domingo, 11 de outubro de 2026
A INSATISFAÇÃO NÃO É GERACIONAL, É SISTÉMICA
Durante décadas, as democracias europeias prometeram que os filhos viveriam melhor do que os pais: a educação permitiria subir na vida, o trabalho daria autonomia e uma casa marcaria a entrada na idade adulta. Hoje, essa promessa é muito mais difícil de cumprir.
Os protestos que começaram nas escolas francesas pareciam uma revolta de jovens, contra a falta de professores, as turmas sobrelotadas e os edifícios degradados. Depois juntaram-se os pais, os avós que estiveram no Maio de 68, professores, sindicatos, trabalhadores. Na Bélgica, estudantes marcharam ao lado de dezenas de milhares de trabalhadores contra a austeridade. A rua deixou de ter idade. Talvez o diagnóstico de conflito geracional tenha sido apressado.
O que atravessa estes protestos é a dificuldade crescente de construir uma vida independente, e a habitação é o exemplo mais claro. Em 2024, mais de um em cada dez europeus entre os 20 e os 29 anos gastava mais de 40% do rendimento com a casa, o que, segundo a Eurofound, já condiciona decisões sobre estudo, emprego, saída de casa dos pais e família. Portugal é um caso particularmente severo: entre 2015 e 2025 os preços das casas subiram 180%, contra 64,9% na média da União Europeia, e a habitação pública não passa de cerca de 2% do parque habitacional. Ter emprego já não garante poder sair de casa. Quatro em cada dez portugueses entre os 18 e os 34 anos recorrem a um segundo emprego ou projecto para completar o rendimento, e quase um terço dos que pagam renda ou prestação, entrega à habitação entre 31% e 50% do que ganha. No ensino superior o problema repete-se: há cerca de 28 mil camas para 227 mil estudantes deslocados e internacionais, um défice de 119 mil lugares, segundo a CBRE.
Não admira que educação e custo de vida surjam nas mesmas manifestações. Em Bruxelas, cerca de 30 mil pessoas saíram à rua contra cortes e austeridade; na Áustria, estudantes protestam enquanto as universidades enfrentam um corte de cerca de mil milhões de euros. Em Portugal, milhares manifestaram-se em Lisboa a 10 de Outubro contra o custo de vida, depois de outras marchas por propinas, bolsas e alojamento.
Nenhum destes movimentos é igual aos outros, e falar numa única revolta europeia seria precipitado. Mas têm em comum a habitação cara, a dificuldade de emancipação, a precariedade, os serviços públicos sob pressão e a sensação de que o que parecia alcançável deixou de o ser.
Por isso, a imagem mais reveladora talvez já não seja a do estudante diante da polícia, mas a do estudante que olha para o lado e vê ali os pais e os avós. O que parecia uma luta entre gerações pode ser uma insatisfação que as atravessa a todas, porque o problema deixou de caber numa só.
Nem a esquerda institucional nem os partidos tradicionais souberam ligar habitação, educação, precariedade e futuro num projecto coerente, e a extrema-direita oferece bodes expiatórios em vez de soluções estruturais. Não há profetas nem soluções à vista, mas onde há problema há solução, ou soluções. Se não for assim, é porque o algoritmo e os media nos escondem dados fundamentais.
A insatisfação não é só geracional. Pode ser sistémica.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A HISTÓRIA NÃO RECOMEÇA DO ZERO
O que as civilizações perdem, conservam e já não conseguem esquecer
Hoje, as cinco grandes cadeias que integram o pool televisivo da Casa Branca suspenderam a cobertura conjunta dos actos presidenciais que dependem desse sistema, depois de a Casa Branca ter impedido uma delas de desempenhar o turno que lhe cabia. Não interessa aqui decidir quem ganhará o braço-de-ferro. Interessa outra coisa: instituições criadas em épocas diferentes chocam entre si e, justamente nesse choque, tornam visível aquilo que uma civilização aprendeu a não esquecer.
Talvez seja possível formular algumas leis da História. Não leis como as da Física, exactas e matematizáveis, mas padrões suficientemente persistentes para atravessarem os séculos.
Primeira lei: o conhecimento adquirido tende a sobreviver à civilização que o produziu.
Arderam cidades, cairam impérios. Ficaram a roda, o leme, a vela, o alfabeto, a geometria, o direito.
Roma morreu politicamente no Ocidente, mas uma parte de Roma, como o latim e o direito, continuou a governar homens que já não eram romanos.
Segunda lei: uma possibilidade descoberta dificilmente pode ser desinventada.
Da roda veio o carril; da vela, a máquina; do voo, o espaço. Cada geração pode destruir máquinas e bibliotecas, mas recebe um território de possibilidades maior do que o da anterior.
Terceira lei: uma conquista moral pode ser violada sem deixar de existir.
Esta é a que mais me importa. A lei pode ser espezinhada e continuar viva na consciência dos homens. A liberdade pode ser suspensa, a palavra perseguida, a igualdade negada. Mas, depois de reconhecidas como direitos, deixam atrás de si uma memória. O abuso passa a ter nome. Aquilo que durante milénios fora simplesmente poder transforma-se em violação do direito.
É por isso que a História não será uma linha ascendente, nem o eterno círculo de nascimento, apogeu e decadência das civilizações. Prefiro imaginá-la como uma espiral, ou melhor ainda, como o salto de um cavalo num tabuleiro de xadrez tridimensional. Avança de lado, recua aparentemente, desaparece por momentos do quadrado onde esperávamos encontrá-lo e reaparece noutro plano.
Nada garante que cada salto seja para cima. Houve abismos e haverá outros. A civilização não tem seguro contra a barbárie.
Mas existe uma diferença fundamental entre cair sem memória e cair sabendo que já estivemos mais alto.
Esta seria a quarta lei, a mais frágil de todas: o progresso não é inevitável, mas aquilo que verdadeiramente aprendemos torna cada vez mais difícil recomeçar do zero.
Qualquer bombeiro sabe. Ninguém o reinventa, a cada incêndio, o modo de levar água onde parece impossível. Aprende-se, e iso não se perde.
Hoje o mundo inteiro partilha praticamente o mesmo tabuleiro. Uma guerra, uma descoberta, uma mentira, uma revolução científica ou uma violação da lei num dos extremos repercute-se no outro
Nunca o cavalo teve tantos quadrados por onde saltar.
Resta saber se continuará a subir.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
A MAÇÃ NÃO CAIU LONGE DA LARANJA
Em 2017, Matthias Müller, então CEO da Volkswagen, olhou para a Tesla com aquele desdém próprio de quem vende 11 milhões de automóveis e apresenta lucros de 13 ou 14 mil milhões de euros por ano.
«Há empresas que mal vendem 80 mil carros», disse
«E depois há companhias como a Volkswagen.»
E rematou, a propósito das perdas e dos despedimentos na Tesla
«Responsabilidade social? Por favor.»
Müller acrescentaria que não se deviam comparar maçãs com laranjas.
A reprimenda tinha uma particularidade: vinha da Volkswagen, apenas dois anos depois de rebentar o Dieselgate. Mas Müller estava a falar da responsabilidade social dos outros.
Nove anos depois, a Volkswagen enfrenta a maior reestruturação dos seus 89 anos de história. O grupo prevê eliminar cerca de 50 mil postos de trabalho adicionais em todo o mundo, além de outros 50 mil já abrangidos pelo processo de redução em curso. E procura alternativas para quatro fábricas alemãs, Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanover, que irão progressivamente ficar sem modelos para produzir.
Entretanto, em Osnabrück, onde a produção automóvel deverá terminar em 2027, desenha-se uma transformação que em 2017 pareceria improvável: a fábrica poderá passar a produzir componentes para sistemas de defesa aérea.
O círculo não se fechou completamente.
Mas aproximou bastante as pontas.
A maçã não caiu longe da laranja
Em 2017, a Tesla era, aos olhos de Müller, a empresa irresponsável que queimava dinheiro e despedia trabalhadores.
Em 2026, é a Volkswagen que corta dezenas de milhares de postos de trabalho, procura destino para fábricas que já não consegue ocupar e admite transformar uma delas num centro ligado à indústria da defesa.
A diferença talvez seja esta: a Tesla fazia-o enquanto tentava mudar uma indústria. A Volkswagen fá-lo enquanto tenta sobreviver às mudanças dessa mesma indústria.
Não há nisto uma vitória moral da Tesla. Há apenas uma daquelas pequenas vinganças da História: aquilo que parece irresponsabilidade quando acontece aos outros pode chamar-se reestruturação quando nos bate à porta.
Quando o passado bate à porta
Mas há aqui qualquer coisa mais inquietante do que uma ironia empresarial.
A Volkswagen chegou a um acordo preliminar para vender a fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à Aurelius Capital. A produção automóvel deverá terminar em 2027 e o primeiro grande projeto previsto para o local será desenvolvido em cooperação com a israelita Rafael Advanced Defense Systems, uma das empresas envolvidas nos sistemas Iron Dome, Arrow e David’s Sling.
A intenção é produzir sistemas e componentes de defesa aérea para a Alemanha e para a Europa. A reconversão poderá preservar cerca de 1.400 dos atuais 1.800 postos de trabalho da fábrica.
Uma fábrica de automóveis alemã poderá, portanto, tornar-se uma fábrica ligada à produção militar.
Nada há de historicamente extraordinário nisso. A Europa está a rearmar-se e a indústria acompanha as necessidades dos Estados.
O desconforto nasce noutro lugar.
Na mesma semana, do outro lado do país, na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha venceu umas eleições estaduais, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021. A AfD ficou sem maioria absoluta, mas a sua vitória colocou pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial um partido de extrema-direita ao alcance do poder num estado alemão.
Eva Umlauf tinha dois anos quando foi libertada de Auschwitz.
Mais de oito décadas depois, disse estar consternada com o resultado. Falou também do medo das minorias e do perigo de uma sociedade esquecer aquilo que aconteceu.
São histórias diferentes.
Não existe uma relação de causa e efeito entre uma fábrica que muda de produção e um eleitor que muda de voto. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo.
Mas aconteceram na mesma semana, no mesmo país.
E por isso pesam uma sobre a outra.
Uma indústria automóvel em crise. Uma fábrica que olha para a produção militar como possibilidade de futuro. Uma extrema-direita que conquista uma votação que há poucos anos pareceria inimaginável. E uma empresa que, nove anos antes, dava lições públicas sobre responsabilidade social.
Mutatis mutandis, a Alemanha de 2026 não está a repetir a sua história. Mas há coincidências que, naquele país mais do que noutro qualquer, têm o incómodo poder de acordar a memória.
Moral da história
Em 2017, Matthias Müller chamou à Tesla uma espécie de campeã mundial dos grandes anúncios. Criticou as suas perdas, os seus despedimentos e perguntou onde estava a responsabilidade social.
Em 2026, a Volkswagen anuncia a maior reestruturação da sua história, prepara dezenas de milhares de cortes adicionais e procura novos destinos para fábricas que a indústria automóvel já não consegue alimentar como antes.
Uma delas poderá ajudar a fabricar sistemas de defesa aérea.
Talvez a lição seja esta: quando se passa demasiado tempo a apontar o dedo aos outros, corre-se o risco de não reparar naquilo em que nos estamos a transformar.
Ou, como diria Matthias Müller, com aquele desdém de quem não queria comparar maçãs com laranjas:
«Responsabilidade social? Por favor.»
Por favor, mesmo.
domingo, 6 de setembro de 2026
O Imperador Começa Antes de Ser Coroado
O armisticio inacabado da democracia americana
Há guerras que acabam no dia em que se depõem as armas. Outras continuam, transformadas, na memória dos povos.
A Guerra Civil Americana terminou militarmente em 1865. A União venceu, a Confederação desapareceu e a escravatura foi abolida. Mas seria ingénuo imaginar que quatro anos de guerra e séculos de escravatura desapareceriam com a assinatura de uma rendição.
No centro da guerra estavam a escravatura e o seu futuro e, inseparável delas, uma disputa sobre os limites do poder federal, a soberania dos Estados e a própria natureza da União. Depois veio a Reconstrução, a tentativa extraordinária e incompleta de transformar milhões de antigos escravos em cidadãos de pleno direito. Seguiram-se a segregação, a violência racial, o movimento dos direitos civis e sucessivas batalhas sobre aquilo que Washington podia ou não impor aos Estados.
Talvez seja por isso que certas palavras nunca perderam completamente a sua força na política americana: Washington, Governo federal, Estados, Liberdade, Tirania, Povo.
Mudam os tempos e muda o significado das palavras, mas algumas feridas reconhecem o vocabulário.
É nesse terreno que Donald Trump me inquieta.
Não porque seja possível traçar uma linha directa entre 1861 e 2026. A História não funciona assim. Trump não é Jefferson Davis, os Estados Unidos não são a Confederação e a América de hoje não é a América que disparou sobre Fort Sumter.
Mas há ecos.
Quando um político se apresenta não apenas como alguém capaz de governar melhor, mas como o único capaz de salvar a nação, I alone fix it, alguma coisa muda na relação entre o cidadão e o poder. A política deixa lentamente de ser a escolha entre programas e começa a transformar-se numa relação pessoal entre o chefe e os seus seguidores.
O problema não está apenas em Trump. Talvez nem esteja principalmente nele.
Está na possibilidade de milhões de pessoas começarem a desejar aquilo para que as democracias foram construídas, precisamente para evitar um homem suficientemente forte para não precisar de todos os incómodos que limitam o poder: tribunais, parlamento, imprensa, funcionários independentes, governadores, generais, eleições.
Tudo isso é terrivelmente maçador. Obriga a negociar, esperar, perder votações, aceitar decisões de que não gostamos e reconhecer legitimidade a pessoas que detestamos.
A democracia é lenta porque desconfia do poder.
O homem providencial é rápido porque pede que confiemos nele.
É aqui que a actual experiência americana merece ser observada com atenção.
Trump nomeou juízes para o Supremo Tribunal e para numerosos tribunais federais. Isso é constitucional e outros presidentes fizeram exactamente o mesmo. A questão não é saber quem nomeou um juiz, mas se as instituições continuam capazes de contrariar o Presidente que o nomeou.
E, até agora, contrariaram-no.
Os tribunais têm bloqueado decisões da Administração. Estados enfrentam Washington nos tribunais. Governadores contestam o alcance do poder federal. A imprensa continua a investigar. As eleições continuam a ser disputadas.
A democracia americana ainda não desapareceu. Mas está a ser posta à prova.
O mesmo vale para as Forças Armadas.
Pete Hegseth tem experiência militar. Serviu como oficial de Infantaria na Guarda Nacional, esteve no Iraque e no Afeganistão, foi condecorado e chegou ao posto de major. Nas democracias, os militares devem obediência ao poder civil e assim deve ser. Mas de major e apresentador de televisão a chefe do Pentágono, com generais e almirantes de várias estrelas sob a sua autoridade, vai uma distância considerável. A questão não é a patente. É a preparação para exercer o poder que o cargo lhe confere.
E isso leva a uma pergunta muito mais importante: até onde vai a lealdade de um militar ao Presidente e onde começa a sua lealdade à Constituição?
Mark Milley tornou-se uma figura controversa porque, nos últimos meses da primeira presidência de Trump, se preocupou com a estabilidade da cadeia de comando e com a possibilidade de as Forças Armadas serem arrastadas para uma crise política. O simples facto de um chefe militar ter sentido necessidade de recordar procedimentos e limites mostra até onde tinha chegado a desconfiança dentro do próprio Estado.
É aqui que começa a minha verdadeira inquietação.
As democracias raramente acordam numa manhã transformadas em ditaduras. A transformação, quando acontece, pode ser muito mais banal.
Uma emergência justifica uma excepção. A excepção cria um precedente. O precedente transforma-se em hábito. O funcionário incómodo é substituído. O juiz adverso passa a ser chamado inimigo. O jornalista crítico torna-se traidor. O opositor deixa de estar errado e passa a ser uma ameaça.
Nenhum destes passos, isoladamente, parece suficiente para destruir uma democracia.
Talvez seja precisamente esse o perigo.
Uma hipótese, não uma previsão: «imagino» uma crise grave nos Estados Unidos.
Pode ser um atentado, uma convulsão social, violência política, uma emergência na fronteira ou uma eleição cujo resultado milhões de pessoas se recusem a aceitar.
O Presidente invoca poderes extraordinários. Uma parte do país aplaude porque deseja ordem. Alguns tribunais resistem. Algumas autoridades estaduais recusam. Funcionários públicos hesitam. Militares perguntam onde termina uma ordem discutível e começa uma ordem ilegal.
E então aparece a pergunta que nenhuma Constituição consegue responder sozinha:
Quem obedece a quem?
Não estou a prever um golpe de Estado. Muito menos imagino Trump de coroa na cabeça, sentado num trono na Casa Branca.
“Imperador” é uma metáfora.
É o nome que dou ao momento em que uma democracia continua a conservar eleições, tribunais, bandeiras e constituições, mas começa a aceitar que um homem esteja acima de todos eles.
E não seria necessário que Trump se proclamasse imperador. Bastaria que uma parte suficiente dos americanos começasse a desejar que pudesse comportar-se como um.
É por isso que o verdadeiro perigo não é Trump.
Trump passará, como passam todos os presidentes.
O perigo é o cansaço democrático, o cidadão que olha para instituições imperfeitas e conclui que são inúteis; aquele que, cansado da lentidão, deseja eficácia a qualquer preço; aquele que diz que todos os políticos são iguais, que os tribunais só atrapalham, que os jornalistas mentem todos e que talvez fosse melhor entregar o poder a alguém que pusesse ordem nisto.
Nesse instante, o aspirante a autocrata já não precisa de derrubar a democracia.
Basta esperar que ela lhe seja entregue.
E este problema não é exclusivamente americano.
Há um fascínio, à escala planetária, pelo homem forte. Aparece quando as sociedades têm medo, quando se sentem humilhadas, quando as desigualdades parecem intoleráveis ou quando demasiadas pessoas deixam de acreditar que as instituições ainda trabalham para elas.
É aí que o ressentimento se transforma em força política.
Talvez a grande lição americana não esteja, portanto, em 1861, mas no que aconteceu depois de 1865.
Ganhar uma guerra não basta.
A Reconstrução tentou transformar juridicamente uma sociedade que a guerra tinha destruído. Aboliu-se a escravatura, reconheceu-se cidadania e procurou-se garantir direitos políticos. Mas uma parte enorme da promessa ficou por cumprir. Décadas depois, foi necessário voltar a lutar por direitos que pareciam já garantidos pela Constituição.
As instituições podem escrever uma promessa.
Só as pessoas conseguem mantê-la viva.
É por isso que talvez a Guerra Civil Americana tenha terminado militarmente, mas algumas das perguntas que a atravessaram nunca tenham desaparecido completamente.
Quem pertence verdadeiramente à comunidade política?
Até onde pode ir o poder federal?
O que acontece quando uma parte do país deixa de reconhecer legitimidade à outra?
E, sobretudo, o que fazemos quando a liberdade começa a parecer menos confortável do que a autoridade?
Não sei se os Estados Unidos caminham para uma crise constitucional mais profunda. Espero que não.
Também não sei se Donald Trump ficará na História apenas como um presidente que fez da divisão e da mentira as suas armas políticas ou como o homem que empurrou as instituições americanas até um limite que desconhecíamos.
Mas sei uma coisa.
Nenhuma democracia se salva apenas porque tem uma Constituição.
Uma Constituição é papel, enquanto não houver juízes dispostos a aplicá-la, militares dispostos a obedecer-lhe, funcionários dispostos a defendê-la e cidadãos dispostos a aceitar que democracia significa também perder.
O imperador começa a existir muito antes de alguém lhe colocar uma coroa.
Começa no dia em que suficientes pessoas concluem que já não precisam de cidadãos e preferem súbditos.
E talvez seja esse o verdadeiro armistício inacabado.
sábado, 29 de agosto de 2026
As alterações Climáticas e os Ritmos da História
As alterações climáticas obrigam-nos a repensar uma velha ideia, será que a História avança por ciclos ou enfrenta, por vezes, rupturas sem precedentes?
A civilização comporta-se como uma maré: há fluxos e refluxos. Nos primeiros, crescem o conhecimento, o comércio, a arte e a ciência, com estabilidade política como em Atenas, no Renascimento ou no pós-II Guerra. Nos refluxos, há fragmentação, guerras, declínio e perda de confiança, como na queda de Roma ou nas guerras religiosas.
Mas a História não volta atrás: no século XX, a ciência avançou imenso, mas também houve Auschwitz e Hiroshima.
Pensadores como Spengler, Toynbee, Ibn Khaldun ou Vico falaram de ciclos. Prefiro falar em ritmos: abertura e fecho, confiança e medo, construção e erosão de instituições.
A questão difícil é: como saber, vivendo-o, se estamos num refluxo? Quem viu Roma ruir não sabia o que vinha a seguir. Nós também não sabemos ao certo se este tempo é declínio, crise ou transformação.
Mas esta ideia, por mais sugestiva que seja, tem limites. É vaga ao ponto de quase qualquer época poder ser encaixada num fluxo ou refluxo, conforme aquilo que escolhemos medir. E corre o risco de naturalizar o sofrimento, como se guerras e colapsos fossem marés inevitáveis, e não resultados de decisões humanas concretas. Subestima também o acaso: uma pandemia, uma invenção, um vulcão, um cataclismo à escala planetária podem virar o jogo sem aviso.
Há, porém, uma diferença hoje. As alterações climáticas não são um refluxo entre outros. São uma alteração física do planeta que não respeita ciclos políticos nem confianças culturais. Podemos estar em fluxo ou refluxo, mas em ambos a temperatura sobe, os glaciares derretem e os oceanos avançam. Isto torna a metáfora da maré quase irónica: a maré que nos ameaça é literal.
E, no entanto, vale a pena lembrar algo simples. Ao homem nunca se lhe colocou, até hoje, um problema que não tenha acabado por resolver. Pragas, fomes, guerras totais, buracos na camada de ozono: tudo pareceu, no seu tempo, insuperável. Não é otimismo ingénuo, é apenas o que a História mostra quando se olha com distância. A diferença agora não é a capacidade, é o prazo. Os colapsos do passado davam tempo para reconstruir depois. Este exige que se resolva antes, ou pelo menos ao mesmo tempo, porque o que está em jogo não é só conhecimento, é a própria habitabilidade do planeta.
Isso não se resolve com novas instituições sozinhas, resolve-se com decisões globais, rápidas e coordenadas, que a História nunca antes exigiu de nós com esta urgência. Mas exigir não é o mesmo que impossibilitar.
No fundo, a metáfora da maré vale como ferramenta de reflexão, não como teoria. E se há uma lição a tirar da capacidade humana de resolver o que parecia insolúvel, é esta: precisamos de agir sobre o nível da água, e depressa, porque este não é um ritmo, é uma emergência. Mas é uma emergência que ainda pode ser resolvida, como tantas outras que a História, quando pareciam insolúveis, acabou por vencer.




