer não posso negar em sinopse assertiva o aumento de temperatura, a beleza renascida, o sorriso reencontrado, desejo de vidas novas, o descasque do belo sexo.
Viver é um processo permanente de adaptação e tristezas não pagam dívidas. Sou sensível ao inconstante e volúvel mês de Março, uma escada pouco limpa que não sobe nem desce, a ponte que não atravessa, estacado movimento, mas real metamorfose interna e manifesta.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Primavera


Não sei se existo, se resisto.
Se persisto só porque insisto.
Ou só existo pois à dor resisto.
Sinto muito, pois sinto-vos
Nisto.
Apalpo-me e sinto-me
A viver julgo-me
Mas sei-me semimorto.
Anúncios de Primavera, uma treta.
A Primavera ata-me
Março maça-me, Março mata-me
Sem doçura
Fosse a estocada rápida sem brandura.

terça-feira, 3 de março de 2009

Escadas, do entendimento?



Escadas sobem-se e descem-se, por vezes depressa demais e com prejuízo. Subimo-las a correr e cansamo-nos, ou galgamo-las abaixo e depressa começamos a contá-las pelos ossos partidos.
Somos pelo ecumenismo. E devemos convir que isso sim, é subir escadas íngremes e sem esteio. Tem de ser devagar, muito devagar, sobretudo quando parece que o próximo passo é simples e evidente.
Isto vem a propósito de não conseguir classificar o meu país como mono cultural ou multicultural. Ambos os qualificativos estão errados. Se fôssemos uma sociedade como a francesa, em cujos princípios a grande maioria se revê, seria mais fácil discorrer sobre o tema. Se fôssemos como nas ilhas britânicas onde parece todos poderem viver, vestir, ou comer à sua maneira, também a coisa era simples. Mas entre nós nada é assim.
Dizemos ser condescendentes, e não racistas, mas se um indiano se cruza connosco exibindo o seu turbante ouve-se por perto uma voz: aos cabeças atadas era fazer de cada um dois; se um inglês, very british, educadamente pergunta seja o que for, escutamos a expressão:- esse inglês do carais o o que é que quer, que aprenda a falar como nós que também aprendemos inglês, patati, patata.

E se contratar uma árabe para trabalhar em casa? Não ponho a hipótese de se ser talhante, contrato-a para trabalho doméstico e isso obriga-a a cozinhar. De certeza que nem a senhora me cozinha a morcela ou a chouriça nem prova o vinho. Se a ponho na rua sou racista se fico com ela sou burro.
Dir-se-á que isto só pode ser dirimido pela lei. Se numa sociedade dita católica como a nossa, um praticante desta fé diz ao chefe: -"tenho aqui ao telefone o senhor fulano de tal", e lhe responderem, "diz-lhe que não estou". Então o bom do cristão, que não pode mentir, fica num dilema pois se o fizer vai para o inferno se não o fizer vai para a rua. Obviamente que isto é o limite. Mas o bom senso por onde anda? Não andará por aí alguém a acelerar de mais? A moral deste país não é a lei. Não o é porque o povo não se reconhece nela, essa é a verdade dolorosa. Fazem-se leis não nas costas do povo, fazem-se leis que o povo estranha, lhes parecem absurdas e depois não lhes liga. As leis começam a ser uma bizarrice do poder, nada de sério. Dar trabalho às ASAEs. Porque quando é a sério, vai-se de enxada ou de escopeta. Ao legislador eu diria slow down.
Assim somos…

segunda-feira, 2 de março de 2009

Contracanto















Vem de verde
E de muitos matizes
Se renova.


Anualmente, por enquanto,
E por quanto tempo mais?
Na Primavera débil
Um pensamento, um desejo
O renascimento
Clássico e silvestre.

Trovoadas, inicio de gritarias,
Pigmentações suspeitas,
Íntimas e manifestas.
Procedências
Concepções e nascimentos
Suicídios.

Estremece-se o cão,
Porque me assustas tanto
Março marçagão?