Evelyn de Morgan, The Worship of Mammon (1909) - Wikipédia Commons - dominio publico
Confesso que ainda estou a digerir o meu espanto: ver alguém com apenas seis dentes na boca votar, com uma convicção quase comovente, em quem tem seis iates.
Não seis dentes. Seis iates.
Seis iates alinhados ao sol, como se fossem um sorriso de marfim ancorado no porto.
E é aí que a coisa dói. Quem tem seis dentes vota em quem tem seis iates. Não por engano, mas por fé. Como se o brilho do iate lhe iluminasse a gengiva. Como se a fortuna do outro lhe prometesse a prótese.
Escrevo isto com amargura porque sei quem é o irmão que ali está. Vi-o de joelhos, não diante de Deus, mas diante de pseudo-evangélicos que de religião sabem apenas uma oração:
Venha a nós.
Venha a nós o iate, venha a nós o dízimo, venha a nós o voto.
O resto, que se lixe. O resto é do pobre, que já está habituado.
Talvez seja isso que mais custa compreender. Não que existam homens com seis iates. Sempre os houve. O que custa é ver quem tem seis dentes acreditar que a riqueza do outro representa, de alguma maneira, a sua própria esperança.
Seis dentes. Seis iates.
E, entre eles, um voto que vale o mesmo e acaba por servir a quem tem mais.
Venha a nós.

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