
Construída na antiga judiaria foi casa de judeu com toda a certeza: porta larga para o comércio e porta estreita para a residência. Era a Casa das casas, a essência de todas as casas. Era grande, tinha história, calor humano e era o centro de todo um Universo. Gerações ali foram criadas.
Aquela casa foi o domicílio duma família, foi escola, sopa dos pobres, igreja, casa de saúde e repouso. Sei do que falo. Vivi lá.
A maioria das recordações de infância e adolescência, os sonhos de grandeza e sacrifícios, receitas infalíveis para a salvação da humanidade ali nasceram e ali foram acarinhados na loucura dos meus verdes anos.
Falar daquela casa é possível, mas de quem lá viveu, não me acho capaz. Posso referir-me a alguns dos frequentadores, que serão hoje o seu único registo histórico, a pen-drive ainda disponível.
Acedia-se à casa por uma escada, entrava-se no hall e à esquerda um pouco mais longe a cozinha. A mesa oval de madeira, sempre posta, o fogão de lenha sempre aceso.
Na escada, nos dias marcados, juntavam-se pessoas e ouvia-se: - Estão ali os pobres de tal terra, ou num tom mais sombrio, estão ali os doentes do Sanatório. Isto não correspondia exactamente à verdade, porque a verdade era mais pesada. Estavam ali os doentes que tinham estado no Sanatório e de lá tinham sido expulsos. Deserdados da saúde e da sorte a todos os níveis, mantinham-se na Guarda pelos seus bons ares. Todos tinham a sua própria louça, que era lavada e guardada à parte, num velho armário de tom azul.
Escola selecta de muitos que se preparavam para o exame de admissão ao Liceu, verdadeiro tirocínio para quem queria voar até ao ensino secundário.Também foram centenas de candidatas a Regentes dos Postos de Ensino, que habilitadas com a 4ª classe, ali fizeram uma espécie de pós-graduação que as preparava a fazerem um “Exame de Estado”. Se aprovadas, passavam a Senhoras Regentes, espécie de professoras/monitoras num tempo antes da pílula, em que a população se reproduzia com acinte, e em que a doutrina oficial era que o português médio devia saber ler escrever e contar.
Durante muitos anos aquela casa, numa área suficientemente grande, foi a única com telefone, o que só por si a tornava um serviço público.