segunda-feira, 24 de agosto de 2026


 A Sombra que não Veremos

“Porque plantas tamareiras, se sabes que nunca comerás os seus frutos?”

A pergunta é legítima, até sensata. Num mundo que mede o esforço pelo retorno, que avalia o tempo pelo rendimento, que exige que cada acção tenha um beneficiário visível, o velho que insiste em plantar árvores cujo fruto não provará parece, no mínimo, um anacronismo. Parece, sobretudo, um desperdício.

E no entanto, ele responde com uma serenidade que desarma a lógica utilitária: “Os que hoje como não foram plantados por mim. Foram plantados por quem viveu antes de mim. Assim como eu beneficiei do trabalho deles, outros beneficiarão do meu.”

Não há nesta resposta qualquer vestígio de heroicidade ou sacrifício. Há, isso sim, um reconhecimento profundo e quase óbvio: ninguém começa do zero. Cada refeição, cada conhecimento, cada conquista que hoje tomamos como nossa é, na verdade, uma herança. O velho não está a fazer um favor ao futuro; está a saldar uma dívida ao passado. E nesse gesto modesto reside uma das ideias mais poderosas que a humanidade já produziu: a de que uma sociedade cresce verdadeiramente quando os seus membros mais velhos plantam árvores à sombra das quais sabem que nunca se sentarão.

A frase foi popularmente atribuída a John F. Kennedy, embora os estudiosos a encontrem muito antes, em provérbios gregos, em tradições orientais, em textos sufis. Que a mesma intuição atravesse culturas e séculos não é um mero acaso histórico. É antes um sinal de que estamos diante de um arquétipo, de uma verdade antropológica que parece emergir sempre que uma civilização atinge certa maturidade. A capacidade de trabalhar por um fruto que não colheremos é, talvez, o que distingue uma tribo que apenas sobrevive de uma sociedade que verdadeiramente dura.

Ora, se esta ideia já era rara em tempos mais lentos, no século XXI parece quase extraterrestre. E não por maldade ou egoísmo. Há hoje tanta boa vontade como houve em qualquer outra época. Mas algo mudou. Algo de estrutural se alterou na nossa relação com o tempo, com o conhecimento e, sobretudo, com a própria ideia de sabedoria.

Vivemos a era da informação plena. Nunca a humanidade soube tanto, em dados, factos, estudos e opiniões. E nunca, paradoxalmente, pareceu tão insegura sobre o que fazer com esse conhecimento. O telemóvel que carregamos no bolso dá respostas em fracções de segundo, mas talvez nos tenha roubado, em silêncio, o direito às perguntas importantes. Porque a pergunta exige pausa. Exige que fiquemos calados por tempo suficiente para que a dúvida amadureça. E o silêncio, hoje, é um luxo que raramente nos concedemos.

Confundimos memória com acesso à memória. Saber já não é recordar; é saber onde procurar. O conhecimento deixou de ser uma integração orgânica na nossa experiência para se tornar um ficheiro sempre disponível, basta procurá-lo. E há consequências profundas nessa mudança: se o saber está fora de nós, numa nuvem, o discernimento, que é a aplicação íntima do saber à vida, fica órfão. Podemos citar estatísticas, evocar teorias, recitar dados. Mas compreender? Isso exige algo que a velocidade não permite: a digestão lenta da experiência.

A velocidade tornou-se um valor em si mesmo. Respondemos a e-mails antes de pensar, publicamos opiniões antes de as formar, tomamos decisões antes de as sentir. Mas haverá decisões que só amadurecem com o tempo, como o fruto da tamareira? Haverá escolhas que não podem ser optimizadas, que exigem espera, erro, hesitação, essa coisa tão impopular chamada paciência? Um agricultor analfabeto de há cem anos podia ler o céu, o solo e o vento de uma forma que nenhum sensor hoje condensa. Lia com o corpo, com a espera, com a repetição cíclica das estações. Não sabia mais do que sabemos. Ou saberia? Sabia, isso sim, o que era essencial.

A inteligência artificial, que promete ampliar o nosso conhecimento, pode também ampliar a nossa preguiça cognitiva. Se a máquina responde primeiro, se o algoritmo sugere antes de perguntarmos, se a interface nos poupa o esforço de formular a dúvida, o que acontece à nossa capacidade de pensar por nós próprios? Não se trata de uma resistência ingénua, a tecnologia é um instrumento formidável. O problema não está na ferramenta, está na delegação. Quando subcontratamos o pensamento, ganhamos eficiência, mas perdemos a intimidade com o problema. E sem essa intimidade, não há sabedoria possível.

Talvez o problema do século XXI não seja, afinal, a falta de verdade. As verdades objectivas, científicas, mensuráveis, estão mais disponíveis do que nunca. O problema é o excesso de verdades provisórias. A cada minuto, uma nova certeza substitui a anterior. Um estudo contradiz outro. Uma opinião desmente a que foi dita na hora anterior. Neste turbilhão de dados, o que se perde não é a exactidão, é a direcção. Podemos saber tudo sobre o parafuso e nem imaginar que a porca existe. Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, e o que é essencial fica soterrado sob o que é urgente.

O velho que plantava tamareiras não sabia se os seus frutos seriam doces. Não sabia sequer se a árvore vingaria. Sabia apenas que o gesto de plantar era, em si mesmo, a resposta. Não precisava de garantias. Plantava porque acreditava que o tempo não termina nele, uma crença que não é religiosa, mas profundamente humana. É essa crença que nos permite construir hospitais que não veremos concluídos, escrever livros que ninguém lerá daqui a cem anos, educar crianças cujo destino desconhecemos.

A tamareira leva anos a dar fruto. Durante todo esse tempo, o velho não os come. Mas come, todos os dias, os frutos que outros plantaram. Essa consciência da interdependência geracional é o que nos salva do presente absoluto, do imediatismo que nos reduz a consumidores de instantes.

Hoje, quando tudo é rápido, quando o conhecimento se pulveriza em notificações, quando a resposta chega antes da pergunta, talvez a nossa tarefa mais urgente seja reaprender a plantar tamareiras. Não no sentido literal, embora isso também não fizesse mal, mas no sentido profundo: fazer o que não veremos terminado, pensar o que não será imediatamente útil, semear o que só outras gerações colherão.

E fazer tudo isso sem a arrogância de quem crê estar a salvar o mundo. Apenas com a humildade de quem, como o velho, reconhece que já comeu muitas tamareiras plantadas por outros. E que, portanto, tem uma dívida. Uma dívida que só se paga plantando, mesmo que a sombra, essa, nunca seja para nós.

Fica então uma pergunta por responder, para quem troca a paciência das gerações pela urgência do instante. Em fevereiro de 2025, numa entrevista ao The Joe Rogan Experience, Elon Musk afirmou que “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, que existe uma “empatia suicidária” e que o verdadeiro problema é a “empatia instrumentalizada”, isto é, quando terceiros exploram o impulso empático para obter vantagens políticas ou sociais. Se plantar tamareiras é um acto de fé no outro, um gesto que só faz sentido porque acreditamos numa cadeia de cuidado entre gerações, que espécie de sombra restará a uma civilização que decide chamar fraqueza àquilo que sempre a manteve de pé?

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