quinta-feira, 18 de março de 2010

Rio negro



A vida é o bem mais precioso de que dispomos e a morte (esse nada absoluto) evidencia a sua fragilidade. As reticências postas a um auxílio, a dúvida quanto a um coração que palpita longe, a consciência duma dor que sabemos existir, tudo é preferível à certeza do óbito.
Mais pobre, mais vazio e roubado sou como um rio. Um rio sem pontes. Nasço na serra e caio por entre fráguas, sobressalto-me e caio, caio, caio vezes sem fim no planalto onde encho, engrosso e depois me espraio e espreguiço só e doridamente. Não corro nem vou desaguar ao mar, desvaneço-me, evaporo-me: inodoro, insipido, incumbustivel e incomburente, mas negro como um tição. É assim que me sinto.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Carta aberta a um Lisboeta




Podia começar esta carta aberta contando o caso que lhe deu origem. Mas não, vou tentar escrever apenas mais um post. Só que este tem destinatário.

As nuvens e humidade deram-nos folga. Vieram as cores e com elas a beleza manifesta da vida.

Hoje de manhã cerca das 10 horas vi estas duas lindas pernaltas, julgo que cegonhas, no Parque Polis, e às 6 vi o espectáculo da luz do por do sol a brincar com o gelo formado pela água que escorre das pedras do Torreão. Eis algo só possível nas Terras Altas, na cidade da Guarda, em locais da malha urbana. No resto do país, mais rico, mais desenvolvido, talvez menos bonito e mais embrutecido nada disto se vê. Como pode haver algum hipotético leitor mais cosmopolita e menos dado às coisas simples, mas tão masoquista que leia isto, esta Chancelaria informa que as coordenadas são 40.32N e 7.16W. Pode introduzi-las no GPS que cá chegará, já que a palavra Guarda parece levar alguém apenas ao posto da GNR. É como se fosse para um safari (mas sempre em auto estrada), mais agasalhado. Aqui compreendem-se várias línguas, incluindo o português e somos garantidamente hospitaleiros.

Apetece-me dizer que até a ignorância e estupidez têm que ter limites.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cinzento


Gosto de quase todas as cores desde o vermelho ao violeta, abomino o cinzento e penitencio-me no castanho. Desde o inicio do Outono que respiramos este cinzento deliquescente.
Quero dar largas à imaginação e voar, mas há este permanente cinzento que me prende ao chão. Quero pensar de maneira positiva mas uma angústia cinzenta discorre livre e negativamente.
Ameaçam-nos agora, não com um futuro doirado ou negro, mas cinzento.
Nem sequer me atrevo a chorar, temo que as lágrimas sejam cinzentas.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ao vento


Grossos fios prateados, chicotes que estalam ao capricho deste velho amigo barulhento, companheiro de noites povoadas de medos e sombras de quando era menino. Diga o que disser a ciência, para mim és mais que ar em movimento. És mais que o sopro duma divindade qualquer.

Hoje, quase como sempre, vens acompanhado dessas fantásticas cordas de água que fazem com que os telhados pareçam chapéus instáveis. Ameaças e abanas o poste da minha entrada, afasto o carro.

Mas estou velho pá, já não te temo.


Entrei em casa, tirei as luvas
Cheias de nuvens e cinzentos.

Ficam no móvel à entrada da sala
Gemem medos. Depois soltam estrelas

De fantasia...

A seguir, atirei com o frio do casaco

Para cima duma cadeira.

Rio-me ao vê-lo a aquecer-se enroscado

Noutra roupa, mais seca e limpa
A contar ...fantasias.

Ouço quieto

Os seus dramas e ficções em harmonia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Baralhar e dar de novo


As palavras e as expressões adquirem significados inopinados. Político, cujo significado deveria ser estadista ou pelo menos pessoa dedicada à causa pública desvirtuou-se. Não admira uma vez que temos um Presidente da República e a líder do maior partido da oposição que se dizem não políticos e tratam displicentemente quem se afirma como tal. Sei que isso colhe porque é uma herança de Salazar. Muito boa gente quando classifica alguém de politico ou de ter uma atitude politica, refere-se a esse alguém pejorativamente. Qualquer coisa como o malandro que dribla a lei, o tipo das soluções imaginativas, expeditas, mas pouco curiais. Não é essa a minha linguagem nem nunca o foi.
Ontem, em conversa entre pares e sobre um assunto que interessava a todos os presentes, afirmei que determinada pessoa, que nem sequer conheço, tinha tomado uma atitude política porque tinha baralhado e dado de novo. Queria eu dizer que o bom do homem queria começar de novo, quebrando um vício de raciocínio e procedimento. Claro que não o classifiquei depreciativamente. Hoje, rebobinando a conversa com um dos intervenientes, descobri que foi assim que ficou na fotografia.
C'est dommage

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Bom senso e bom gosto


Basta a falta duma variável para um problema não ter soluções exactas. Encaramos aquilo que a vida nos põe como problemas sem procurarmos, (ou deliberadamente esquecermos?) os dados essenciais. Por isso, antes de entrar em parafuso, procuramos um amigo, um padre, um advogado. Atrevo-me a dizer que se estivermos apenas nós próprios em causa, o problema desaparece, pau...la...ti...na...mente. A questão é o outro… e das interdependências que se criam.

Por formação e carácter não sou adepto da Teoria da Conspiração, nem acredito em bruxas. Existem as leis da sorte, do acaso e da vida, tudo coisa semelhante, pois são as leis da natureza que regulam o acaso. Mas antes que nos doa a cabeça e na esperança que uma epidemia de bom senso surja, façamos uma dieta. De resto a dieta é sempre aconselhável. Para tudo, desde aquilo que comemos, lemos, vemos e ouvimos. Sejamos criteriosos nas escolhas.

Esta Chancelaria informa a todos os interessados que comer (pelos ouvidos) frangos com nitrofuranos, seguir Freeport, ler e ouvir pasquins (impressos, áudio ou vídeo), comprar termómetros e desinfectantes, respirar gripe A, e drogarmo-nos com face oculta é manifestamente prejudicial à saúde.

Basta bom senso e bom gosto. A maioria dos problemas que nos preocupam desvanecem-se, e redescobrimos que viver é bom, e a vida…às vezes (quase sempre) com dor, vale a pena ser vivida.

Importa querer ser mais livre, mais do que discutir a liberdade.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cem continentais vão ajudar a Madeira


Aprendi a rir com os que riem e chorar com os que choram. Sei que prestimosas instituições vendem solidariedade mas a verdade é que a solidariedade se presta, se dá. Sei que ajudar sem contar com gratidão é difícil, raro e dói.
Sei que quando todos choram alguém vende lenços.
Infelizmente também sei, que neste instante, em que na Madeira há quem sofra horrores, há uma fauna pouco recomendável que tenta facturar sobre o sofrimento. Quem lá tem família e amigos pasma com algumas declarações, não pelo que dizem mas pelo que deixam de dizer.
Houvesse uma enxurrada de humildade que levasse o egoísmo e a má criação, porque prosápia é uma coisa, jogar com a miséria é outra.
A política tem que ser sempre o mais nobre de todos os ofícios.