Foto: Guallendra/Wikimedia Commons - CCO
Durante décadas, as democracias europeias prometeram que os filhos viveriam melhor do que os pais: a educação permitiria subir na vida, o trabalho daria autonomia e uma casa marcaria a entrada na idade adulta. Hoje, essa promessa é muito mais difícil de cumprir.
Os protestos que começaram nas escolas francesas pareciam uma revolta de jovens, contra a falta de professores, as turmas sobrelotadas e os edifícios degradados. Depois juntaram-se os pais, os avós que estiveram no Maio de 68, professores, sindicatos, trabalhadores. Na Bélgica, estudantes marcharam ao lado de dezenas de milhares de trabalhadores contra a austeridade. A rua deixou de ter idade. Talvez o diagnóstico de conflito geracional tenha sido apressado.
O que atravessa estes protestos é a dificuldade crescente de construir uma vida independente, e a habitação é o exemplo mais claro. Em 2024, mais de um em cada dez europeus entre os 20 e os 29 anos gastava mais de 40% do rendimento com a casa, o que, segundo a Eurofound, já condiciona decisões sobre estudo, emprego, saída de casa dos pais e família. Portugal é um caso particularmente severo: entre 2015 e 2025 os preços das casas subiram 180%, contra 64,9% na média da União Europeia, e a habitação pública não passa de cerca de 2% do parque habitacional. Ter emprego já não garante poder sair de casa. Quatro em cada dez portugueses entre os 18 e os 34 anos recorrem a um segundo emprego ou projecto para completar o rendimento, e quase um terço dos que pagam renda ou prestação, entrega à habitação entre 31% e 50% do que ganha. No ensino superior o problema repete-se: há cerca de 28 mil camas para 227 mil estudantes deslocados e internacionais, um défice de 119 mil lugares, segundo a CBRE.
Não admira que educação e custo de vida surjam nas mesmas manifestações. Em Bruxelas, cerca de 30 mil pessoas saíram à rua contra cortes e austeridade; na Áustria, estudantes protestam enquanto as universidades enfrentam um corte de cerca de mil milhões de euros. Em Portugal, milhares manifestaram-se em Lisboa a 10 de Outubro contra o custo de vida, depois de outras marchas por propinas, bolsas e alojamento.
Nenhum destes movimentos é igual aos outros, e falar numa única revolta europeia seria precipitado. Mas têm em comum a habitação cara, a dificuldade de emancipação, a precariedade, os serviços públicos sob pressão e a sensação de que o que parecia alcançável deixou de o ser.
Por isso, a imagem mais reveladora talvez já não seja a do estudante diante da polícia, mas a do estudante que olha para o lado e vê ali os pais e os avós. O que parecia uma luta entre gerações pode ser uma insatisfação que as atravessa a todas, porque o problema deixou de caber numa só.
Nem a esquerda institucional nem os partidos tradicionais souberam ligar habitação, educação, precariedade e futuro num projecto coerente, e a extrema-direita oferece bodes expiatórios em vez de soluções estruturais. Não há profetas nem soluções à vista, mas onde há problema há solução, ou soluções. Se não for assim, é porque o algoritmo e os media nos escondem dados fundamentais.
A insatisfação não é só geracional. Pode ser sistémica.

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