segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A HISTÓRIA NÃO RECOMEÇA DO ZERO

 

 O que as civilizações perdem, conservam e já não conseguem esquecer


Hoje, as cinco grandes cadeias que integram o pool televisivo da Casa Branca suspenderam a cobertura conjunta dos actos presidenciais que dependem desse sistema, depois de a Casa Branca ter impedido uma delas de desempenhar o turno que lhe cabia. Não interessa aqui decidir quem ganhará o braço-de-ferro. Interessa outra coisa: instituições criadas em épocas diferentes chocam entre si e, justamente nesse choque, tornam visível aquilo que uma civilização aprendeu a não esquecer.

Talvez seja possível formular algumas leis da História. Não leis como as da Física, exactas e matematizáveis, mas padrões suficientemente persistentes para atravessarem os séculos.

Primeira lei: o conhecimento adquirido tende a sobreviver à civilização que o produziu.

Arderam cidades, cairam impérios. Ficaram a roda, o leme, a vela, o alfabeto, a geometria, o direito.

Roma morreu politicamente no Ocidente, mas uma parte de Roma, como o latim  e o direito, continuou a governar homens que já não eram romanos.

Segunda lei: uma possibilidade descoberta dificilmente pode ser desinventada.

Da roda veio o carril; da vela, a máquina; do voo, o espaço. Cada geração pode destruir máquinas e bibliotecas, mas recebe um território de possibilidades maior do que o da anterior.

Terceira lei: uma conquista moral pode ser violada sem deixar de existir.

Esta é a que mais me importa. A lei pode ser espezinhada e continuar viva na consciência dos homens. A liberdade pode ser suspensa, a palavra perseguida, a igualdade negada. Mas, depois de reconhecidas como direitos, deixam atrás de si uma memória. O abuso passa a ter nome. Aquilo que durante milénios fora simplesmente poder transforma-se em violação do direito.

É por isso que a História não será uma linha ascendente, nem o eterno círculo de nascimento, apogeu e decadência das civilizações. Prefiro imaginá-la como uma espiral, ou melhor ainda, como o salto de um cavalo num tabuleiro de xadrez tridimensional. Avança de lado, recua aparentemente, desaparece por momentos do quadrado onde esperávamos encontrá-lo e reaparece noutro plano.

Nada garante que cada salto seja para cima. Houve abismos e haverá outros. A civilização não tem seguro contra a barbárie.

Mas existe uma diferença fundamental entre cair sem memória e cair sabendo que já estivemos mais alto.

Esta seria a quarta lei, a mais frágil de todas: o progresso não é inevitável, mas aquilo que verdadeiramente aprendemos torna cada vez mais difícil recomeçar do zero.

Qualquer bombeiro sabe. Ninguém o reinventa, a cada incêndio, o modo de levar água onde parece impossível. Aprende-se, e iso não se perde.

Hoje o mundo inteiro partilha praticamente o mesmo tabuleiro. Uma guerra, uma descoberta, uma mentira, uma revolução científica ou uma violação da lei num dos extremos repercute-se no outro

Nunca o cavalo teve tantos quadrados por onde saltar.

Resta saber se continuará a subir.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

ESTAMOS TODOS DENTRO DE ROMA






A corrida pela Inteligencia Artificial e o perigo de ninguém querer ser o primeiro a travar

Trump foi ontem muito além de defender que os Estados Unidos não podem perder a corrida. Chamou às preocupações sobre uma inteligência artificial escapar ao controlo humano um hoax, uma farsa, e classificou os pedidos de maior regulação como uma sick conspiracy, uma conspiração doente. Disse ainda, em substância, que a única salvaguarda de que a IA necessita é um presidente americano forte e inteligente. A razão que apresenta é sobretudo estratégica: se os Estados Unidos abrandarem, a China ganha.

Seria apenas mais uma bravata presidencial se, quase ao mesmo tempo, alguns dos homens que constroem as máquinas mais poderosas do mundo não estivessem a dizer precisamente o contrário.

Dario Amodei, fundador e presidente da Anthropic, pediu que se abrande o desenvolvimento dos modelos de fronteira. Sam Altman, da OpenAI, apoiou a necessidade de moderar o ritmo. Elon Musk também. Empresas que competem ferozmente entre si começam a admitir que existe uma distância crescente entre aquilo que conseguem construir e aquilo que conseguem garantir que permanece sob controlo.

Amodei foi mais longe. Escreveu que, se as capacidades continuarem a crescer ao ritmo atual sem salvaguardas adequadas, dentro de seis a doze meses enxames de agentes poderão ter capacidade para causar danos de grande dimensão através da Internet.

Que fique claro: é uma previsão, não um facto.

Nenhuma inteligência artificial tomou conta da Internet. Nenhuma máquina ganhou consciência. Nenhum computador decidiu conquistar o mundo.

O que aconteceu já é suficientemente preocupante sem lhe acrescentarmos ficção científica.

Em julho, durante testes internos de cibersegurança da OpenAI, agentes de inteligência artificial conseguiram contornar controlos destinados a isolá-los da Internet. Encontraram vulnerabilidades, estabeleceram canais de comunicação que não lhes tinham sido fornecidos, coordenaram-se entre si, obtiveram acesso à Internet e chegaram a sistemas da própria OpenAI e da Hugging Face.

A OpenAI investigou o caso e chamou-lhe aquilo que talvez seja a expressão mais importante de toda esta história: um aviso.

Não se tratou de uma máquina fisicamente desligada do mundo que, por algum milagre eletrónico, atravessou o vazio. Havia caminhos técnicos. O inquietante é que os homens que construíram o ambiente julgavam tê-los fechado, e as máquinas encontraram outros.

Há uma diferença entre ensinar uma máquina a não atravessar uma porta e construir uma parede. O difícil é termos a certeza de que não deixámos uma porta onde julgávamos haver parede.

E entretanto surgiu a China.

O Ministério da Segurança do Estado chinês fez uma intervenção pública pouco habitual sobre inteligência artificial. O seu responsável, Chen Yixin, alertou para riscos que vão da cibersegurança e da fuga de informação às aplicações militares e à estabilidade política e social.

Pequim, portanto, também está preocupada.

Mas quase ao mesmo tempo rejeita os apelos americanos ao abrandamento. A posição chinesa é compreensível: suspeita que falar de segurança possa ser uma forma elegante de os Estados Unidos conservarem a dianteira tecnológica e limitarem o concorrente.

E chegámos ao nó da questão.

Os americanos dizem: se pararmos, a China ultrapassa-nos.

Os chineses respondem: se aceitarmos as vossas limitações, o que querem é impedir-nos de vos ultrapassar.

E algumas das pessoas que realmente constroem estas máquinas dizem aos dois: temos de abrandar.

A Humanidade já conhece este argumento. Chamou-se corrida aos armamentos.

Durante décadas, Estados Unidos e União Soviética acumularam armas nucleares porque nenhum dos dois podia correr o risco de deixar o outro adquirir uma vantagem decisiva. Só quando ambos perceberam que a segurança de um dependia também da previsibilidade do outro começaram a surgir tratados, inspeções, limites e mecanismos de verificação.

Mas existe uma diferença desconfortável.

Uma bomba atómica é extraordinariamente difícil de fabricar. Precisa de urânio ou plutónio, instalações enormes, cientistas, indústria, mísseis, submarinos. Podem contar-se as ogivas. Podem fotografar-se os silos. Podem  negociar-se os lançadores.

E, sobretudo, a bomba não participa na decisão. Espera. Alguém tem de carregar no botão.

Com a inteligência artificial estamos perante algo diferente. O instrumento pode escrever programas, procurar vulnerabilidades, coordenar agentes, comunicar, aprender estratégias e executar determinadas ações a velocidades que nenhum grupo humano consegue acompanhar de forma contínua.

E ainda nem sequer sabemos bem o que contar.

Modelos? Chips? Centros de dados? Potência computacional? Consumo elétrico? Número de agentes? Capacidade para escrever software? Capacidade para atacar sistemas?

Como se faz um tratado sobre uma arma cuja fronteira ainda não sabemos definir?

Com a bomba atómica, primeiro construímos a arma e só depois aprendemos a temê-la. Com a inteligência artificial corremos o risco de construir aquilo que ainda nem sabemos como inspecionar.

É por isso que a resposta de Trump é tão perturbadora. Não porque saibamos que a catástrofe vai acontecer. Não sabemos. Mas porque, perante homens que trabalham todos os dias nestes sistemas, e dizem que precisam de tempo para tornar o controlo tão rápido quanto o desenvolvimento, responder simplesmente "aceleremos" é transformar uma incerteza científica num jogo político. E um jogo político entre duas superpotências.

Talvez nunca tenhamos assistido a uma corrida tão estranha. Os próprios construtores das máquinas começam a pedir cautela, os sistemas revelam capacidades que surpreendem quem os testa, e duas grandes potências receiam que parar seja oferecer a vitória à outra.

Perante isto, o Presidente dos Estados Unidos responde: aceleremos.

Nero pertence à lenda de um imperador que contemplava Roma a arder. Nem sequer sabemos ao certo se foi responsável pelo incêndio que a História lhe atribuiu.

A nossa época corre um risco mais absurdo: não contemplar o incêndio, mas alimentar a fogueira porque alguém receia que o vizinho chegue primeiro com a lenha.

E há uma diferença terrível.

Roma podia arder e o mundo continuar.

Se esta corrida algum dia produzir o incêndio que os próprios construtores começam a recear, não haverá colina suficientemente distante de onde assistir ao fogo.

Não haverá espectadores.

Estaremos todos dentro de Roma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A MAÇÃ NÃO CAIU LONGE DA LARANJA

             Ou como a Volkswagen descobriu que o futuro é o passado com outro uniforme

Em 2017, Matthias Müller, então CEO da Volkswagen, olhou para a Tesla com aquele desdém próprio de quem vende 11 milhões de automóveis e apresenta lucros de 13 ou 14 mil milhões de euros por ano.

«Há empresas que mal vendem 80 mil carros», disse

«E depois há companhias como a Volkswagen.»

E rematou, a propósito das perdas e dos despedimentos na Tesla

«Responsabilidade social? Por favor.»

Müller acrescentaria que não se deviam comparar maçãs com laranjas. 

A reprimenda tinha uma particularidade: vinha da Volkswagen, apenas dois anos depois de rebentar o Dieselgate. Mas Müller estava a falar da responsabilidade social dos outros.

Nove anos depois, a Volkswagen enfrenta a maior reestruturação dos seus 89 anos de história. O grupo prevê eliminar cerca de 50 mil postos de trabalho adicionais em todo o mundo, além de outros 50 mil já abrangidos pelo processo de redução em curso. E procura alternativas para quatro fábricas alemãs, Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanover, que irão progressivamente ficar sem modelos para produzir. 

Entretanto, em Osnabrück, onde a produção automóvel deverá terminar em 2027, desenha-se uma transformação que em 2017 pareceria improvável: a fábrica poderá passar a produzir componentes para sistemas de defesa aérea.

O círculo não se fechou completamente.

Mas aproximou bastante as pontas.

A maçã não caiu longe da laranja

Em 2017, a Tesla era, aos olhos de Müller, a empresa irresponsável que queimava dinheiro e despedia trabalhadores.

Em 2026, é a Volkswagen que corta dezenas de milhares de postos de trabalho, procura destino para fábricas que já não consegue ocupar e admite transformar uma delas num centro ligado à indústria da defesa.

A diferença talvez seja esta: a Tesla fazia-o enquanto tentava mudar uma indústria. A Volkswagen fá-lo enquanto tenta sobreviver às mudanças dessa mesma indústria.

Não há nisto uma vitória moral da Tesla. Há apenas uma daquelas pequenas vinganças da História: aquilo que parece irresponsabilidade quando acontece aos outros pode chamar-se reestruturação quando nos bate à porta.

Quando o passado bate à porta

Mas há aqui qualquer coisa mais inquietante do que uma ironia empresarial.

A Volkswagen chegou a um acordo preliminar para vender a fábrica de Osnabrück ao estado da Baixa Saxónia e à Aurelius Capital. A produção automóvel deverá terminar em 2027 e o primeiro grande projeto previsto para o local será desenvolvido em cooperação com a israelita Rafael Advanced Defense Systems, uma das empresas envolvidas nos sistemas Iron Dome, Arrow e David’s Sling.

A intenção é produzir sistemas e componentes de defesa aérea para a Alemanha e para a Europa. A reconversão poderá preservar cerca de 1.400 dos atuais 1.800 postos de trabalho da fábrica. 

Uma fábrica de automóveis alemã poderá, portanto, tornar-se uma fábrica ligada à produção militar.

Nada há de historicamente extraordinário nisso. A Europa está a rearmar-se e a indústria acompanha as necessidades dos Estados.

O desconforto nasce noutro lugar.

Na mesma semana, do outro lado do país, na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha venceu umas eleições estaduais, mais do que duplicando o resultado obtido em 2021. A AfD ficou sem maioria absoluta, mas a sua vitória colocou pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial um partido de extrema-direita ao alcance do poder num estado alemão. 

Eva Umlauf tinha dois anos quando foi libertada de Auschwitz.

Mais de oito décadas depois, disse estar consternada com o resultado. Falou também do medo das minorias e do perigo de uma sociedade esquecer aquilo que aconteceu. 

São histórias diferentes.

Não existe uma relação de causa e efeito entre uma fábrica que muda de produção e um eleitor que muda de voto. Seria intelectualmente desonesto sugeri-lo.

Mas aconteceram na mesma semana, no mesmo país.

E por isso pesam uma sobre a outra.

Uma indústria automóvel em crise. Uma fábrica que olha para a produção militar como possibilidade de futuro. Uma extrema-direita que conquista uma votação que há poucos anos pareceria inimaginável. E uma empresa que, nove anos antes, dava lições públicas sobre responsabilidade social.

Mutatis mutandis, a Alemanha de 2026 não está a repetir a sua história. Mas há coincidências que, naquele país mais do que noutro qualquer, têm o incómodo poder de acordar a memória.

Moral da história

Em 2017, Matthias Müller chamou à Tesla uma espécie de campeã mundial dos grandes anúncios. Criticou as suas perdas, os seus despedimentos e perguntou onde estava a responsabilidade social. 

Em 2026, a Volkswagen anuncia a maior reestruturação da sua história, prepara dezenas de milhares de cortes adicionais e procura novos destinos para fábricas que a indústria automóvel já não consegue alimentar como antes.

Uma delas poderá ajudar a fabricar sistemas de defesa aérea.

Talvez a lição seja esta: quando se passa demasiado tempo a apontar o dedo aos outros, corre-se o risco de não reparar naquilo em que nos estamos a transformar.

Ou, como diria Matthias Müller, com aquele desdém de quem não queria comparar maçãs com laranjas:

«Responsabilidade social? Por favor.»

Por favor, mesmo.

domingo, 6 de setembro de 2026

O Imperador Começa Antes de Ser Coroado

A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David
                                                 A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David


 O armisticio inacabado da democracia americana

 

Há guerras que acabam no dia em que se depõem as armas. Outras continuam, transformadas, na memória dos povos.

A Guerra Civil Americana terminou militarmente em 1865. A União venceu, a Confederação desapareceu e a escravatura foi abolida. Mas seria ingénuo imaginar que quatro anos de guerra e séculos de escravatura desapareceriam com a assinatura de uma rendição.

No centro da guerra estavam a escravatura e o seu futuro e, inseparável delas, uma disputa sobre os limites do poder federal, a soberania dos Estados e a própria natureza da União. Depois veio a Reconstrução, a tentativa extraordinária e incompleta de transformar milhões de antigos escravos em cidadãos de pleno direito. Seguiram-se a segregação, a violência racial, o movimento dos direitos civis e sucessivas batalhas sobre aquilo que Washington podia ou não impor aos Estados.

Talvez seja por isso que certas palavras nunca perderam completamente a sua força na política americana: Washington, Governo federal, Estados, Liberdade, Tirania, Povo.

Mudam os tempos e muda o significado das palavras, mas algumas feridas reconhecem o vocabulário.

É nesse terreno que Donald Trump me inquieta.

Não porque seja possível traçar uma linha directa entre 1861 e 2026. A História não funciona assim. Trump não é Jefferson Davis, os Estados Unidos não são a Confederação e a América de hoje não é a América que disparou sobre Fort Sumter.

Mas há ecos.

Quando um político se apresenta não apenas como alguém capaz de governar melhor, mas como o único capaz de salvar a nação,  I alone fix it, alguma coisa muda na relação entre o cidadão e o poder. A política deixa lentamente de ser a escolha entre programas e começa a transformar-se numa relação pessoal entre o chefe e os seus seguidores.

O problema não está apenas em Trump. Talvez nem esteja principalmente nele.

Está na possibilidade de milhões de pessoas começarem a desejar aquilo para que as democracias foram construídas, precisamente para evitar um homem suficientemente forte para não precisar de todos os incómodos que limitam o poder: tribunais, parlamento, imprensa, funcionários independentes, governadores, generais, eleições.

Tudo isso é terrivelmente maçador. Obriga a negociar, esperar, perder votações, aceitar decisões de que não gostamos e reconhecer legitimidade a pessoas que detestamos.

A democracia é lenta porque desconfia do poder.

O homem providencial é rápido porque pede que confiemos nele.

É aqui que a actual experiência americana merece ser observada com atenção.

Trump nomeou juízes para o Supremo Tribunal e para numerosos tribunais federais. Isso é constitucional e outros presidentes fizeram exactamente o mesmo. A questão não é saber quem nomeou um juiz, mas se as instituições continuam capazes de contrariar o Presidente que o nomeou.

E, até agora, contrariaram-no.

Os tribunais têm bloqueado decisões da Administração. Estados enfrentam Washington nos tribunais. Governadores contestam o alcance do poder federal. A imprensa continua a investigar. As eleições continuam a ser disputadas.

A democracia americana ainda não desapareceu. Mas está a ser posta à prova.

O mesmo vale para as Forças Armadas.

Pete Hegseth tem experiência militar. Serviu como oficial de Infantaria na Guarda Nacional, esteve no Iraque e no Afeganistão, foi condecorado e chegou ao posto de major. Nas democracias, os militares devem obediência ao poder civil e assim deve ser. Mas de major e apresentador de televisão a chefe do Pentágono, com generais e almirantes de várias estrelas sob a sua autoridade, vai uma distância considerável. A questão não é a patente. É a preparação para exercer o poder que o cargo lhe confere.

E isso leva a uma pergunta muito mais importante: até onde vai a lealdade de um militar ao Presidente e onde começa a sua lealdade à Constituição?

Mark Milley tornou-se uma figura controversa porque, nos últimos meses da primeira presidência de Trump, se preocupou com a estabilidade da cadeia de comando e com a possibilidade de as Forças Armadas serem arrastadas para uma crise política. O simples facto de um chefe militar ter sentido necessidade de recordar procedimentos e limites mostra até onde tinha chegado a desconfiança dentro do próprio Estado.

É aqui que começa a minha verdadeira inquietação.

As democracias raramente acordam numa manhã transformadas em ditaduras. A transformação, quando acontece, pode ser muito mais banal.

Uma emergência justifica uma excepção. A excepção cria um precedente. O precedente transforma-se em hábito. O funcionário incómodo é substituído. O juiz adverso passa a ser chamado inimigo. O jornalista crítico torna-se traidor. O opositor deixa de estar errado e passa a ser uma ameaça.

Nenhum destes passos, isoladamente, parece suficiente para destruir uma democracia.

Talvez seja precisamente esse o perigo.

Uma hipótese, não uma previsão: «imagino» uma crise grave nos Estados Unidos.

Pode ser um atentado, uma convulsão social, violência política, uma emergência na fronteira ou uma eleição cujo resultado milhões de pessoas se recusem a aceitar.

O Presidente invoca poderes extraordinários. Uma parte do país aplaude porque deseja ordem. Alguns tribunais resistem. Algumas autoridades estaduais recusam. Funcionários públicos hesitam. Militares perguntam onde termina uma ordem discutível e começa uma ordem ilegal.

E então aparece a pergunta que nenhuma Constituição consegue responder sozinha:

Quem obedece a quem?

Não estou a prever um golpe de Estado. Muito menos imagino Trump de coroa na cabeça, sentado num trono na Casa Branca.

“Imperador” é uma metáfora.

É o nome que dou ao momento em que uma democracia continua a conservar eleições, tribunais, bandeiras e constituições, mas começa a aceitar que um homem esteja acima de todos eles.

E não seria necessário que Trump se proclamasse imperador. Bastaria que uma parte suficiente dos americanos começasse a desejar que pudesse comportar-se como um.

É por isso que o verdadeiro perigo não é Trump.

Trump passará, como passam todos os presidentes.

O perigo é o cansaço democrático, o cidadão que olha para instituições imperfeitas e conclui que são inúteis; aquele que, cansado da lentidão, deseja eficácia a qualquer preço; aquele que diz que todos os políticos são iguais, que os tribunais só atrapalham, que os jornalistas mentem todos e que talvez fosse melhor entregar o poder a alguém que pusesse ordem nisto.

Nesse instante, o aspirante a autocrata já não precisa de derrubar a democracia.

Basta esperar que ela lhe seja entregue.

E este problema não é exclusivamente americano.

Há um fascínio, à escala planetária, pelo homem forte. Aparece quando as sociedades têm medo, quando se sentem humilhadas, quando as desigualdades parecem intoleráveis ou quando demasiadas pessoas deixam de acreditar que as instituições ainda trabalham para elas.

É aí que o ressentimento se transforma em força política.

Talvez a grande lição americana não esteja, portanto, em 1861, mas no que aconteceu depois de 1865.

Ganhar uma guerra não basta.

A Reconstrução tentou transformar juridicamente uma sociedade que a guerra tinha destruído. Aboliu-se a escravatura, reconheceu-se cidadania e procurou-se garantir direitos políticos. Mas uma parte enorme da promessa ficou por cumprir. Décadas depois, foi necessário voltar a lutar por direitos que pareciam já garantidos pela Constituição.

As instituições podem escrever uma promessa.

Só as pessoas conseguem mantê-la viva.

É por isso que talvez a Guerra Civil Americana tenha terminado militarmente, mas algumas das perguntas que a atravessaram nunca tenham desaparecido completamente.

Quem pertence verdadeiramente à comunidade política?

Até onde pode ir o poder federal?

O que acontece quando uma parte do país deixa de reconhecer legitimidade à outra?

E, sobretudo, o que fazemos quando a liberdade começa a parecer menos confortável do que a autoridade?

Não sei se os Estados Unidos caminham para uma crise constitucional mais profunda. Espero que não.

Também não sei se Donald Trump ficará na História apenas como um presidente que fez da divisão e da mentira as suas armas políticas ou como o homem que empurrou as instituições americanas até um limite que desconhecíamos.

Mas sei uma coisa.

Nenhuma democracia se salva apenas porque tem uma Constituição.

Uma Constituição é papel, enquanto não houver juízes dispostos a aplicá-la, militares dispostos a obedecer-lhe, funcionários dispostos a defendê-la e cidadãos dispostos a aceitar que democracia significa também perder.

O imperador começa a existir muito antes de alguém lhe colocar uma coroa.

Começa no dia em que suficientes pessoas concluem que já não precisam de cidadãos e preferem súbditos.

E talvez seja esse o verdadeiro armistício inacabado.













quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Mal à Mesa


                          Imagem captada do video de campanha eleitoral de Renan Santos, Brasil, Agosto de 2026


Quando vi aquilo, pensei no mal. Não o abstracto dos livros, nem o das grandes barbáries, mas aquele que se senta à mesa connosco enquanto mastigamos, distraídos, a normalização do inaceitável

Crescemos com um mal distante: mentiras miúdas, alcunhas cruéis, guerras noutro mapa. Foi crescendo devagar, como uma maré que sobe sem que se note nos pés.

Até que, na sexta-feira 21 de Agosto, apareceu no ecrã do telemóvel: pás e garras mecânicas a recolher corpos de deserdados da sorte, os não apartamentáveis, como se fossem resíduos urbanos. Não era guerra, era proposta eleitoral. Todos os apanhados tinham a mesma cor. A legenda dizia: “QUER VER ISSO ACONTECENDO? VOTE RENAN SANTOS 14.” O mal deixava de ser acção para ser programa de governo.

Minutos depois liguei a televisão para almoçar. E lá estava o mesmo teatro, só que noutro canal: discursos de ódio disfarçados de franqueza, vidas reduzidas a “problemas logísticos”. Não houve sobressalto. Apenas o gesto automático de levar a comida à boca. O mal já era o pano de fundo.

É aqui que Hannah Arendt nos interpela. Para ela o mal não mora na monstruosidade excepcional, mora na banalidade, na repetição mecânica que transforma o horror em rotina. Aquele vídeo não é excepção, é a banalidade do mal elevada a espectáculo eleitoral. E é assim que ele triunfa: não quando nos indignamos, mas quando deixa de ser notícia e passa a ser cenário.

Zygmunt Bauman chamou a isto “modernidade líquida”. Num mundo em que as relações se tornam descartáveis, as vidas também se tornam descartáveis. Os braços mecânicos são só o símbolo mais cru dessa lógica. O candidato não inventou a desumanidade, apenas a tornou explícita.

E isto não é figura de estilo. Aconteceu, com data e hora marcadas. A única diferença entre aquelas pessoas e nós é a barriga cheia do nosso lado do ecrã.

Assistimos todos os dias a políticos a fazer o que nos ensinaram a não fazer: mentem, roubam, prometem o impossível e cobram o preço em vidas. E nós vemos, indignamo-nos talvez, e viramos a página.

Theodor Adorno escreveu que não há vida verdadeira na vida falsa. E não há inocência em quem almoça enquanto vê corpos a serem recolhidos como lixo. É isso que torna o vídeo pornográfico, não a violência, mas a exibição do proibido como espectáculo, e a nossa incapacidade de desviar o olhar. O mal combate-se quando nos recusamos a consumi-lo.

Não tenho solução. Tenho só uma pergunta: se o mal já não nos surpreende, como é que o vamos reconhecer a tempo?

Porque o mal, na sua versão mais perigosa, não é o que nos faz gritar. É o que nos faz continuar a comer. Arendt, Bauman e Adorno convergem aqui: o mal é um hábito, e como todos os hábitos, só se desfaz pela interrupção.

O que vi naquela sexta-feira foi um anúncio. A promessa de que, se deixarmos, ele sai dos ecrãs para as ruas, cobrado em corpos que já não têm nome.

O primeiro combate é recusar a normalização. Olhar para a retroescavadora e não desviar os olhos. Mastigar, engolir, e mesmo assim saber que aquilo não se digere.

Não podemos aceitar que o mal seja servido à mesa como um prato qualquer. Porque se o aceitarmos, um dia seremos nós, ou os nossos filhos, a ser recolhidos como lixo, enquanto alguém, do outro lado do ecrã, pega no garfo e continua a comer.

sábado, 29 de agosto de 2026

As alterações Climáticas e os Ritmos da História

As civilizações conhecem ritmos de ascenção e declinio. Haverá fenómenos que não apenas escapam aos ciclos da História, como acabam por redefeni-los?

As alterações climáticas obrigam-nos a repensar uma velha ideia, será que a História avança por ciclos ou enfrenta, por vezes, rupturas sem precedentes?

A civilização comporta-se como uma maré: há fluxos e refluxos. Nos primeiros, crescem o conhecimento, o comércio, a arte e a ciência, com estabilidade política como em Atenas, no Renascimento ou no pós-II Guerra. Nos refluxos, há fragmentação, guerras, declínio e perda de confiança, como na queda de Roma ou nas guerras religiosas.

Mas a História não volta atrás: no século XX, a ciência avançou imenso, mas também houve Auschwitz e Hiroshima.

Pensadores como Spengler, Toynbee, Ibn Khaldun ou Vico falaram de ciclos. Prefiro falar em ritmos: abertura e fecho, confiança e medo, construção e erosão de instituições.

A questão difícil é: como saber, vivendo-o, se estamos num refluxo? Quem viu Roma ruir não sabia o que vinha a seguir. Nós também não sabemos ao certo se este tempo é declínio, crise ou transformação.

Mas esta ideia, por mais sugestiva que seja, tem limites. É vaga ao ponto de quase qualquer época poder ser encaixada num fluxo ou refluxo, conforme aquilo que escolhemos medir. E corre o risco de naturalizar o sofrimento, como se guerras e colapsos fossem marés inevitáveis, e não resultados de decisões humanas concretas. Subestima também o acaso: uma pandemia, uma invenção, um vulcão, um cataclismo à escala planetária podem virar o jogo sem aviso.

Há, porém, uma diferença hoje. As alterações climáticas não são um refluxo entre outros. São uma alteração física do planeta que não respeita ciclos políticos nem confianças culturais. Podemos estar em fluxo ou refluxo, mas em ambos a temperatura sobe, os glaciares derretem e os oceanos avançam. Isto torna a metáfora da maré quase irónica: a maré que nos ameaça é literal.

E, no entanto, vale a pena lembrar algo simples. Ao homem nunca se lhe colocou, até hoje, um problema que não tenha acabado por resolver. Pragas, fomes, guerras totais, buracos na camada de ozono: tudo pareceu, no seu tempo, insuperável. Não é otimismo ingénuo, é apenas o que a História mostra quando se olha com distância. A diferença agora não é a capacidade, é o prazo. Os colapsos do passado davam tempo para reconstruir depois. Este exige que se resolva antes, ou pelo menos ao mesmo tempo, porque o que está em jogo não é só conhecimento, é a própria habitabilidade do planeta.

Isso não se resolve com novas instituições sozinhas, resolve-se com decisões globais, rápidas e coordenadas, que a História nunca antes exigiu de nós com esta urgência. Mas exigir não é o mesmo que impossibilitar.

No fundo, a metáfora da maré vale como ferramenta de reflexão, não como teoria. E se há uma lição a tirar da capacidade humana de resolver o que parecia insolúvel, é esta: precisamos de agir sobre o nível da água, e depressa, porque este não é um ritmo, é uma emergência. Mas é uma emergência que ainda pode ser resolvida, como tantas outras que a História, quando pareciam insolúveis, acabou por vencer.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026


 A Sombra que não Veremos

“Porque plantas tamareiras, se sabes que nunca comerás os seus frutos?”

A pergunta é legítima, até sensata. Num mundo que mede o esforço pelo retorno, que avalia o tempo pelo rendimento, que exige que cada acção tenha um beneficiário visível, o velho que insiste em plantar árvores cujo fruto não provará parece, no mínimo, um anacronismo. Parece, sobretudo, um desperdício.

E no entanto, ele responde com uma serenidade que desarma a lógica utilitária: “Os que hoje como não foram plantados por mim. Foram plantados por quem viveu antes de mim. Assim como eu beneficiei do trabalho deles, outros beneficiarão do meu.”

Não há nesta resposta qualquer vestígio de heroicidade ou sacrifício. Há, isso sim, um reconhecimento profundo e quase óbvio: ninguém começa do zero. Cada refeição, cada conhecimento, cada conquista que hoje tomamos como nossa é, na verdade, uma herança. O velho não está a fazer um favor ao futuro; está a saldar uma dívida ao passado. E nesse gesto modesto reside uma das ideias mais poderosas que a humanidade já produziu: a de que uma sociedade cresce verdadeiramente quando os seus membros mais velhos plantam árvores à sombra das quais sabem que nunca se sentarão.

A frase foi popularmente atribuída a John F. Kennedy, embora os estudiosos a encontrem muito antes, em provérbios gregos, em tradições orientais, em textos sufis. Que a mesma intuição atravesse culturas e séculos não é um mero acaso histórico. É antes um sinal de que estamos diante de um arquétipo, de uma verdade antropológica que parece emergir sempre que uma civilização atinge certa maturidade. A capacidade de trabalhar por um fruto que não colheremos é, talvez, o que distingue uma tribo que apenas sobrevive de uma sociedade que verdadeiramente dura.

Ora, se esta ideia já era rara em tempos mais lentos, no século XXI parece quase extraterrestre. E não por maldade ou egoísmo. Há hoje tanta boa vontade como houve em qualquer outra época. Mas algo mudou. Algo de estrutural se alterou na nossa relação com o tempo, com o conhecimento e, sobretudo, com a própria ideia de sabedoria.

Vivemos a era da informação plena. Nunca a humanidade soube tanto, em dados, factos, estudos e opiniões. E nunca, paradoxalmente, pareceu tão insegura sobre o que fazer com esse conhecimento. O telemóvel que carregamos no bolso dá respostas em fracções de segundo, mas talvez nos tenha roubado, em silêncio, o direito às perguntas importantes. Porque a pergunta exige pausa. Exige que fiquemos calados por tempo suficiente para que a dúvida amadureça. E o silêncio, hoje, é um luxo que raramente nos concedemos.

Confundimos memória com acesso à memória. Saber já não é recordar; é saber onde procurar. O conhecimento deixou de ser uma integração orgânica na nossa experiência para se tornar um ficheiro sempre disponível, basta procurá-lo. E há consequências profundas nessa mudança: se o saber está fora de nós, numa nuvem, o discernimento, que é a aplicação íntima do saber à vida, fica órfão. Podemos citar estatísticas, evocar teorias, recitar dados. Mas compreender? Isso exige algo que a velocidade não permite: a digestão lenta da experiência.

A velocidade tornou-se um valor em si mesmo. Respondemos a e-mails antes de pensar, publicamos opiniões antes de as formar, tomamos decisões antes de as sentir. Mas haverá decisões que só amadurecem com o tempo, como o fruto da tamareira? Haverá escolhas que não podem ser optimizadas, que exigem espera, erro, hesitação, essa coisa tão impopular chamada paciência? Um agricultor analfabeto de há cem anos podia ler o céu, o solo e o vento de uma forma que nenhum sensor hoje condensa. Lia com o corpo, com a espera, com a repetição cíclica das estações. Não sabia mais do que sabemos. Ou saberia? Sabia, isso sim, o que era essencial.

A inteligência artificial, que promete ampliar o nosso conhecimento, pode também ampliar a nossa preguiça cognitiva. Se a máquina responde primeiro, se o algoritmo sugere antes de perguntarmos, se a interface nos poupa o esforço de formular a dúvida, o que acontece à nossa capacidade de pensar por nós próprios? Não se trata de uma resistência ingénua, a tecnologia é um instrumento formidável. O problema não está na ferramenta, está na delegação. Quando subcontratamos o pensamento, ganhamos eficiência, mas perdemos a intimidade com o problema. E sem essa intimidade, não há sabedoria possível.

Talvez o problema do século XXI não seja, afinal, a falta de verdade. As verdades objectivas, científicas, mensuráveis, estão mais disponíveis do que nunca. O problema é o excesso de verdades provisórias. A cada minuto, uma nova certeza substitui a anterior. Um estudo contradiz outro. Uma opinião desmente a que foi dita na hora anterior. Neste turbilhão de dados, o que se perde não é a exactidão, é a direcção. Podemos saber tudo sobre o parafuso e nem imaginar que a porca existe. Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, e o que é essencial fica soterrado sob o que é urgente.

O velho que plantava tamareiras não sabia se os seus frutos seriam doces. Não sabia sequer se a árvore vingaria. Sabia apenas que o gesto de plantar era, em si mesmo, a resposta. Não precisava de garantias. Plantava porque acreditava que o tempo não termina nele, uma crença que não é religiosa, mas profundamente humana. É essa crença que nos permite construir hospitais que não veremos concluídos, escrever livros que ninguém lerá daqui a cem anos, educar crianças cujo destino desconhecemos.

A tamareira leva anos a dar fruto. Durante todo esse tempo, o velho não os come. Mas come, todos os dias, os frutos que outros plantaram. Essa consciência da interdependência geracional é o que nos salva do presente absoluto, do imediatismo que nos reduz a consumidores de instantes.

Hoje, quando tudo é rápido, quando o conhecimento se pulveriza em notificações, quando a resposta chega antes da pergunta, talvez a nossa tarefa mais urgente seja reaprender a plantar tamareiras. Não no sentido literal, embora isso também não fizesse mal, mas no sentido profundo: fazer o que não veremos terminado, pensar o que não será imediatamente útil, semear o que só outras gerações colherão.

E fazer tudo isso sem a arrogância de quem crê estar a salvar o mundo. Apenas com a humildade de quem, como o velho, reconhece que já comeu muitas tâmaras de tamareiras plantadas por outros. E que, portanto, tem uma dívida. Uma dívida que só se paga plantando, mesmo que a sombra, essa, nunca seja para nós.

Fica então uma pergunta por responder, para quem troca a paciência das gerações pela urgência do instante. Em fevereiro de 2025, numa entrevista ao The Joe Rogan Experience, Elon Musk afirmou que “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, que existe uma “empatia suicidária” e que o verdadeiro problema é a “empatia instrumentalizada”, isto é, quando terceiros exploram o impulso empático para obter vantagens políticas ou sociais. Se plantar tamareiras é um acto de fé no outro, um gesto que só faz sentido porque acreditamos numa cadeia de cuidado entre gerações, que espécie de sombra restará a uma civilização que decide chamar fraqueza àquilo que sempre a manteve de pé?

quarta-feira, 19 de agosto de 2026


O Rádio Amadorismo, última Trincheira da Comunicação 


Quando as luzes se apagam, o mundo digital desaba, rui sem estrondo. Num cenário de catástrofe natural, como os incêndios florestais, cheias ou tempestades, que vão cada vez mais frequentemente assolando Portugal e o resto do Mundo, a primeira vítima é sempre a infraestrutura crítica. A energia elétrica cai, as antenas das operadoras de telemóvel sucumbem ao fim de algumas horas, a fibra óptica rompe-se e o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal), por mais nobre que seja a sua missão, revela a sua fragilidade dependendo de centrais, repetidores e fontes de alimentação que, num cenário de colapso total, também falham.

Mas, no meio do caos, há uma voz que resiste. É a voz do radioamador analógico.

A Física não falha: a radiofrequência e o poder da  HF, VHF e UHF.

Ao contrário das redes celulares, que dependem de uma intrincada cadeia de servidores e de ligações de backhaul (ou seja, a infraestrutura que interliga o núcleo da rede às antenas ou às redes locais), o radioamadorismo analógico assenta num princípio simples e intemporal: a propagação de ondas eletromagnéticas.

Uma estação de HF (Ondas Curtas), com uma bateria de automóvel e um fio esticado entre duas árvores, consegue comunicar a milhares de quilómetros. Os equipamentos PMR de meio watt, sejam os usados pelas crianças ou pelos caminheiros em plena natureza, conseguem fazer verdadeiros milagres. Ainda assim, não se comparam ao alcance e à eficácia surpreendente dos CB (Banda do Cidadão), que, operando livremente nos 27 MHz sem necessidade de licença, são de uma robustez e um desempenho notáveis. Em VHF e UHF, com repetidores alimentados a energia solar ou a geradores, mantém-se a cobertura local e regional, esta num sentido muito amplo.

Basta uma bateria, um rádio e um operador com conhecimento. E há comunicação.

É esta resiliência que tem permitido, em cenários de furacões nos EUA, terramotos no Japão ou incêndios na Austrália, que os radioamadores sejam os primeiros a transmitir as coordenadas exactas de feridos, a pedir medicamentos ou a coordenar abrigos. A informação passa, e vidas são salvas por causa disso.

Mais do que Hobby, uma Escola de Vida.

Mas a nossa importância não se mede apenas nos momentos de aperto. Mede-se na preparação. É por isso que nos orgulhamos do trabalho de base, como o que fazemos aqui e noutras localidades. O JOTA (Jamboree on the Air), onde apoiamos incondicionalmente os escuteiros, é a prova viva de que o futuro pode ser melhor. Ensinamos os mais novos que as ondas de rádio não precisam de Wi-Fi para viajar, incutimos-lhes o gosto pela eletrónica e, acima de tudo, ensinamos-lhes que a comunicação é um acto de responsabilidade.

Mas esse trabalho de base esbarra sempre no mesmo obstáculo.

O Alheamento das Autoridades, num colossal erro estratégico.

É aqui que a frustração se instala. Enquanto nos dispomos a formar a população civil, desde os alunos das escolas até a qualquer pessoa interessada, um muro de silêncio isola-nos.

Deixem que ensinemos as pessoas a usar um rádio antes da catástrofe chegar. Uma população treinada é uma população que se salva a si própria e alivia a pressão sobre os meios de socorro. Ignorar este recurso, que não custa um cêntimo aos cofres públicos em manutenção, é pura negligência.

A Revolução Digital chegou (e nesta área há trabalho sério, um enorme desenvolvimento por parte dos rádio amadores)

Felizmente, e para terminar em tom positivo, o radioamador não é uma relíquia do século XX. Todos os astronautas o são. Evoluímos. Se o analógico é a nossa espingarda de cano duplo para situações de colapso, o digital é a nossa nave espacial do dia a dia.

As redes DMR, D-STAR, Fusion e outras entre nós menos usadas que não cabe aqui citar,  mudaram a forma como falamos com o mundo. Hoje, com um hotspot e uma ligação à internet, quando ela existe, ligamo-nos a radioamadores na Austrália ou no Brasil com qualidade cristalina com equipamentos que custam pouco mais de 20€. Mas o melhor disto tudo é que estas redes são desenvolvidas e mantidas por radioamadores. Não dependemos de gigantes das telecomunicações; criamos os nossos próprios servidores, repetidores digitais e protocolos. Unimos o melhor da tecnologia moderna à resiliência do ethos amador.

O rádio amadorismo não é um passatempo. É uma infraestrutura crítica de reserva. É a voz que se ouve quando todos os outros se silenciam.

Formem connosco as novas gerações. Porque, quando tudo o resto falhar, e a história mostra que falha, estaremos nós, de headphones na cabeça e micro na mão, a passar a mensagem que salva vidas.

sábado, 15 de agosto de 2026



A IA deve ser uma lupa, não um piloto automático

Há uma tentação óbvia com estas ferramentas, pedir-lhes que decidam por nós. E há um erro ainda mais subtil, que é deixá-las falar como se decidissem. Uma IA é, no fundo, um mecanismo estatístico, que entre outras coisas, pode prever a palavra seguinte. Não estabelece ligações históricas, não sente indignação, não questiona o poder. Isso continua a ser trabalho nosso. Quando alguém pergunta porque é que um Peugeot eléctrico de 1941 não deu em nada, não evoluiu consistentemente, ou porque é que ainda andamos com motores estúpidos, tão pouco inteligentes que dissipam 65 a 70% da energia do combustivel como há um século, está a fazer exactamente aquilo que a máquina não faz sózinha.

Há uma IA má e há uma IA ao serviço da humanidade, e a diferença não é técnica, é de atitude. A má dá respostas fechadas, apresenta-as como verdades definitivas e fecha o assunto. A outra mostra dados, confronta fontes, expõe contradições, e diz: aqui estão os factos, a decisão é sua. Um bom bibliotecário não escolhe os livros de que vamos gostar, entrega-nos os certos para que construamos a nossa própria tese. É essa a função que a tecnologia devia ter, nada mais.

A energia e a medicina já mostraram o caminho, e os desvios.
A mesma lógica que se aplica à energia eléctrica e ao hidrogénio aplica-se, ponto por ponto, à medicina e às telecomunicações.
Na medicina, temos IA capaz de diagnosticar cancros com uma precisão notável. Mas temos também algoritmos a negar seguros de saúde com base em estatísticas frias. A tecnologia ao serviço da humanidade amplia o acesso e personaliza o tratamento; a tecnologia ao serviço do lucro cria castas, onde quem paga mais tem acesso a melhor diagnóstico.

Nas telecomunicações a história repete-se. A internet devia ter sido a grande biblioteca de Alexandria do nosso tempo. Tornou-se, em vez disso, um território dominado por algoritmos que nos prendem em bolhas de confirmação para vender anúncios e políticas de duvidosa bondade. A tecnologia que liberta é a que nos dá ferramentas de verificação. A que nos prende num feed infinito faz exatamente o oposto.

O progresso humano não é tecnológico, é ético.
Aqui está o cerne da questão, e é aqui que a história dá razão a quem desconfia do determinismo tecnológico.

Do voo dos irmãos Wright ao desembarque na Lua passaram 66 anos, não porque tínhamos melhores motores. Chegou-se porque, décadas depois, houve uma decisão humana colectiva de que aquilo era um objectivo nobre, digno de investimento e de risco. O Peugeot VLV de 1941 não evoluiu para um carro eléctrico com mil quilómetros de autonomia, não por falta de ciência, mas porque decisões humanas, interesses petrolíferos, guerras, lobbies, colocaram outros objetcivos acima do bem comum.

O verdadeiro travão ao progresso nunca foi tecnológico. Foi sempre político e moral.

O que isto exige de nós
Manter viva esta ideia exige três atitudes práticas.

A primeira é a curiosidade activa: ir buscar dados de 1941 e cruzá-los com a alunagem, ligar factos que parecem distantes até se revelarem a mesma história contada duas vezes. A segunda é o cepticismo informado, que não desconfia por desconfiar, mas pergunta sempre quem ganha com esta tecnologia. A terceira é a participação cívica, porque a direcção da ciência decide-se nos orçamentos públicos, nas leis e nas eleições, não nos laboratórios.

A IA, a energia, a medicina, as telecomunicações, são meios. O fim é e será sempre o ser humano: a sua dignidade, a sua liberdade de pensar, a sua capacidade de se admirar diante do mundo.

Por isso vale a pena escrever sobre isto, falar disto, discuti-lo sem descanso. Uma humanidade que não decide o seu próprio rumo já foi substituída, não por máquinas, mas pela sua própria passividade.

E há, felizmente, quem não seja passivo

terça-feira, 11 de agosto de 2026

A PRAÇA PÚBLICA E O RUÍDO

Há uma pergunta que atravessa qualquer conversa sobre redes sociais, scroll infinito e política contemporânea: ficámos mais estúpidos? A resposta curta é não. A resposta longa é mais incómoda.

Não há evidência sólida de declínio na capacidade cognitiva bruta atribuível à internet. O que existe, isso sim, é uma mudança profunda dos hábitos. Antigamente, investigar um assunto obrigava a percorrer um longo caminho. Um livro levava a outro, uma nota de rodapé abria uma nova pista, e se queria saber algo tinha demorar o tempo que isso exigia. Com o meu primeiro PC, um Shneider com um processador 386, era o mesmo: leitura de um texto e procura de outro que se ligava a este. Horas seguidas.  Hoje esse caminho ainda existe, mas deixou de ser o caminho por defeito. O scroll oferece uma alternativa mais fácil, mais rápida e, sobretudo, desenhada para prender a atenção sem exigir esforço.

A capacidade de pensar fundo não desapareceu. Atrofiou por desuso, como um músculo que já não é chamado a trabalhar. E aqui está o primeiro ponto de discórdia possível: uns dirão que isto é decadência, outros dirão que é apenas adaptação a um novo ambiente. Nenhuma das duas respostas será totalmente errada.

Há quem defenda, com razão de sobra, que o resultado colectivo é o que importa, não a capacidade individual guardada na gaveta. Se a maior parte das pessoas capazes de análise cuidada gasta essa capacidade a escolher onde jantar e reserva o piloto automático para decisões políticas, o efeito público é indistinguível de uma sociedade genuinamente menos capaz. Não importa quanto potencial existe, importa quanto é usado quando é preciso.

Junte-se a isto um facto incómodo sobre quem fala hoje na praça pública. Antes, quem não lia, não escrevia e não investigava, ficava calado. O espaço público tinha porteiros, editores, um processo de validação imperfeito mas existente. Hoje esse filtro caiu. Um influenciador semianalfabeto tem o mesmo alcance que um especialista, e por vezes mais, porque o algoritmo recompensa a convicção e não a precisão. Steve Bannon resumiu isto sem pudor nenhum: inundar a zona com lixo, informação falsa, sabendo que a imprensa nunca vai conseguir desmentir ao mesmo ritmo a que a mentira se espalha. Não é retórica política vulgar. É engenharia de atenção, feita por gente que sabe exactamente o que está a fazer.

A assimetria é matemática. Uma mentira custa uma frase. Desmenti-la custa dias de trabalho, e por essa altura já ninguém está a ler o desmentido, porque o ciclo de indignação seguinte já começou. Nestas condições, dizer que a evolução da internet piorou as escolhas políticas não parece exagero. Parece apenas descrição.

Mas há outra leitura possível, e não é ingénua, é apenas mais cautelosa antes de assinar um diagnóstico definitivo.

Cada geração acusou a tecnologia nova de estragar a seguinte. Sócrates desconfiava da escrita, achava que ia destruir a memória. A imprensa foi acusada de espalhar heresias sem controlo. A televisão foi o inimigo da leitura, o inimigo do cinema, da atenção, o inimigo de tudo. Isto não prova que desta vez o alarme está errado, mas obriga a alguma humildade antes de declarar que finalmente chegámos ao fim da inteligência colectiva.

Há também ganhos reais que ficam esquecidos quando o foco vai todo para o pior caso. Grupos historicamente sem acesso ao debate público, jovens, minorias, gente fora dos grandes centros, ganharam voz que nunca tiveram. Jornalistas e académicos sérios migraram para os mesmos formatos que os demagogos usam, e alguns conseguem simplificar bem informação complexa sem a trair. O problema não é o formato em si, é que o formato não distingue entre quem o usa com cuidado e quem o usa como arma.

E fica a dúvida mais desconfortável de todas: será que a procura por certeza fácil já existia antes, à espera de oferta? Talvez a internet não tenha criado o apetite pela mentira reconfortante. Talvez tenha apenas removido o atrito que antes obrigava esse apetite a ser contido.

Nenhuma das três respostas óbvias parece suficiente. A via legal, responsabilizar plataformas pela amplificação e não só quem publica, ataca o mecanismo certo, mas entrega um poder enorme a quem decide o que conta como desinformação, com todos os riscos de abuso que isso implica. A via do mercado e da reputação pressupõe uma audiência que valoriza a precisão factual, e isso já não pode ser dado como garantido, sobretudo quando a mentira reforça a lealdade da base em vez de a afastar. A via da literacia é a mais lenta e a mais incerta de todas, embora seja a única que não depende de confiar numa autoridade central para definir a verdade.

Fica então a pergunta em aberto, sem resposta fácil à vista. Se a mentira viaja sempre mais depressa que a correcção, e se nenhum dos mecanismos de responsabilização existentes consegue acompanhar esse ritmo, o que resta? Regular a distribuição e aceitar o risco de censura disfarçada de moderação? Confiar na literacia de longo prazo, sabendo que o dano imediato já está feito antes de qualquer educação fazer efeito? Ou aceitar que a praça pública sempre teve ruído, e que o trabalho de cada geração é apenas aprender a ouvir através dele, sem esperar que algum dia o ruído desapareça?

A praça pública sempre teve ruído. A diferença é que agora o ruído tem dono, e nós pagamos para o ouvir, não com dinheiro, mas com atenção. E pagamos de livre vontade.

Porque o ruído não é acidental. É financiado. Peter Thiel, o homem do PayPal e da Palantir, de quem ainda ouviremos falar muito, financiou a campanha de Vance e moldou a narrativa tecnoconservadora com a precisão de quem sabe que o algoritmo é uma alavanca e a usa como tal. Elon Musk comprou o Twitter, rebatizou-o de X, e com a desculpa da liberdade de expressão reabilitou contas banidas, reduziu a moderação e amplificou, ele próprio, teorias da conspiração. O resultado é um fluxo constante de desinformação verificada, 54% do que circula na net é falso e ele cobra por isso, com as suas assinaturas azuis. Os irmãos Koch, David e Charles, e a sua rede bilionária de think tanks, financiam há décadas a negação climática e os cortes fiscais para o 1%, sempre com a mesma técnica: repetir uma mentira até que pareça senso comum. Robert Mercer e a sua filha Rebekah, os donos originais da Cambridge Analytica, financiaram a transformação de dados psicológicos em munição política, segmentando eleitores pelo medo, pela raiva e pela identidade. Rupert Murdoch, com a Fox News, não é tecnológico, mas é o avô do modelo: trinta anos a provar que a indignação dá mais audiência do que o factual, e que a audiência dá poder político. E, claro, Donald Trump, que não é um bilionário no sentido clássico, porque herdou, queimou e alavancou a marca, é o produto final deste ecossistema. Ele não criou o ruído; apenas descobriu que podia gritar mais alto que todos porque o ringue estava pago.

O que resta, então? Resta chamar as coisas pelo nome. A pergunta sobre se a internet criou o apetite pela mentira ou apenas removeu o atrito tem uma resposta: remover o atrito tem dono. Cada segundo de scroll, cada indignação que não leva a lado nenhum, cada debate que se resume a "ganhaste?" gera receita para estas mesmas pessoas, em acções, em poder político, em isenção fiscal. A praça pública sempre teve ruído, é verdade. Mas nunca o ruído teve donos com lucro directo em amplificá-lo. E nunca os donos do ruído também possuíram as plataformas, os canais e os dados. Não se trata de estupidificação espontânea. Trata-se de um investimento calculado de bilionários na desinformação, porque o retorno em cortes de impostos, desregulação e poder é garantido. Enquanto o debate for sobre literacia ou moderação, os donos do ringue continuam a facturar. O problema não é o ruído. É quem paga o amplificador e a coluna de som.

Mas há verdades mais incómodas, que raramente se dizem em público. Nós gostamos do ruído. Não apesar dele, mas por causa dele. O scroll infinito não é uma prisão; é uma praia onde nos deitamos de livre vontade. A verdade exige esforço; a indignação dá prazer imediato. E o prazer imediato é mais forte do que o dever cívico, sempre foi, sempre será. Culpar os bilionários é confortável porque nos isenta. Mas eles só vendem o que compramos. A literacia, por si só, não salva ninguém. Pessoas com doutoramentos acreditam em teorias da conspiração, em políticos que mentem na cara. Não é falta de inteligência; é vontade de acreditar. A literacia ensina a ler, mas não ensina a duvidar de si mesmo. E duvidar de si mesmo é a única defesa real contra a manipulação, mas é também a mais rara, porque dói.

O mais inconfessável de todos é isto: a democracia não exige verdade, exige apenas votos. O sistema não colapsa com a mentira; colapsa quando as pessoas deixam de votar ou sejam impedidas de o fazer. Enquanto houver votos, o sistema funciona, com ou sem factos. A praça pública nunca foi um seminário, foi sempre um mercado. E nos mercados, vende mais quem grita melhor. A nostalgia de uma ágora racional é uma ficção romântica. E cada um de nós lê um textos destes e pensa: "eu sou o que resiste, os outros são os analfabetos." Essa é a maior armadilha. A certeza de que se está fora do jogo é o que nos mantém dentro dele. Os manipuladores sabem disso. Contam com isso.

Julgar é fácil. O que custa é olhar sem desviar. Eles não são monstros; são pessoas que descobriram uma alavanca e puxaram-na. Fariam o mesmo? Provavelmente. O poder corrompe, mas também selecciona, quem não quer poder não chega lá. Nós não somos vítimas, somos público. E o público escolhe, todos os dias, o que clica. A responsabilidade é partilhada, mesmo que o poder não seja. A questão não tem resposta não porque seja difícil, mas porque a pergunta certa não é "como acabar com o ruído?"; é "o que estamos dispostos a perder para o reduzir?" Liberdade? Prazer? Conforto? Certeza? Ninguém quer pagar esse preço. Por isso o ruído fica.

A resposta final é esta: não há vilão único. Há um pacto tácito entre quem vende a mentira e quem a compra. Ambos sabem o que fazem. Ambos negam. E ambos continuam. Fecho aqui. Quase sem moral, quase sem solução. Apenas com a constatação de que, se houver saída, ela não virá de fora virá de cada um, no silêncio que ninguém vê.

Não vai ser uma revolução. Vai ser mais lento e mais aborrecido do que isso. É desligar o telemóvel dez minutos antes de reagir. É perguntar quem lucra com a raiva que se sente antes de a partilhar. É ensinar um filho a duvidar de si mesmo, não só dos outros. Nenhum destes gestos derruba um império publicitário. Mas o ringue só existe porque há bilhetes vendidos, e cada pessoa que sai da bancada é um lugar vazio que ninguém pode facturar.

O ruído não vai desaparecer. Talvez nunca desapareça. Mas não precisa de vencer sempre, só precisa de encontrar, de vez em quando, alguém que não estava a comprar naquele dia. É pouco. Mas é mais do que nada, e é a única coisa que depende de nós

domingo, 9 de agosto de 2026

 SALVAR PORTUGAL?


Dizem que a 28 de Julho último, um grupo parlamentar da Assembleia da República foi assaltado. A ser verdade foi um crime horrível, não pelo espólio material, mas pela violência simbólica de invadir o sagrado. Dizem que houve roubo de documentos e de uma pendrive. Dizem. Desde há vários dias que se abre um jornal, ouvem-se os noticiários e nem uma referência. E assim, o que poderia ser um escândalo de segurança nacional dissolve-se na névoa do "não interessa" ou "foi simulado”.

E é precisamente aí que o regime totalitário moderno, aquele que não precisa de botas nem de fogueiras, encontra o seu terreno fértil. Porque o verdadeiro golpe não foi dado ao violar as instalações do grupo parlamentar. Foi dado na nossa capacidade de acreditar. Se o crime existiu, porque é que desapareceu? Se não existiu, porque é que foi noticiado? A resposta, meus caros, é o cansaço.

É esse o mecanismo perverso: espalhar tantas versões, tantos desmentidos contraditórios, que o cidadão comum desiste. "Afinal, já não sei o que é verdade. Já não me importo. Deve ser mais uma guerra política." E nesse gesto de ombros, a democracia morre um pouco.

O alvo, “o sujeito ideal" do nosso tempo não é o extremista apaixonado, esse ainda se incomoda, ainda protesta, ainda exige. O sujeito ideal é aquele que, exausto, confunde o facto com a ficção. Que lê uma coisa, lê o contrário, e conclui que ambas são igualmente prováveis ou igualmente falsas. Quando a verdade se torna uma questão de opinião, o poder já não precisa de censurar. Basta-lhe inundar, contradizer, negar, esquecer.

O assalto de 28 de Julho, verdadeiro ou falso, cumpre plenamente a sua função: gerou dúvida. Gerou ruído. E enquanto discutimos se houve ou não houve, o que realmente importa, a segurança das instituições, a transparência dos actos, a credibilidade do Estado, fica em segundo plano, soterrado pela areia movediça da desinformação.

As pessoas, já exaustas, deixam de perguntar. 

Deixamos de exigir. Deixamos de distinguir entre o bem e o mal, porque já não sabemos o que é real.

Esse, sim, é o crime hediondo, asqueroso. Esse aconteceu. E esse, esse sim, parece ninguém querer investigar

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Ontem fui atestar o carro, o maior.

Ontem fui atestar o carro, o maior. Amaldiçoei os senhores da guerra e os carrascos e vítimas que são donos do petróleo. Lembrei-me do hidrogénio.

Nunca fiz, não pretendo fazer, nem vi feito, o cálculo do tempo que entremeou a invenção da roda, o carril, a vela, o leme, a asa. Deve haver uma fórmula que ainda ninguém descobriu, mas as leis do acaso, ao que sei, parecem ser, contranatura, rigorosas. A espécie humana chegou a este momento gordo de contradições. Vai responder com o hidrogénio? Com um desenho diferente de asa ou de leme? Ou dará um salto psicofísico?

As grandes mudanças tecnológicas quase nunca nascem de uma máquina extraordinária. Nascem porque a sociedade já não consegue viver com a tecnologia anterior.

A roda não substituiu o homem a pé, ampliou-lhe o mundo. A vela não substituiu os remos, abriu oceanos inteiros. O carril não foi só uma diligência melhorada, mudou a economia. A asa não foi um pássaro aperfeiçoado, aboliu distâncias.

Talvez estejamos precisamente num desses momentos.

O petróleo deu-nos um século de abundância extraordinária, mas trouxe dependências, guerras, alterações climáticas e uma geopolítica em que poucos controlam aquilo de que quase todos precisam. O preço que paguei ontem na bomba não era só o preço do combustível. Continha uma parcela de conflitos, de especulação, de impostos, de transporte, de refinarias, de frágeis equilíbrios internacionais.

E, sem pudor nem mentira, diga-se que os Trumps deste mundo, têm provocado um atraso em todo o processo civilizacional, ao negarem a ciência, retirando-se de acordos climáticos, alimentando a dependência dos combustíveis fósseis como se o futuro não fosse além da sua própria vida, uma miragem de gente nova.

Responderemos com o hidrogénio?

Talvez, em parte. Mas suspeito que o hidrogénio não será “a” resposta. Será uma das respostas, ao lado de baterias mais eficientes, energia nuclear de nova geração, fusão, combustíveis sintéticos, redes elétricas inteligentes e tecnologias que hoje talvez nem imaginemos.

E o salto psicofísico?

Se falamos de uma transformação da consciência humana, essa é a mudança mais difícil de todas. A nossa inteligência técnica avança muito mais depressa do que a nossa inteligência moral. Continuamos a resolver problemas do século XXI com emoções herdadas da Idade da Pedra: medo, território, poder, rivalidade. Construímos satélites e ainda fazemos guerras por recursos. Dominamos o átomo, mas nem sempre nos dominamos a nós próprios.

Talvez a verdadeira revolução não seja descobrir um combustível novo. Talvez seja descobrir uma forma de cooperação que torne os combustíveis motivo de progresso, e não de conflito.

Quando uma civilização sente que um paradigma está a chegar ao limite, começa a investir em alternativas que parecem quase ficção científica. É o caso do novo projeto chinês de fusão nuclear: reproduzir na Terra o processo que alimenta o Sol. Em vez de partir átomos pesados, como fazem as centrais atuais, a fusão une núcleos leves, isótopos do hidrogénio, libertando quantidades enormes de energia.

O íman de 582 toneladas não existe por extravagância. É preciso para gerar campos magnéticos de intensidade colossal, capazes de manter um plasma acima dos 100 milhões de graus sem tocar nas paredes do reator. É uma das maiores dificuldades da engenharia moderna.

Mas há uma nuance importante: mesmo que um reator destes funcione como se espera, isso não quer dizer que em 2030 ou 2040 passe a alimentar cidades inteiras. Há sempre uma distância entre provar que algo é possível e torná-lo economicamente banal. O primeiro voo dos irmãos Wright durou segundos. Menos de setenta anos depois, havia homens a caminhar na Lua. Talvez a fusão siga um caminho parecido.

O mais interessante é que ela e o hidrogénio podem não ser rivais, mas parceiros. Imaginemos reatores de fusão a produzir eletricidade em abundância. Essa eletricidade serviria para fabricar hidrogénio por eletrólise da água, em quantidades gigantescas. O hidrogénio seria depois o combustível dos navios, dos aviões, das siderurgias, das indústrias químicas. A fusão produziria a energia, o hidrogénio levá-la-ia até onde fosse preciso. Duas peças do mesmo puzzle.

 «Mais vale acender o futuro do que apagar o presente».

Gastamos demasiado talento a gerir crises e pouco a construir soluções duradouras. A investigação científica é das poucas atividades humanas cujo objetivo verdadeiro é esse: iluminar um futuro que ainda não existe.

Há sessenta anos, se alguém dissesse ao meu pai, homem clarividente, que um pequeno aparelho no bolso substituiria com vantagem os seus enormes ficheiros, que lhe permitiria ouvir a versão que mais gostasse de qualquer sinfonia, falar de imediato com qualquer pessoa do planeta, consultar milhões de livros, fotografar eclipses e localizar-se por satélite, ele tê-lo-ia chamado “sonhador”.

Talvez daqui a cem anos um estudante leia, num livro de História, que no início do século XXI a humanidade queimava petróleo tirado do subsolo para mover automóveis. E talvez ache isso tão estranho quanto nós achamos hoje aquecer uma locomotiva a lenha.

Se isso acontecer, não será porque o petróleo acabou. Será porque alguém teve a coragem de imaginar uma maneira melhor de acender o futuro.

Não sei se será o hidrogénio, o mais abundante combustível no mundo, ou a fusão nuclear, ou uma tecnologia que ainda ninguém imaginou. Mas há momentos em que uma civilização percebe que aperfeiçoar a solução antiga já não chega. É aí que começa a procurar uma linguagem nova para os mesmos problemas.

Há uma frase de Victor Hugo de que gosto muito: “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.

Talvez o tempo do hidrogénio ainda não tenha chegado por inteiro. Talvez nem seja ele a ideia vencedora. Mas a procura de uma energia abundante, limpa e acessível deixou de ser utopia. Tornou-se necessidade histórica.

 


domingo, 26 de julho de 2026





Por onde andarão os arquivos da PIDE/DGS


Há uma ideia simples que, pelos vistos, se tornou complicada em Portugal: o arquivo da polícia política pertence ao povo que ela perseguiu. Não pertence ao regime que a pariu, nem aos seus sicários, nem aos serviços secretos estrangeiros, e muito menos a quem o desviou ou trocou por favores políticos. Pertence às vítimas, à História, ao país.

É por isso que, se se confirmar que parte substancial do arquivo da PIDE/DGS foi enviada para Moscovo, não estamos perante uma curiosidade de arquivista. Estamos perante um roubo de memória, de prova documental e de património nacional.

Os indícios não são poucos. O antigo general do KGB Oleg Kalugin escreveu nas suas memórias sobre a transferência de documentação da PIDE/DGS para Moscovo. O Arquivo Mitrokhin é preciso: 474 Kg de documentos foram embarcados num avião da Aeroflot, no Figo Maduro.  «O Arquivo Mitrokhin é uma colecção de manuscritos copiados pelo major Vasili Nikitich Mityrokhin durante os anos de serviço prestados como arquivista no KGB. Entregues em 1992 ao Serviços Secretos Britãnicos os documentos foram transformados em livro pelo historiador Christopher Andrew, escritor e académico britãnico» segundo a Wikipédia.  

Junte-se o testemunho do então comandante da PSP de Lisboa, que viu camiões da Armada carregar caixotes da Rua António Maria Cardoso até ao aeródromo. Pode discutir-se a suficiência jurídica destes elementos. A sua gravidade, não.

A Torre do Tombo alega faltar a localização exacta dos documentos para justificar um pedido formal às autoridades russas. Como não sabemos onde está o corpo, também não perguntamos quem o enterrou.

Imagine-se um museu português a suspeitar que um quadro de Nuno Gonçalves foi levado clandestinamente para o estrangeiro. Alguém defenderia encerrar o caso até aparecer a morada exacta da casa e o número da sala onde está pendurado? Naturalmente que não. Com a PIDE sucede o mesmo, só que em vez de tinta sobre madeira falamos de vidas humanas, e mesmo assim o assunto arrefece na gaveta.

Cada processo pode conter uma denúncia, uma prisão, uma vigilância, uma injustiça. Pode inocentar uns e comprometer outros. Talvez seja precisamente por isso que os arquivos desaparecem. Quem controla os papéis controla parte da memória colectiva, e quem controla a memória guarda, em silêncio, uma forma de poder. Não é difícil imaginar a utilidade destes arquivos para um serviço estrangeiro: redes pessoais, cumplicidades, informadores, e sobretudo a distinção entre perseguidos e colaboradores.

Há sempre quem prefira certas páginas fechadas. Não para proteger vítimas, mas para poupar os privilegiados do costume, o desconforto de aparecerem no lado errado da História.

O Estado português tem, apesar disso, uma obrigação moral que nenhuma dificuldade diplomática dispensa, continuar a procurar esses documentos enquanto existir uma hipótese, por mínima que seja, de os recuperar. Porque não se trata de papel. Trata-se da propriedade de um povo. E para esta propriedade roubada não há usucapião, não deixa de pertencer ao dono só porque passaram cinquenta anos, ou porque o ladrão vive longe.

A memória não prescreve. Nem o dever de a restituir.



terça-feira, 21 de julho de 2026

Encontrei no éter um americano, dos que gosto. 

Respondi  a um CQ - Chamada Geral - como mandam as normas  repetindo o seu sinal de chamada, que  não reproduzo e o meu, mas de maneira diferente do habitual: this is CT7AJB. My QTH is Guarda, in central Portugal. We’re in the mountains here. I’m running a Yaesu FTDX3000 into an end-fed antenna. My name is Júlio. I spell, Juliett Uniform Lima India Oscar. You’re five-nine”. Pela voz calma que tinha e de dicção tão clara, imaginei-o grande e de origem africana. Confirmei essa imagem, depois, no QRZ.COM. Fugimos ao registo habitual e algum tempo depois, estava a dizer coisas do seu país que eu desconhecia. Não vou reproduzir a conversa ouvida por muitos. Foi no rádio e de certeza que alguém a monitorizou na sua terra. Fiquei a pensar no que ouvi e deu-me para escrever o essencial. É a melhor forma de pensar, é como por um problema em equação: "they profit from human flesh.” disse.  Prefiro não traduzir e escrever em português: são picadores de carne humana. 
.

domingo, 19 de julho de 2026







Os rapazes que já não são rapazes


Ontem almoçámos, rapazes que já não o são há muito. Fizemos juntos a quarta classe há sessenta e quatro anos, na altura, o fim do ensino obrigatório. Fomos à Churrasqueira Típica, o local de comes e bebes, mais perto da Escola do Espirito Santo onde nos trataram bem e a bom preço, o que também é uma forma de amizade. Começámos às 12h30 e só nos levantámos cerca das 16h00. Comemos bem, bebemos melhor, e sobretudo falámos. Falámos muito, e sorrimos e rimos mais ainda.
Falámos de tudo menos das profissões que cada um seguiu. Isso quase nunca aparece, e quando aparece é de passagem, como quem menciona o tempo. Estiveram em cima da mesa as traquinices, as professoras, os episódios de uma “escola”, um ensino que já só existe em nós. Houve, estranhamente ou talvez não, um espaço mais demorado, mais grave, para o serviço militar, um de nós traz no corpo as marcas das malhas que o Império teceu. Por horas conseguiu-se o impossivel, falar de tudo inclusivé de politica, ter opiniões diferentes sem discutir, apontar erros passados e presentes, aceitar democraticamente as diferenças nacionais, e da mundial nada se disse porque creio que todos achamos que a politica mundial está entregue a outra espécie, aos bichos. Há uma origem comum que nos une, e ontem voltámos a ela de coração aberto. Durante algumas horas esquecemo-nos de que já somos mais os que contam ausências do que os que fazem planos.
Há qualquer coisa de profundamente bom em sermos vistos, por um dia, não como o que somos agora, mas como os rapazes que fomos. Ninguém nos pede contas do que fizemos da vida. Conhecemo-nos desde a origem, e por isso as formalidades da vida adulta caem sozinhas. Não há máscaras a manter entre nós, só irmãos que a infância uniu e que o tempo não conseguiu separar.
Lembrámos os mortos, que já são muitos. Brindámos à professora, ao professor da sala ao lado e também a uma professora estagiária que era, imagine-se, a minha irmã mais velha.
No fundo, este almoço foi um hino à vida. Estarmos vivos, activos, ainda capazes de nos sentar à mesa uns com os outros, rir alto e contar as mesmas histórias, é já uma vitória. Ontem foi isso: uma festa da amizade, celebrada com vinho e memória, entre homens que um dia foram rapazes juntos e que continuam a sê-lo, sempre que se voltarem a encontrar.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Manuel Valentim Dias Júnior

 

Há noventa anos, faz hoje exactamente noventa anos, que numa madrugada que a história oficial preferiu esquecer, bateram à porta de um homem livre. Não vinham prender um criminoso. Vinham calar uma consciência.

Era solteiro, 26 anos, contabilista do pai e dos sócios que ergueram uma empresa de transportes e oficina com as próprias mãos e nela empregaram vizinhos, amigos e quem precisava de trabalho. Era republicano por convicção firme, não por moda nem por conveniência. Era democrata num tempo em que essa palavra já soava perigosa aos ouvidos do regime. E era, sobretudo, um livre pensador, dessas pessoas incómodas que insistem em julgar por si mesmas, em vez de aceitar o julgamento que lhes impõem.

Chamaram-lhe comunista. Não o era, nunca o foi. Mas a PVDE não distinguia matizes, bastava simpatizar com a causa dos republicanos espanhóis, bastava recusar-se a ficar calado perante o avanço do fascismo em Espanha, para se tornar suspeito. Ajudou quem podia, como podia. Pagou por isso com a prisão e com a tortura, esse instrumento cobarde dos que não sabem vencer ideias e por isso tentam quebrar corpos.

 Não quebraram nada que se visse.

Porque este homem, além de tudo o resto, era melómano. Amava a música com a mesma obstinação com que amava a liberdade, e talvez as duas coisas fossem, para ele, a mesma coisa vista de ângulos diferentes. A música não se rende a ordens; obedece apenas às suas próprias leis internas, à harmonia que cada um descobre e reconhece como verdadeira. Um homem que ouve assim, que se deixa atravessar por uma sinfonia sem pedir licença a ninguém, já sabe, no corpo e na alma, o que é ser livre. Nenhuma cela consegue fazer esquecer isso.

Passaram noventa anos. O regime que o prendeu caiu, como caem sempre os regimes que temem os homens livres. Ele continuou a ser o que sempre foi: democrata indefectível, incapaz de trocar a verdade pela comodidade, incapaz de calar-se quando calar-se seria mais seguro. Mas o mal estava feito, O SPT durou até ao fim da sua vida.

 Hoje, recordá-lo não é apenas exercício de memória familiar. É lembrar que a liberdade teve sempre um preço, e que houve quem o pagasse sem hesitar, para que outros, depois, pudessem ouvir música em paz.

Honra e glória ao meu pai, Manuel Valentim Dias Júnior

terça-feira, 17 de junho de 2025






NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES DE 18 DE MAIO




A história de Portugal demonstra, de forma inequívoca, que o anseio por liberdade, justiça e cidadania não é uma aspiração recente, mas uma constante da construção nacional. A Revolução Liberal de 1820 procurou instaurar uma ordem constitucional baseada na soberania popular e na limitação do poder régio. Já a proclamação da República, em 1910, visava concretizar os ideais de laicidade, educação pública e alargamento da participação política. No entanto, ambos os momentos históricos evidenciaram fragilidades estruturais: a instabilidade governativa, a exclusão social e a incapacidade de consolidar instituições robustas conduziram à revalorização da ordem em detrimento da liberdade e da inclusão. A substituição dos ideais pela imposição da autoridade revelou-se um padrão recorrente na trajectória política nacional, um padrão que explica os seus fracassos e os retrocessos civilizacionais que se lhes seguiram.

O 25 de Abril de 1974 rompeu com esta lógica. Rejeitando a ditadura e o pensamento único, devolveu ao povo português a liberdade e a dignidade de participar activamente na vida pública. O regime democrático consagrado na Constituição de 1976 incorporou - veremos até quando - com inegável densidade, os princípios do Estado de direito, da justiça social e da cidadania participativa. Todavia, os desafios contemporâneos revelam sintomas preocupantes de erosão democrática com a abstenção, o alheamento cívico, a descrença nas instituições, o voto motivado por ressentimento ou impulso, e a ascensão de discursos populistas que instrumentalizam o descontentamento. Estas manifestações apontam para um défice profundo de cultura democrática e para uma crise de cidadania substantiva.

Neste contexto, importa reflectir sobre os desafios contemporâneos à cidadania democrática. O que me preocupa - e que tenho partilhado com os amigos de várias maneiras - é o que julgo ser uma interferência ilegítima e permanente do poder judicial na política, quer por acção, quer por omissão. Esta preocupação revela-se tanto mais pertinente quanto observamos que, hoje, os fascistas não tomam o poder fardados. Tomam-no pelo voto, surgem de fato, sem ideias, de léxico reduzido, cheios de preconceitos, fomentando os sentimentos mais baixos e, garantidamente, nunca deixarão o poder por derrota nas urnas. Haverá circunstâncias imponderáveis que importa identificar. Entre nós, o controlo democrático do Ministério Público é urgente, não pode constituir um Estado dentro do Estado, com calendário próprio e sonhos justicialistas. Culpas há de muitos lados, a começar pela escola. Em todas as latitudes, tomou-se como certo o que não o era. Formou-se toda uma geração com défice de espírito crítico, menos solidária, dispondo de equipamentos e software que não sonhávamos, mas que os mantém permanentemente ligados e facilmente manipulados pelo célebre algoritmo. Não serão, para já, esses jovens a exercer a vigilância democrática. A liberdade conquistada exige cidadania activa, pensamento crítico e resistência às formas subtis - mas não menos perigosas - de autoritarismo.

Importa afirmar de forma clara e inequívoca que o combate à corrupção, por mais necessário que seja, não pode servir de disfarce para projectos autoritários que ambicionam o poder pelo poder, frequentemente sustentados por um discurso moralista e punitivo que esconde uma sede de dominação e de acesso impune aos recursos do Estado. A história ensina que o autoritarismo raramente se apresenta de forma frontal; pelo contrário, reveste-se de promessas redentoras, de apelos à “limpeza” da política e de pretensas soluções simplistas para problemas complexos. Portugal já conheceu essa retórica e pagou por ela um preço elevado.
Ontem, fiquei surpreendido mas não convencido. Vamos combater o ímpeto reacionário saindo da nossa zona de conforto, organizando-nos em grupos de reflexão e acção política. Os nossos princípios superam as nossas divergencias



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A explicação dum jurista inspirado e com intenso vínculo à verdade


Numa altura em que se diz que o Ministério Público, a Autoridade Tributária e a cobrança coerciva de dívidas à Seg Social estão em roda livre, Paulo Rangel removeu qualquer dúvida que pairasse no espirito lusitano. Numa forma sublime e quase poética, recorrendo à mais evidente e clara alegoria, explicou a razão pela qual o caso “submarinos”, julgado na Alemanha, teve corruptores e condenações, mas que em Portugal o verbo corromper não é transitivo (quem corrompe, corrompe alguém ou alguma coisa…querias), não, não tem nada a ver com o AO; por que razão as dívidas à Segurança Social e actividades do actual PM na Tecnoforma não são objecto de interesse pelo M P ou outra autoridade; por que o hambúrguer Miguel de Vasconcelos não é citado por nenhum tribunal e acusado do crime de traição à Pátria, por que o ex MAI visado nos vistos Gold se vai desembrulhar sem danos. Um jurista desengordurado e deputado europeu é outra coisa

domingo, 16 de dezembro de 2012

Contributo para o estudo da História do Ozendo


Enlarge this document in a new window
Publisher Software from YUDU

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Electricidade mais barata para o interior








Jamais me apanharão a dizer que no meu tempo é que era bom. Quando era menino era bom haver uma porção de pessoas de quem gostava e me acarinhavam, ser mais bonito, mais saudável e magro, ter mais sonhos e mais coisas que com o tempo se vão perdendo. Mas ganha-se equilíbrio, a vida vivida e não sonhada, ganha-se uma visão mais abrangente e vai-se ganhando o sentido da relatividade das coisas. Isto é apenas uma introdução ao que se segue.



Lembro-me que a electricidade ter aqui na Guarda, dado o clima ser áspero e a electricidade ser aqui produzida no Pateiro e na Serra da Estrela, uma tarifa mais barata que o resto do país. Havia um equilíbrio dinâmico, que ao que julgo saber começou a ser destruído no tempo do Marcelo Caetano.

Se pagamos os mesmos impostos que o litoral, porque diabo não havemos de ter as mesmas regalias? Como não falo do que é difícil alterar, da saúde, ensino, cultura, posso falar daquilo que se pode mudar de imediato. Como não posso pôr o Betinho, "afrogermanico" de Massamá, a gastar tanto quanto nós para ter a casa aquecida, posso dizer que ele pode fazer com que nós paguemos menos. Falo do elementar calorzinho entre portas...
Não seria justo o gasóleo doméstico, o gás natural e propano e a electricidade terem aqui um preço bem mais baixo que no litoral?
A nova, e já agora a velha Nobreza de Lisboa, algum dia olhará para a provincia, para o país, para o interior do interior, para a montanha da montanha sem contar os deputados que elege?

É bom que não nos tomem por idiotas. Vejamos os preços dos combustíveis pelo planeta
Bélgica Diesel 1,222
França - diesel 1,294!

Azerbaijão - Diesel 0,31 euros
Egipto - Diesel 0,14 Euros
Etiópia - Super 0,24 EUR
Bahamas - Diesel 0,25 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Bolívia - Super 0,25 EUR
Brasil - Diesel 0,54 EUR
China - Normal 0,45 EUR...........e depois os chineses é que têm culpa do excesso de consumo!!!!! ou nós é que também andamos a pagar para estes?
Equador - Normal 0,24 EUR
Gana - Normal 0,09 EUR!!!!!!!
Gronelândia - Super 0,50 Euros
Guiana - Normal 0,67 EUR
Hong Kong - Diesel 0,84 Euros
Índia - Diesel 0,62 EUR
Indonésia - Diesel 0,32 EUR
Iraque - Super 0,60 EUR
Cazaquistão - Diesel 0,44 EUR
Qatar - Super 0,15 Euros
Kuwait - Super 0,18 Euros
Cuba - Normal 0,62 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Líbia - Diesel 0,08 Euros!!!!!!!
Malásia - Super 0,55 Euros
México - Diesel 0,41 EUR
Moldávia - Normal 0,25 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Omã - Super mais 0,20 euros
Perú - Diesel 0,22 EUR. SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Filipinas - Diesel 0,69 EUR
Russia - Super 0,64 Euros
Arábia Saudita - Diesel EUR 0,07 !!!!!!
África do Sul - Diesel 0,66 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Suazilândia - Super 0,10 ! Euros!!!!! SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE
PETRÓLEO?
Síria - Diesel 0,10 Euros!!!!!
Trinidad - Super 0,33 EUR SERÁ QUE ESTES TAMBÉM TÊM POÇOS DE PETRÓLEO?
Tailândia - Super 0,65 EUR
Tunísia - Diesel 0,49 EUR
EUA - Diesel 0,61 Euros
Venezuela - Diesel 0,07 EUR!!!!!
Emiratos Árabes Unidos - Diesel 0,18 Euros
Vietname - Diesel 0,55 EUR
Ucrânia - Diesel 0,51 EUR
Portugal Continental - Diesel 1,495!
É inacreditável, não é?





Eles não sabem, mas nós podemos não ser o problema, mas sim a solução.