sábado, 28 de fevereiro de 2009

Faça-se luz



Junto a um altar, mais ou menos no meio do nada, disse que tu e eu somos um. Ao que sei ninguém rasgaria a hipoteca que sob nós passava a pender.
Imberbes criaturas de boleia apanhavam o futuro e sem olharem no mesmo sentido, ainda hoje não olham, souberam olhar um para o outro. Labaredas de dúvidas, de ciúmes, de conflitos vários sanados em renites e espirros de recém casados e cálice de vida.
Rasgámos horizontes, voámos juntos mesmo quando agarravas já só os tornozelos. Potenciaste qualidades, minoraste carências. Dois fomos/somos um, mas a agulha da serenidade, do bom senso, aquela que declina apontando sempre o bem ninguém a pode tocar e é/foi só tua. Seria crime cometido por néscia avareza pô-la em causa e dos broncos não deixo noticia.
A luz nasce onde brota a vida, não o dinheiro e a cupidez.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Respirar


…vem sem medo, por mais forte que sejas, chego para ti. Não vou entrar em confronto, vou bailar contigo. Todos os teus movimentos agrestes não conseguem ser uma agressão, transformo-os num movimento gracioso, em pura arte. O maior combate ficará como a coreografia duma dança. E rirei, rirei sempre da tua fúria.

Inspira e expira, uma e outra vez.

Não saberei reproduzir de cor, mas se não foram estas foram outras semelhantes, as palavras ditas por um harmónico residente do lado de lá do espelho, para outro que depressa se afastou. O que ficou parece ser perito em artes marciais e instruído em filosofia Zen. Magro e transparente, com uma pêra incaracterística, que mais se adivinha que se vê, feições mal definidas por sombreadas, é uma personalidade surpreendente. Diz teimosamente para eu respirar e quando questionado responde que apenas aguentarei três minutos sem oxigénio. Interrogo se haverá ali alguma antevisão reservada, solta uma risada e diz-me para beber, sobretudo água pois se não beber ao fim de três dias riscam-me do mapa, e se não comer ao fim de três semanas dou o triste pio. Sustenta uma série de ideias no mínimo bizarras, mesmo com pouca ética, como quando afirma que quem mata, não faz mal nem bem, diz ser esse o seu caminho, e quanto a caminhos este exemplar tem muito que se lhe diga...
Surpreende-me quando pergunta se conheço a alegoria do semáforo e sem esperar que responda vai explicando: vês o vermelho e páras não comas hemoglobina, vês o verde avanças e pasta, porque reconheces a clorofila.
A cadência da conversa é irregular. Não me deixa dizer que não pasto, que me alimento de diversos produtos Ora mais devagar ora mais depressa nunca emudece e dá poucas deixas.
Já meio tarde, peço-lhe um vaticínio, ele assentiu, e disse-me que o faria sobre uma coisa que todos gostam. Pensei que fosse sobre algum clube de futebol, não foi, mas fez com que me risse na mesma. Disse que esta casa há-de ser um Dojo, uma espécie de templo Tao. Se sei o que é o Tao nada mais longe da verdade possível... Imaginei a minha mulher e os meus filhos monges de Shaolin, de manto amarelo e cabeça careca…
Uma gargalhada sonora mereceu semelhante evocação, pois é difícil mesmo com muito boa vontade imaginá-los em semelhantes preparos.
Desapareceu deixando atrás de si uma espécie de canção cuja letra deve ter pedido emprestada a um poeta cubano: há quem morra chorando com dez dias no leito/ há quem morra cantando com dez tiros no peito.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Terça feira de Carnaval


Terça-feira de Carnaval, subo as escadas da minha outra casa, a casa de minhas tias. Há luz no hall e o canapé desmesurado e iluminado pelo sol sobressai à direita. Nunca tinha dado por ele e ei-lo a causar impacte agora que coberto de luz. Um velhinho, pessoa muito ligada à família e meu homónimo inicia, com nítido sacrifício, a subida. Ficando a dever qualquer coisa à educação desato a correr, passo por entre todas, e entro na cozinha entregando-me nas mãos das que tinham tudo que eu gostava e me animavam. O velhinho e eu éramos do género diferente de toda aquela gente. Aquilo era um verdadeiro gineceu. Pela primeira vez tive um assomo de consciência e acto continuo senti saudades de mim, melhor, talvez começasse a ter saudades de quando ainda não tinha nascido.
Aquele dia, foi um dia de conhecimento, quase de revelação, a diferença entre o bem e o mal, nasci para o mundo não tinha ainda oito anos. Percebi que o Carnaval tinha algo de pecaminoso, mesmo de proibido. Comecei por ser uma criança alegre e tornei-me num homem contente de sorriso quase sempre triste. Tive a certeza que por entre a chuva suave e serena havia punhais que caíam a pique
Ainda agora sou uma espécie de ferro, bem volumoso, que flutua, coisa pesada que bóia na fluidez.
Terça-feira de Carnaval, evoco outros tempos doutra gente. Nem na altura, nem hoje sei o caminho. Mas creio saber a missão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O que podes fazer pela tua terra


O bairrismo bem entendido é um valor universal. Melhora todos e faz com que o mundo se torne um local mais agradável. Quanto mais localizado for o interesse, mais geral e de maior importância se converte. Parece um paradoxo mas não é. Até parece que o quanto menor maior; que ninguém se assuste pois a realidade é assim mesmo e no decorrer da vida, esta vai-se encarregando do mostrar. Detesto a minha terra e amo o meu País. Nem sequer é uma frase bonita, nem uma figura de estilo, é uma intrujice sem chanfro, mesmo literário. Trata-se duma aldrabice pura e simples.
Todos já chegámos a uma terra, pequena ou grande, e sentimo-la como nossa. Pode ter acontecido numa aldeia perdida no meio do nada ou numa grande metrópole. O sentido de pertença, a empatia com as pessoas, a identificação com as coisas, sei lá, tudo o que permite que se diga eu gosto muito da tua terra, ou sinto-me em minha casa em Toledo. J'aime Paris ou j’aime la France et les joueurs d'acordeon. São frases verdadeiras ditas do coração.
E o contrário, adoro a minha terra mas ela detesta-me. Após Kennedy não perguntemos o que a minha terra pode fazer por mim mas o que eu posso fazer por ela.
Há um fenómeno engraçado nesta matéria. Quanto mais fiel e melhor filho se é da Guarda mais ela o desconhece. Podia de memória encher uma página toda inteira com nomes de pessoas com carácter excepcional que a minha terra olimpicamente ignora. Terá isto a ver com o facto de arranjarmos quase sempre dirigentes que nos foram impostos ou importámos, filhos adoptivos, cucos, aves de arribação, aves palrantes, semelhante fauna ou outros que o valham? Não é não senhor. Além de ninguém ser profeta na sua terra é necessário entender que nenhum filho faz nada de mais à sua mãe, e nenhum bom filho é tão recomendado como o seu pior irmão. As mães protegem mais os frágeis e acham que os grandes são grandes, não precisam nem de aplauso nem de publicidade.
Assim eu acreditasse…
Sabem o que é ser-se estrume para umas quantas flores florirem

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Há máscaras e máscaras


Pôr uma máscara, fazer-se passar por algo ou outrem, adquirir outra identidade ou aproximar-se de determinada forma de poder é um ritual comum a várias culturas. Faz parte de cultos frequentes em religiões, seitas, sociedades secretas, e até em nossas casas, quando afivelamos a máscara do doente ou do forte. Se o doente coloca a máscara do são é mais que meio caminho andado para a cura. Se o são resolve por a do doente arranjou senha para a cama do hospital.
A máscara tem um poder oculto, sim. Experimentem, se querem ver o que é a autosugestão consciente.
Em todas as sociedades o uso da máscara é sempre um acto meio misterioso, meio proibido, meio concedido. Há sempre a violação do cânone, do preceito, da norma. Há a anomalia consentida como escape à regularidade.
Todas as regras do esoterismo tendem sempre para o maniqueísmo. Quem a põe é sempre o bom, mesmo que faça o papel de mau, porque é-se outro, perde-se a personalidade e ganha-se um poder meio estranho, pois o dano que se faz é doce e sabe-se que não é feito por mal. Não é para ferir assim tanto e aproveita-se para esconjurar antecipadamente os resultados face à dor infligida à vítima e ao escárnio da populaça. Depois de séculos usando adereços como símbolos do poder, da sabedoria e da força, desde as mascarilhas douradas aos cornos e às serpentes, atinge-se a pureza radical. Corpos jovens nus ondeando, apenas maquilhados e oleados onde é preciso e sugestivo, torneados, com cada músculo digno dum tratado de anatomia. É o despojamento de tudo, a forma sublime e simples de dizer aquilo que o homem é, depois de descascado da norma. Um macaco sem rabo, cheio de pretensões e estranha dignidade

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Fotografia


Gosto de fotografia independentemente de ser ou não uma arte menor. Faço-a porque gosto e vale mais um gosto que 500 mil reis na algibeira. Passei anos a fotografar pessoas quer em dias de festa quer no seu dia a dia. Ouvi silêncios e elogios vários, até fechar os ouvidos quando me apelidaram de coração ruim porque as minhas fotos mostravam deliberadamente as rugas na cara das senhoras e não as edito em Photoshop. Julgo-me, ou melhor, sinto-me novo, leve, subtil pairando acima da realidade e as minhas fotos mostram-me como sou: gordo, barrigudo, pesadão, velho e bem agarrado à terra. Poucas vezes, muito poucas vezes, quis cristalizar o momento. Na generalidade das vezes quis apanhar a alma das coisas ou das pessoas, objectivo nem sempre conseguido, mas sempre perseguido. Há pessoas que basta olhar para elas e vemos o ângulo facial certo, o olhar exacto, que dialogam com a objectiva. Há as coisas que nos transmitem beleza e luminosidade natural. Depois há o universo das coisas triviais e amorfas. aí reside a arte de quem manuseia a máquina, desde o saber segurar o aparelho com segurança, escolher um fundo neutro e com poucos elementos, procurar o close-up, ter atenção à luz e saber aplicar a regra dos terços. Se alguém pensar assim, garanto não conseguir nenhuma boa fotografia, só em estúdio, com sorte e com coisas sem vida.
Fotografar é um pouco mais que isto.

Simetrias


O Gatsby é um cão, tão humano como todos os cães. Sofre de todos os males e doenças próprias dos homens, sobretudo as psicológicas. Se saio, ocupa o meu lugar na sala, se os sofás estiverem todos ocupados recusa o lugar que lhe indicam e fareja o recém-chegado e nos dias de festa, se for deixado sozinho, arranja forma de mostrar o seu desagrado ficando de trombil até que lhe fale e faça uma festa, o que de inicio recusa. Tem gloriosos antepassados que participaram em caçadas com imperadores, reis, arquiduques, duques e outros dispendiosos inúteis, embora o galgo fosse também o animal de companhia da burguesia. Tem fantasmas que respeita e estima muito, com os quais estabelece diálogo ainda que indecifrável, sempre que entra num estado de semi consciência, pré adormecimento ou lá o que é, experimenta espasmos de ritmos idênticos ao batimento da mesa de pé de galo. As patitas desenham um traço ponto que ainda não aprendi a decifrar, mas sei a limitação ser minha. Quem conhece a história da máquina alemã Enigma sabe de que falo.
Este “Canis Lúpus”. é sempre bom dar uns ares que sabemos, fiquemo-nos pelos ares, é um Whippet. É filho de campeões e daí lhe vem o pedigree canino, mas quem sabe um pouco mais, garante que ele participa do grande caudal de sabedoria secreta que escorre pelos espelhos e outros pontos de simetria. Concebamos um ovo vulgar, facetemo-lo em miríades de faces, imaginemo-lo incolor e transparente, e ei-lo, o acompanhante daquele não existente que ontem me contou detalhes do namoro de D. João I antes do ser. Coisa engraçada, conforme escrevo e faço referência àquele não vivente, põe-me as patitas no braço esquerdo e parece querer falar. Mas agora, fecho-me a outras sensibilidades, mesmo às caninas. Fica aqui apenas a referência das relações que ontem me foram confiadas entre Álvaro Pais e João das Regras. Álvaro Pais burguês abastado, foi chanceler-mor de D. Pedro I e de D. Fernando I, foi um homem superiormente inteligente, padrasto de João das Regras que além de enteado foi seu brilhante aluno, teve artes de convencer D. João a mandar João Fernandes Andeiro, o Conde Andeiro a encontrar-se com o Senhor mais cedo que era suposto.
Já na Europa não havia feudalismo e Portugal era uma sociedade feudal.
O sinal mais evidente dos novos tempos que aí vinham é dado por aquele ex-chanceler: a crescente importância da emergente burguesia.
Quando D João teve dúvidas e lhe disse que não saberia ser rei, respondeu-lhe: senhor basta dardes o que não é vosso, prometerdes o que não tendes e perdoardes a quem jamais vos ofendeu. Só por si, isto é um verdadeiro tratado politico.