
Sei que cresci, engordei e envelheci, mas que as coisas tivessem encolhido…
Não há dúvida, o homem é a medida de todas as coisas.

Rejeitamos tudo que nos faz pensar ou aborrece. Sobranceiros, enjeitamos os nossos eternos credores, aqueles que saíram do país e regressam de férias, bem como os avisos da gripe A. Aos primeiros atribuímos o excesso de calor, as moscas, as filas nos serviços, o mau uso do português, do esquecido francês e o atraso do país; no Outono, em plena pandemia, culparemos o governo.
O nosso tão abstruso e querido sebastianismo potencia o surgimento de derivas absolutas (Sidónio, Salazar). Tu, meu sacana, que te sentes protegido se dependeres de alguém, por pior que te trate, és o carrasco da minha liberdade que te perturba e te deixa órfão.
Só é livre quem estando só está bem acompanhado.
Já conhecia o respeito que o nome inspirava mas foi em 1961, ontem portanto, que conheci o Dr. Abílio Alves Bonito Perfeito, na altura Reitor do Liceu Nacional da Guarda onde eu entrava caloiro. Na idade em que achamos que tudo está errado, queremos afirmar a nossa personalidade medindo/provocando professores, tive a sabedoria suficiente para reconhecer o invulgar carácter, a inteligência e o saber do pedagogo, daquele homem com um andar determinado e tronco um tanto oscilante. Era um andar singular, na sua particularidade diria que tinha algo de fidalgo.
Das pequenas malfeitorias que fui fazendo, quando chamado à reitoria, guardo a atitude pedagógica e o profundo respeito que sempre mostrou.
Depois, as vicissitudes da vida tornaram-no meu cliente. Mantivemos sempre uma relação cordial e amistosa, ele sempre o mestre. Um detalhe curioso, anos depois e já que nunca foi meu professor directo, estranhamente, ou talvez não, foi capaz de identificar de imediato a paternidade de coisa por mim escrita, embora apresentada por outro.
Hoje teve o seu encantamento. Passou para o outro lado. Um verdadeiro homem de saber, um cientista de ciência certa teve agora contacto com o conhecimento total. Já viúvo da Srª. Dr.ª Alice Quintela era pai dum meu condiscípulo de turma, o Eduardo José, que nunca mais vi e a quem envio um fraternal abraço.
Usando a maneira como se expressava, ou talvez a sua metalinguagem, um homem que soube conjugar o verbo servir, partiu.
Mais um pouco de todos nós que se perde. Quis a vida que nunca partilhássemos o mesmo ideário político, mas isso não me impede que diga alto e bom som: honra e glória ao invulgar mestre. Curvemo-nos diante da sua memória e prestemos-lhe a homenagem mais que merecida.
Que a sua alma descanse em paz