quarta-feira, 19 de agosto de 2026


O Rádio Amadorismo, última Trincheira da Comunicação 


Quando as luzes se apagam, o mundo digital desmorona. Num cenário de catástrofe natural, como os incêndios florestais, cheias ou tempestades que vão cada vez mais frequentemente assolando Portugal e o resto do Mundo, a primeira vítima é sempre a infraestrutura crítica. A energia elétrica cai, as antenas das operadoras de telemóvel sucumbem ao fim de algumas horas, a fibra ótica rompe-se e o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal), por mais nobre que seja a sua missão, revela a sua fragilidade dependendo de centrais, repetidores e fontes de alimentação que, num cenário de colapso total, também falham.

Mas, no meio do caos, há uma voz que resiste. É a voz do radioamador analógico.

A Física não falha: a radiofrequência e o poder da  HF, VHF e UHF.

Ao contrário das redes celulares, que dependem de uma intrincada cadeia de servidores e de ligações de backhaul (ou seja, a infraestrutura que interliga o núcleo da rede às antenas ou às redes locais), o radioamadorismo analógico assenta num princípio simples e intemporal: a propagação de ondas eletromagnéticas.

Uma estação de HF (Ondas Curtas), com uma bateria de automóvel e um fio esticado entre duas árvores, consegue comunicar a milhares de quilómetros. Os equipamentos PMR de meio watt, sejam os usados pelas crianças ou pelos caminheiros em plena natureza, conseguem fazer verdadeiros milagres. Ainda assim, não se comparam ao alcance e à eficácia surpreendente dos CB (Banda do Cidadão), que, operando livremente nos 27 MHz sem necessidade de licença, são de uma robustez e um desempenho notáveis. Em VHF e UHF, com repetidores alimentados a energia solar ou a geradores, mantém-se a cobertura local e regional, esta num sentido muito amplo.

Basta uma bateria, um rádio e um operador com conhecimento. E há comunicação

É esta resiliência que tem permitido, em cenários de furacões nos EUA, terramotos no Japão ou incêndios na Austrália, que os radioamadores sejam os primeiros a transmitir as coordenadas exactas de feridos, a pedir medicamentos ou a coordenar abrigos. A informação passa, e vidas são salvas por causa disso.

Mais do que Hobby, uma Escola de Vida.

Mas a nossa importância não se mede apenas nos momentos de aperto. Mede-se na preparação. É por isso que nos orgulhamos do trabalho de base, como o que fazemos aqui e noutras localidades. O JOTA (Jamboree on the Air), onde apoiamos incondicionalmente os escuteiros, é a prova viva de que o futuro pode ser melhor. Ensinamos os mais novos que as ondas de rádio não precisam de Wi-Fi para viajar, incutimos-lhes o gosto pela eletrónica e, acima de tudo, ensinamos-lhes que a comunicação é um acto de responsabilidade.

Mas esse trabalho de base esbarra sempre no mesmo obstáculo.

O Alheamento das Autoridades, num colossal erro estratégico.

É aqui que a frustração se instala. Enquanto nos dispomos a formar a população civil, desde os alunos das escolas até a qualquer pessoa interessada, um muro de silêncio isola-nos.

Deixem que ensinemos as pessoas a usar um rádio antes da catástrofe chegar. Uma população treinada é uma população que se salva a si própria e alivia a pressão sobre os meios de socorro. Ignorar este recurso, que não custa um cêntimo aos cofres públicos em manutenção, é pura negligência.

A Revolução Digital Chegou (e nesta área há trabalho sério, um enorme desenvolvimento por parte dos rádio amadores)

Felizmente, e para terminar em tom positivo, o radioamador não é uma relíquia do século XX. Todos os astronautas o são. Evoluímos. Se o analógico é a nossa espingarda de cano duplo para situações de colapso, o digital é a nossa nave espacial do dia a dia.

As redes DMR, TGIF, D-STAR e Fusion mudaram a forma como falamos com o mundo. Hoje, com um hotspot e uma ligação à internet, quando ela existe, ligamo-nos a radioamadores na Austrália ou no Brasil com qualidade cristalina com equipamentos que custam pouco mais de 20€. Mas o melhor disto tudo é que estas redes são desenvolvidas e mantidas por radioamadores. Não dependemos de gigantes das telecomunicações; criamos os nossos próprios servidores, repetidores digitais e protocolos. Unimos o melhor da tecnologia moderna à resiliência do ethos amador.

O rádio amadorismo não é um passatempo. É uma infraestrutura crítica de reserva. É a voz que se ouve quando todos os outros se silenciam.

Formem connosco as novas gerações. Porque, quando tudo o resto falhar, e a história mostra que falha, estaremos nós, de headphones na cabeça e micro na mão, a passar a mensagem que salva vidas.

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