As alterações climáticas obrigam-nos a repensar uma velha ideia, será que a História avança por ciclos ou enfrenta, por vezes, rupturas sem precedentes?
A civilização comporta-se como uma maré: há fluxos e refluxos. Nos primeiros, crescem o conhecimento, o comércio, a arte e a ciência, com estabilidade política como em Atenas, no Renascimento ou no pós-II Guerra. Nos refluxos, há fragmentação, guerras, declínio e perda de confiança, como na queda de Roma ou nas guerras religiosas.
Mas a História não volta atrás: no século XX, a ciência avançou imenso, mas também houve Auschwitz e Hiroshima.
Pensadores como Spengler, Toynbee, Ibn Khaldun ou Vico falaram de ciclos. Prefiro falar em ritmos: abertura e fecho, confiança e medo, construção e erosão de instituições.
A questão difícil é: como saber, vivendo-o, se estamos num refluxo? Quem viu Roma ruir não sabia o que vinha a seguir. Nós também não sabemos ao certo se este tempo é declínio, crise ou transformação.
Mas esta ideia, por mais sugestiva que seja, tem limites. É vaga ao ponto de quase qualquer época poder ser encaixada num fluxo ou refluxo, conforme aquilo que escolhemos medir. E corre o risco de naturalizar o sofrimento, como se guerras e colapsos fossem marés inevitáveis, e não resultados de decisões humanas concretas. Subestima também o acaso: uma pandemia, uma invenção, um vulcão, um cataclismo à escala planetária podem virar o jogo sem aviso.
Há, porém, uma diferença hoje. As alterações climáticas não são um refluxo entre outros. São uma alteração física do planeta que não respeita ciclos políticos nem confianças culturais. Podemos estar em fluxo ou refluxo, mas em ambos a temperatura sobe, os glaciares derretem e os oceanos avançam. Isto torna a metáfora da maré quase irónica: a maré que nos ameaça é literal.
E, no entanto, vale a pena lembrar algo simples. Ao homem nunca se lhe colocou, até hoje, um problema que não tenha acabado por resolver. Pragas, fomes, guerras totais, buracos na camada de ozono: tudo pareceu, no seu tempo, insuperável. Não é otimismo ingénuo, é apenas o que a História mostra quando se olha com distância. A diferença agora não é a capacidade, é o prazo. Os colapsos do passado davam tempo para reconstruir depois. Este exige que se resolva antes, ou pelo menos ao mesmo tempo, porque o que está em jogo não é só conhecimento, é a própria habitabilidade do planeta.
Isso não se resolve com novas instituições sozinhas, resolve-se com decisões globais, rápidas e coordenadas, que a História nunca antes exigiu de nós com esta urgência. Mas exigir não é o mesmo que impossibilitar.
No fundo, a metáfora da maré vale como ferramenta de reflexão, não como teoria. E se há uma lição a tirar da capacidade humana de resolver o que parecia insolúvel, é esta: precisamos de agir sobre o nível da água, e depressa, porque este não é um ritmo, é uma emergência. Mas é uma emergência que ainda pode ser resolvida, como tantas outras que a História, quando pareciam insolúveis, acabou por vencer.

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