Outro dia encontrei o meu amigo Eduardo no parque onde passeio o meu peso e as minhas dores, da alma e do corpo. Para estas ainda conheço da aspirina ao tramal, para as outras, nada. Segundo ele, devia deixar de referir aqui meditações e tornar isto mais leve e partilhar com as plantas do polis do rio Diz as minhas reflexões, digo eu. Como não tenho ilusões, sei que o resultado é análogo. Não sou psiquiatra mas julgo que escrever num blog é uma prática narcísica ou coisa semelhante. Para mim, conscientemente, é um exercício catártico, de limpeza, forma de exorcizar alguns fantasmas. Enquanto assim for continuarei a fazê-lo. Desde há uns dias que me bailam na cabeça como se fossem uma espécie de vermes as palavras de Alexandre O’Neill
Às dores inventadas prefere as reais. Doem muito menos ou então muito mais.
Os anos passam, o corpo engorda e a alma à míngua de ilusões e projectos mirra, ficando um intenso sentimento de perda, de roubo, de luto. Régio escrevia que:
Só se sabe que perdemos aquilo que jamais tivemos
Bem quero aprender a deixar fluir as coisas, sentir o espírito dos lugares, desprender-me das coisas e das pessoas. Preciso de luz interior… Terei que procurar uma ordem mística oriental que me aceite como postulante…
Tive ocasião de aqui me referir a uma cidade que espera pelo descongelar das calotes polares, branca por fora, cinzenta por dentro e de que é difícil gostar. Essa terrinha imaginária, ou nem tanto assim, tem a particularidade de não reconhecer os seus melhores. Qualquer ave de arribação ou cuco ali medra e se não se põe a pau é homenageado, ou com o nome numa rua ou mesmo com uma comenda…
Há dias, isto é pura imaginação, um cantor pimba da televisão, da rádio, do CD da cassette pirata ou não, reconhecido em todo o país e na diáspora, (como gosto desta palavra), teve necessidade de voltar por dias à sua terra por motivos bem tristes que se prendiam com a saúde dum familiar que infelizmente faleceu. O escriba deste blog estava dentro do carro na avenida que leva ao hospital e reconheceu o tal artista, recordava-se dele do tempo que cantava numa agência de documentação automóvel. Com muita surpresa sua, reparou que aquela figura pública, de botas de tacão alto, caminhando num passo gingão de marinheiro em férias, (por favor olhem para mim, vejam quem sou), era olimpicamente ignorado por todos.
O bom do cantor devia estar a sentir-se noutro planeta. Em Lisboa, Genebra e mesmo em Paris saúdam-no, cumprimentam-no, pedem-lhe autógrafos e na sua terra natal é um ilustre desconhecido.
Isto é porque ninguém é profeta na sua terra, ou será alguma dificuldade, alguma patologia com origem num sentimento menor vulgarmente conhecido por inveja…
Quando alguém ganha honestamente no jogo democrático saúda-se e dá-se os parabéns aos vencedores. Por um voto se ganha por um se perde. Mas e há sempre um mas, esta época é estranha, um tempo sui gerenis este nosso tempo. Em plena hecatombe financeira e económica, provocada pela decantada auto-regulação do capitalismo liberal, a Europa vota à direita. A mais antiga democracia europeia, a velha Albion, elege um eurodeputado da extrema direita. Num momento em que a esquerda podia e devia fazer valer as suas teses, (se é que as tem e quer aplicar), contrariando a realidade gerada por políticas conservadoras, o povo europeu vota, por absurdo que seja, nas posições ideológicas que nos trouxeram a este entalanço. Aparentemente o povo do vetusto continente quer mais do mesmo. Já aqui afirmei que mais cedo ou tarde far-se-á um refreshing. Para iniciar um novo ciclo é necessário mudar alguma coisa (pouca) para que tudo fique na mesma. Vivam os Madoff e outros sacerdotes sem escrúpulos. Liberdade imediata para Oliveira e Costa; condecore-se Rendeiro amanhã 10 de Junho. Em casa, temos vindo a assistir há uns tempos a esta parte ao PC e à Intersindical objectivamente a fazerem o mais inteligente, difícil e histórico frete ao partido dos baronatos. Que tempos estes… Todos os partidos ganham e só um perde. Para ser mais exacto só um partido perde, porque a votação mostra que nenhum ganhou. Só pouco mais de um quarto do eleitorado se pronunciou, (considerando a abstenção, votos brancos e nulos) e a única conclusão não abusiva é que a democracia perdeu. Não tenho partido mas não sou apolítico. Enquanto cidadão voto e pretendo ter aqui e ali alguma intervenção cívica. Em tempos destes quem se admirará que uma borboleta provoque um furacão.
Ontem assistimos via televisão ao ministro das Finanças barrado e quase sequestrado por clientes do Banco Privado Português. Berravam alto e bom som que queriam o seu dinheiro de volta, nada mais justo. Devem tentar reavê-lo, reclamá-lo, mas a quem o entregaram. Entregaram-no a um banco privado, baseado no principio duvidoso que a livre iniciativa é que produz riqueza, gere melhor os interesses que lhe são entregues, fazem aplicações com melhores taxas; mais que isso, era o Banco dos Ricos, ou já se esqueceram das 2ªs. e 3ªs.páginas da antiga revista do Expresso, meses e meses a fio. Enquanto ganharam vieram dar algum ao sector público? Declaravam os juros que recebiam? Então com que legitimidade pedem a todos nós que suportemos a estúpida escolha que fizeram porque era chique e dava status. Recordo a expressão sobranceira de algumas pessoas quando me exibiam cartas/chapas com o diminuto logo daquele banco. Curiosamente não registo a visualização de nenhum talão de depósito, dum cheque, duma promissória ou dum título de depósito. Tudo era desmaterializado e pelos vistos volátil também. Colocar todos os ovos no mesmo cesto, entregar as suas poupanças a gestores de fortunas, banqueiros de proveta, especialistas na ruína garantida, autentico alguidar de lacraus, não só é ingénuo é néscio. Resgatá-lo do nosso bolso é ladroeira. Já agora os investidores da bolha reclamem também. Constitua-se o sindicato das vítimas de aplicações não reguladas. Haja decoro. Não me passaria pela cabeça pedir a quem quer que seja que me fosse devolvido o dinheiro que jogo na lotaria, no totoloto ou no euromilhões. Joguei e perdi, temos pena.
Costuma dizer-se que a realidade é sempre mais fantástica que a ficção ou que a diferença entre realidade e ficção é que a esta exige-se que seja credível. Eis algo de fantástico. Perto de ser sexagenário e sabendo que burro velho não aprende línguas comecei a ler o Ser e Tempo de Heidegger.
Enquanto cábula aluno liceal de filosofia, do saudoso Dr.Francisco Pissarra, o meu estudo afogou-se em Kant.
Em paralelo e posteriormente tive passagens meteóricas, anos 60, por Camus, sobretudo com o marcante Estrangeiro, (evoco com frequência Mersault a beber café no velório da mãe, condenado mais por isso do que por ter disparado e morto um homem), caí demorada e um pouco mais fundo em Sartre, desde A Náusea, As Palavras e toda uma série de peças/tese de teatro, li (digeri?) L'Homme UnidimensionneldeHerbert Marcuseporque o estruturalismo era moderno, (após Maio 68), e acima de tudo, tive gosto em aprendercom o irrepreensível pedagogo Bertrand Russel, particularmente na parte da História da Filosofia.
Depois, enfim, veio a fase mais bicuda: traduções da colecção francesa Que sais je?. Aí sim, a coisa complicou-se. A Filosofia era outra e determinava comportamentos, já não era uma coisa que se discutia diletantemente à mesa do café. Visto a esta distância até nem parece mau. Mas foi uma época marcada por raciocínios pretensamente tão anti-dogmáticos que só por si constituíam verdadeiros dogmas de fé. Meados dos anos 70 em pleno "Prec"surge-meLa matin des Magiciens, verdadeiro despertar dos mágicos.
Agora chegou a vez de contactar com Dasein (Presença, Consciência, Pre-sença, Ser Aí)) de Heidegger, conhecer as cópias sem original de Baudrillard, e La différence de Derrida . Prometo não pegar em Levinas.
Suponho que não me fará mal. Já devo ter idade para isso.